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Fusão pode criar terceira maior operadora de petróleo do País, mas negociação vai exigir ajustes

União entre as petroleiras independentes Petroreconcavo e 3R Petroleum é bem-vista pelo mercado; há arestas na precificação das empresas e diferenças na visão de negócio

7 fev 2024 - 23h11
(atualizado em 8/2/2024 às 09h11)
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RIO - Bem-vista pelo mercado, a possível fusão entre as petroleiras independentes Petroreconcavo e 3R Petroleum na produção em terra faria surgir a terceira maior operadora de petróleo do País, com produção de mais de 80 mil barris de óleo equivalente por dia (boed) já em 2024, só atrás de Petrobras e da Prio em operação própria.

Os rumores, que ganharam materialidade nas últimas duas semanas, fizeram as ações da 3R subir 10% no último mês até esta quarta-feira, 7. Já o papel da Petroreconcavo se valorizou 7,8% no período.

Redução de gastos com pessoal e infraestrutura, além de balanço comum mais equilibrado, com espaço para novas consolidações, são os argumentos que animam as partes nos bastidores. Mas haveria, também, arestas a serem aparadas na mesa de negociação, que deve ser estabelecida caso a 3R acolha a proposta de sociedade de iguais da Maha Energy, que hoje tem 5% de participação na 3R por meio de derivativos e 15% da subsidiária 3R Offshore, empresa que permaneceria independente.

Em carta recebida pela 3R ainda em 18 de janeiro, a Maha propõe uma fusão de iguais do onshore da 3R com a Petroreconcavo. A dívida relacionada à operação onshore da 3R (US$ 1,7 bilhão) se somaria ao baixo endividamento da atual concorrente (US$ 187 milhões), o que levaria a uma alavancagem de 1,4 vez o Ebitda composto, estimado em US$ 1,1 bilhão para a nova empresa em 2024.

Exploração de petróleo em campo terrestre, no polo Potiguar, no Rio Grande do Norte
Exploração de petróleo em campo terrestre, no polo Potiguar, no Rio Grande do Norte
Foto: Divulgação / 3R Petroleum / Estadão

Ainda pela proposta, a nova petroleira onshore ficaria sob o comando do corpo executivo da Petroreconcavo, mas com board misto. A 3R contratou assessoramento do Itaú para avaliar o desenho de fusão proposto. Segundo fontes, a Petroreconcavo também se movimenta, mas aguarda a formalização da proposta pela 3R.

Impasses

A aresta mais óbvia a ser superada passa pela precificação das duas empresas, já que hoje a Petroreconcavo tem valor patrimonial superior ao da 3R em sua operação onshore. Outra diz respeito a diferenças na visão de negócio delas.

De acordo com relatório do UBS BB, partindo da precificação da participação da Maha Energy na subsidiária 3R Offshore e considerando a precificação análoga na 3R Petroleum, a operação onshore da 3R teria valor entre 20% e 30% inferior ao da Petroreconcavo (US$ 1,42 bilhão). Ainda assim, o analista chefe de Petróleo e Gás Natural do UBS BB, Luiz Carvalho, diz que essa diferença não é encarada pelo banco como adequada para orientar a transação.

"Com base em nosso valuation (avaliação) atual para cada companhia, teríamos um racional de 53/47 para o deal (acordo), o que é bem próximo dos 50/50 propostos", pondera o especialista. O relatório do UBS BB reforça que a eventual fusão parece positiva, dadas as "relevantes sinergias comerciais, de infraestrutura e operacionais entre as operações".

Fontes de mercado argumentam que o desequilíbrio nos valores de mercado seria mais do que compensado pela inclusão de infraestruturas da 3R, como o terminal, unidade de processamento de gás (UPGN) e a refinaria Clara Camarão no balaio da nova empresa.

Hoje, a Petroreconcavo precisa das instalações da 3R para escoar petróleo e processar gás. Uma pessoa a par da operação diz que, se a fusão não for à frente, em questão de poucos meses o uso do terminal pode virar objeto de litígio judicial.

Para além disso, diz, "saltam aos olhos" as sinergias operacionais relacionadas à perfuração, operação e revitalização de poços, devido à proximidade dos campos de produção das duas empresas, tanto no Rio Grande do Norte quanto na Bahia.

'Apoio filosófico'

Uma pessoa a par das tratativas dentro da 3R afirma que os maiores acionistas da companhia — incluindo a Gerval Investimentos (braço de investimentos que tem entre os acionistas membros da família Gerdau), que tem 8,4% das ações e o BTG Pactual, com 5,8% — estariam alinhados à ideia da fusão proposta pela Maha. Segundo essa fonte, haveria "apoio filosófico" grande à tese entre acionistas e, no momento, seriam discutidos pormenores para que uma proposta seja levada à Petroreconcavo.

Apesar do alinhamento, o Estadão/Broadcast apurou que a Maha Energy busca acelerar as tratativas nos moldes por ela propostos. Uma apresentação sobre a proposta da Maha em seu site aponta "corrida competitiva" e onda de fusões e aquisições no setor de "magnitude raramente vista desde as megafusões da década de 1990 e início de 2000?.

A mesma apresentação traz um calendário, com data final para formalização da proposta à Petroreconcavo em 28 de fevereiro; finalização da negociação e acordos com Petroreconcavo ao longo do segundo trimestre; e obtenção de aval de autoridades e credores no terceiro trimestre deste ano. Mas hoje a avaliação é que as discussões poderiam andar de forma mais célere dentro da 3R.

Outro executivo ouvido pelo Estadão/Broadcast acha que a fusão vai prosperar, mas aponta que diferenças entre as visões de negócio das partes é um obstáculo. Segundo ele, a 3R tem um pé maior no mercado financeiro e não se furta à lógica de curto e médio prazo, com mudanças frequentes na composição acionária, endividamento e estrutura de capital mais complexa.

Já a Petroreconcavo é definida como uma empresa baiana, tradicional do setor, com participação do Opportunity (23,4%) e do grupo Perbras (4,2%), além de PetroSantander (19,6%) e outros grandes acionistas. Na leitura do executivo, trata-se de empresa mais afeita ao longo prazo. "Eles vão ter de chegar a um meio-termo para a nova empresa", diz.

Ele destacou, ainda, que a proposta de momento não pegou ninguém de surpresa, nem nas empresas envolvidas e nem no restante do setor, visto que o movimento já havia sido ventilado no passado recente. Ele observou, também, que pode haver alguma resistência do corpo executivo da 3R, que perderia poder na nova empresa. "Para o acionista pode ser ótimo, mas a 3R que sobrar vai ficar com ativos offshore que são poucos e desafiadores", disse.

Procurada, a 3R informou que a proposta encaminhada pelo acionista (Maha) será analisada por seu conselho de administração. E acrescentou que contratou instituição financeira (Itaú) para "suportar a análise da operação, assim como da melhor estrutura societária para implementação da potencial transação, caso venha a ser concretizada". A Petroreconcavo não respondeu.

Estadão
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