Empresas reduzem exigência contratual sobre diversidade na negociação com fornecedores no Brasil
Segundo pesquisa do Instituto Ethos, proporção de companhias que faziam exigências não discriminatórias na cadeia de suprimentos caiu de 95,4% para 67,4% entre 2025 e 2026
Apesar de a maioria das empresas no Brasil declarar apoio à diversidade e inclusão em seus valores estratégicos, pesquisa do Instituto Ethos revela uma forte retração dessa pauta na negociação com fornecedores. A exigência contratual de não discriminação despencou de 95,42% para 67,42%, e o uso do tema como critério de contratação caiu para 35,61%. Apenas 26,21% registram dados dos parceiros, expondo a falta de indicadores e a urgência de integrar a agenda aos processos reais de compras e negócios.
Embora as empresas que operem no Brasil continuem afirmando que mantêm compromisso com os temas de diversidade e inclusão, a pauta tem estado em decadência no âmbito das negociações entre as companhias e seus fornecedores. É o que mostra o mapeamento "Pesquisa Ethos de Diversidade, Equidade e Inclusão 2025-2026", realizado pelo Instituto Ethos com uma amostra de 206 organizações, 77% delas de grande porte.
Dados cruzados entre a pesquisa divulgada neste ano e o levantamento feito no ano passado mostram que as quedas proporcionais são grandes. Considerando as 135 empresas que participaram das duas últimas edições, a proporção de organizações que exigiam contratualmente que seus fornecedores se comprometessem com a não discriminação caiu de 95,42%, em 2025, para 67,42%, em 2026.
Além disso, a capacitação de fornecedores em princípios de igualdade e não discriminação caiu de 67,42% para 34,85%; e a consideração de diversidade, equidade e inclusão como critério para contratação, homologação ou avaliação de fornecedores passou de 63,64% para 35,61%.
As quedas ocorrem apesar de 90,29% das organizações afirmarem incorporar o tema de diversidade e inclusão ao planejamento estratégico do negócio. E, mais ainda, 99,03% o reconhecerem que a agenda está nos seus valores e princípios corporativos; e 99,51% a incluírem em seus códigos de conduta.
"É justamente na cadeia de suprimentos que encontramos alguns dos sinais mais expressivos de perda de consistência (das políticas de diversidade nas empresas)", avalia a diretora-adjunta do Instituto Ethos, Ana Lúcia Melo. "São quedas importantes e que nos fazem olhar para a cadeia de valor como uma das grandes fronteiras da agenda."
Segundo Melo, trata-se de uma questão de maturidade de gestão, uma vez que, durante muito tempo, a diversidade foi tratada predominantemente como uma agenda de pessoas, cultura e recursos humanos. O passo seguinte, diz ela, é compreendê-la também como uma dimensão dos processos de negócio.
"Quando a agenda chega a compras e fornecedores, ela passa a exigir mudanças em processos bastante concretos: critérios de contratação e homologação, avaliação de fornecedores, cláusulas contratuais, coleta de dados, acompanhamento e, em alguns casos, desenvolvimento da própria cadeia. Isso exige que a empresa deixe de perguntar apenas: 'Qual é a nossa política de diversidade?' e passe a perguntar também: 'Como nossas decisões de negócio reproduzem ou enfrentam desigualdades?'".
Ausência de indicadores
Os dados mapeados pela pesquisa mostram ainda que há ausência de indicadores passados ou exigidos pelas empresas para sua cadeia de valor. Somente 26,21% das companhias entrevistadas registram os dados sobre políticas e práticas desenvolvidas por seus fornecedores de promoção da diversidade, equidade e inclusão.
Sem informação, a empresa tem pouca capacidade de acompanhar a evolução da sua própria cadeia de valor, alerta Melo. De acordo com a gestora, o registro não é só importante para produzir um indicador, mas também para permitir conhecer a realidade dos fornecedores, identificar pontos críticos, estabelecer prioridades e acompanhar se as ações adotadas estão produzindo mudanças.
"Quando apenas 26,21% das empresas registram esses dados em seus sistemas de gestão, temos uma dificuldade importante de transformar a agenda em gestão baseada em evidências. E isso também limita a capacidade de estabelecer metas e cobrar evolução dos fornecedores. Aquilo que não é conhecido, acompanhado e analisado dificilmente consegue ser gerenciado de forma consistente."
Para a especialista, a mudança nesse cenário é necessária, e o primeiro passo para isso é fazer com que diversidade, equidade e inclusão deixem de ser um tema exclusivamente associado à área de pessoas e passem a integrar os processos de decisão da empresa.
Isso significa:
- Estabelecer critérios claros para contratação e avaliação de fornecedores;
- Incluir compromissos de não discriminação e acessibilidade nos contratos;
- Capacitar fornecedores, registrar e acompanhar dados;
- Definir responsabilidades e metas.
Outra dimensão, segundo ela, é anterior a essas recomendações: é preciso que a liderança reconheça que a cadeia de valor também expressa os valores e as escolhas da empresa. Melo lembra que os resultados da pesquisa mostram que 90,29% das empresas já participam de ações coletivas voltadas à promoção da diversidade, equidade e inclusão. Diante disso, o próximo passo é transformar esse compromisso coletivo em práticas de negócio mais consistentes.
"A importância está justamente aí. A diversidade não se realiza apenas dentro dos muros da empresa. Ela também precisa estar presente nas relações que a empresa estabelece com o mercado e com a sociedade. A cadeia de valor pode reproduzir desigualdades, mas também pode ser um espaço relevante de transformação."
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