Elétricas falam em "conservadorismo" para operar diante de risco maior por guerra
As grandes geradoras de energia do Brasil precisam operar com contingências e nível de conservadorismo maior diante do cenário geopolítico conturbado, mesmo que o setor elétrico brasileiro esteja menos exposto a riscos diretos da guerra no Oriente Médio, avaliaram os presidentes de duas das maiores companhias elétricas que atuam no país nesta quinta-feira.
O CEO da Axia Energia, maior geradora de energia elétrica do Brasil, disse que a resposta para as várias incertezas do momento geopolítico é uma operação com "contingências".
"Seja contingência operacional, seja contingência de liquidez, seja contingência reputacional, seja qualquer outro tipo de contingência, esse é o meu principal foco de preocupação hoje", afirmou Ivan Monteiro, durante painel em evento no Rio de Janeiro.
Ainda segundo o executivo, a companhia se resguarda nesse momento com um plano "ousado" de investimentos, com aportes da ordem de R$14 bilhões em 2026 e em 2027, e está buscando diversificar tanto fornecedores, quanto funding para as operações.
"A empresa (Axia) não pode errar. Porque se a gente errar, falta luz imediatamente... A forma de lidar com isso são os investimentos."
Já o CEO da Engie Brasil, Eduardo Sattamini, avaliou que o momento de maior risco no ambiente empresarial, com piora no mercado de crédito, demanda uma postura mais conservadora das geradoras na comercialização de energia.
"A situação geopolítica impactando no custo do combustível, que vai impactar no custo do atendimento e da demanda de pico, e você vê empresas expostas a esse momento... Eu preciso me preservar, eu não vou pegar essa energia que eventualmente nem tenho e jogar no mercado a um preço baixo", disse o executivo.
A declaração de Sattamini ocorre em um momento em que o mercado de comercialização de energia elétrica do Brasil enfrenta forte retração dos negócios, com empresas deixando totalmente de atuar no segmento ou reduzindo suas operações.
Comercializadoras independentes, sem portfólio próprio de geração, têm feito críticas às grandes geradoras brasileiras, apontando que a postura retraída nas vendas de energia está secando o mercado.
"'Poder de mercado', 'falta de liquidez', não é isso... A gente tem por obrigação, como executivos de empresas listadas, ter um nível de conservadorismo na operação, e isso é o que a gente tem feito", afirmou o CEO da Engie Brasil.
Já Rodrigo Limp, vice-presidente executivo de Regulação, Institucional e Mercado da Axia, ressaltou que a liquidez do mercado de energia está conectada com a percepção de riscos pelas empresas, que, segundo ele, está mais elevada por outras questões do próprio setor elétrico brasileiro, como os cortes de geração e a inadimplência de comercializadoras.
"Na nossa percepção, é algo conjuntural. Não temos nenhum elemento para entender que existe, de fato, redução de liquidez estrutural no setor", disse Limp.
A Axia, assim como a Copel, passou a adotar uma estratégia de comercialização que tem sido criticada por casas independentes. As duas elétricas têm muita energia disponível para negociar livremente no mercado, mas estão deixando seu portfólio mais descontratado para aproveitar o momento de preços spot mais altos e evitar "travar" suas vendas em contratos com prazos mais longos, que tenderiam a render valores menores.