Você já deixou de treinar por causa da roupa? Isso tem explicação
Você chegou a colocar a roupa de treino, olhou no espelho e desistiu antes mesmo de sair de casa. Ou foi à academia, passou a aula inteira ajustando o short, prendendo a blusa, com aquele desconforto que não deixa se concentrar em nada. Ou simplesmente parou de ir, sem entender muito bem por quê.
Se isso já aconteceu com você, saiba que não foi falta de motivação, disciplina ou força de vontade. Foi a roupa.
Amanda Momente, CEO da Wonder Size, marca brasileira de sportswear inclusivo, explica por que tantas mulheres abandonam a atividade física sem perceber que a barreira nunca foi o treino em si. Em entrevista exclusiva à TT Esportes, ela fala sobre os erros da indústria da moda, o impacto emocional de não encontrar roupas adequadas e o que muda quando o design esportivo é pensado de verdade para corpos diversos.
"Se milhões de pessoas não cabem, o problema não são os corpos"
A moda construiu durante décadas um padrão de corpo e tratou esse padrão como universal. Por isso, quando a roupa não serve, o sistema sugere que o corpo precisa mudar, e não a modelagem.
Amanda Momente identifica esse movimento como uma falha estrutural da indústria. "Se milhões de pessoas não cabem na roupa, o problema não são milhões de corpos, e sim o projeto da roupa", afirma a CEO. Foi justamente essa percepção que a levou a criar a Wonder Size, marca de sportswear desenvolvida desde o início para corpos diversos.
Além disso, Amanda ressalta que projetar roupas a partir do corpo real das pessoas torna o problema evidente. "Quando você começa a projetar roupas a partir do corpo real das pessoas, fica evidente que o problema nunca foi o corpo, e sim o