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Como opera a empresa por trás de despejo de idosa de 87 anos na Espanha

Empresa proprietária do imóvel de onde ela foi despejada está no centro do debate sobre a crise imobiliária na Espanha.

25 set 2026 - 08h33
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Resumo
O despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, de um imóvel em Madri onde vivia há 70 anos, expôs a grave crise habitacional na Espanha. A desocupação foi promovida pela Urbagestión, empresa que lucra ao esvaziar e reformar prédios valorizados. O caso gerou forte comoção, críticas do governo espanhol e apelos da ONU, que condenaram a priorização do lucro imobiliário sobre os direitos humanos, em um cenário de escalada de preços e avanço da especulação financeira que atinge os mais vulneráveis.
Maricarmen tem mobilidade reduzida e 50% de incapacidade
Maricarmen tem mobilidade reduzida e 50% de incapacidade
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A empresa proprietária do imóvel de onde foi despejada uma mulher de 87 anos em Madrid está no centro do debate sobre a crise imobiliária na Espanha.

Maricarmen Abascal morava no apartamento casa há 70 anos, pagava o aluguel todos os meses e, pela idade e deficiência, tornou-se uma das figuras mais simbólicas do problema dos despejos que ocorrem todos os anos no país europeu.

Segundo o Conselho Geral do Poder Judicial, foram feitas mais de 25 mil desocupações em 2025.

O despejo da mulher expõe a gravidade da situação habitacional na Espanha, onde os preços dos aluguéis aumentaram exponencialmente nos últimos anos devido a uma combinação de fatores: escassez de oferta, crescimento populacional nas principais capitais e aumento de apartamentos destinados para aluguéis turísticos de curta duração.

A rua Alcalde Sainz de Baranda, número 46, onde morava Maricarmen, está localizada no cobiçado bairro do Retiro, uma das áreas mais caras de Madrid.

Após vários anos de disputa judicial em que o tribunal finalmente decidiu a favor da Urbagestion Desarrollo e Inversión SL, empresa proprietária do imóvel, a comissão judiciária realizou o despejo na quarta-feira.

Em frente à porta do prédio, dezenas de ativistas se reuniram para tentar impedir, sem sucesso, a quarta tentativa de despejo.

Uma forte força policial desmantelou um acampamento de cerca de 400 pessoas.

Em 2025, os preços das casas subiram mais de 12%, atingindo valores não vistos desde antes do estouro da 'bolha imobiliária'
Em 2025, os preços das casas subiram mais de 12%, atingindo valores não vistos desde antes do estouro da 'bolha imobiliária'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A indignação chegou até à ONU, que solicitou a suspensão do despejo de Maricarmen e exigiu que as autoridades espanholas lhe garantissem uma moradia alternativa adequada.

"Não há como entender como se pode justificar priorizar a rentabilidade de um investimento imobiliário em detrimento do direito à habitação de uma mulher de 87 anos que recebe uma pensão de 1.300 euros e vive naquela casa há 70 anos", disse o Relator Especial da ONU para o direito à habitação, Koldo Casla, após o despejo.

Casla lembrou que "há alguns meses, o Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR) da ONU emitiu medidas cautelares para suspender temporariamente o despejo."

"O juiz deveria ter suspendido para evitar danos irreparáveis", acrescentou.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, descreveu o despejo como uma "tragédia" inaceitável.

Como opera a empresa?

Constituída em outubro de 2005, em pleno auge da bolha imobiliária na Espanha, a Urbagestión Desarrollo e Inversión SL, que também opera comercialmente sob o nome de Urbagesa, oferece "investimentos rentáveis em imóveis de uso comercial, escritórios, industrial, logística, residencial e terrenos".

Segundo a própria empresa, sua atividade consiste em aumentar o valor dos edifícios após comprá-los, desocupá-los de inquilinos e realizar reformas.

Com sede em Madri e uma filial em Valladolid, a empresa atua em todo o território nacional, embora conte com apenas sete funcionários, segundo dados obtidos pela agência EFE na plataforma de informações empresariais einforma, que também a classifica como uma "microempresa".

Segundo dados da Axesor, empresa espanhola especializada em informações empresariais, financeiras e de risco de crédito, a Urbagestión está ligada aos empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes.

A BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, tentou entrar em contato com a empresa por meio do formulário disponível em seu site e dos dois números de telefone divulgados publicamente, mas todos os canais pareciam estar congestionados.

Não foi possível falar com nenhum responsável pela empresa para oferecer a oportunidade de se manifestar e exercer seu direito de resposta.

A dificuldade de acesso a moradia se tornou uma das principais preocupações dos espanhóis
A dificuldade de acesso a moradia se tornou uma das principais preocupações dos espanhóis
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A carteira de projetos da Urbagestión inclui cerca de dez edifícios residenciais à venda, quase todos em Madri.

Entre eles está um imóvel "atualmente vazio e para reformar" próximo à Gran Vía, uma das principais vias comerciais da capital, cujo preço supera US$ 14 milhões, segundo a agência EFE.

Também "em pleno centro" da capital, a empresa oferece em seu site "um edifício com inquilinos", embora ressalte que os contratos "terminariam no ano que vem e os demais não são de longa duração".

Em entrevista à emissora pública RTVE, gravada na terça-feira (22/09), Maricarmen classificou a empresa como "desumana" e criticou seu desejo de "ganhar dinheiro".

Contrato de aluguel antigo

O edifício onde fica o apartamento em que Maricarmen vivia foi comprado em 2018 pela Renta Corporación, um dos grandes grupos imobiliários espanhóis.

A empresa ofereceu a Maricarmen a opção de comprar o imóvel por cerca de US$ 290 mil, mas, com uma aposentadoria que não ultrapassa US$ 1.500, a idosa não tinha condições de arcar com esse valor.

Dois anos depois, a Urbagestión adquiriu o edifício da Renta Corporación e passou a cobrar de Maricarmen um aluguel de cerca de US$ 3 mil, em comparação com os US$ 570 que ela vinha pagando graças a um contrato de aluguel antigo assinado por seus pais em 1956.

Nesse regime de aluguel antigo, contratos firmados durante a ditadura franquista (1939-1975) ficaram sujeitos a regras especiais relativas ao valor do aluguel e à transferência dos direitos aos familiares do inquilino. Historicamente, os valores cobrados nesses contratos são baixos.

Os moradores de Retiro viram Maricarmen sendo levada em uma maca
Os moradores de Retiro viram Maricarmen sendo levada em uma maca
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No caso de Maricarmen, o aluguel mensal que ela pagava era significativamente menor do que o aluguel médio na região, o que prejudicava a rentabilidade do imóvel para o proprietário.

A Urbagestión argumentou que o contrato antigo havia expirado e exigiu o valor atualizado.

A proliferação dos fundos

A polícia interveio para dispersar a multidão que se encontrava em frente ao prédio de onde Maricarmen foi despejada
A polícia interveio para dispersar a multidão que se encontrava em frente ao prédio de onde Maricarmen foi despejada
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Em suas poucas manifestações desde que o caso veio à tona, a Urbagestión ressaltou que é uma empresa de pequeno porte e pede que não seja equiparada aos fundos de investimento, frequentemente descritos como "fundos abutres".

Mas alguns especialistas apontam que a empresa compartilha com eles uma lógica econômica: identificar ativos, comprá-los, reformá-los e vendê-los por um valor mais alto, buscando obter retorno o mais rapidamente possível.

Nas últimas duas décadas, grandes fundos de investimento entraram com força no mercado espanhol e se tornaram os maiores detentores de imóveis residenciais do país.

Empresas como Blackstone, Cerberus e Goldman Sachs, entre outras, desembarcaram na Espanha em um período em que as dificuldades de acesso à moradia se intensificavam.

Nesse contexto, os imóveis passaram por uma forte valorização, e o mercado local se mostrou um polo atraente para investidores internacionais com grandes volumes de capital disponível, como os grandes fundos americanos.

O economista Raymond Torres, do centro de análises espanhol Funcas, disse à BBC Mundo que "o mercado na Espanha se caracteriza por uma demanda muito forte, o que o torna muito atraente para investidores de outros lugares, que têm a segurança de que conseguirão vender o bem adquirido e de que os preços sobem ano após ano".

Já são 12 anos consecutivos de alta, e os números mostram que o aumento dos preços está se intensificando.

Os especialistas concordam que o encarecimento da moradia aumenta o risco de despejo, especialmente entre os inquilinos mais vulneráveis, como Maricarmen, embora a evolução dos despejos também dependa de fatores legais, econômicos e sociais.

A ministra da Habitação da Espanha, a socialista Isabel Rodríguez, afirmou que o governo de coalizão de esquerda, que não tem maioria parlamentar, tentou em diversas ocasiões aprovar uma lei para proibir esse tipo de despejo e acusou a Comunidade de Madri, governada pelos conservadores, de "estender o tapete para esses especuladores".

Maricarmen está agora no hospital e depois deve ir morar com parentes, mas seu apartamento, já vazio, ainda guarda seus pertences e as lembranças de toda uma vida.

*Com informações adicionais de Guillermo D. Olmo.

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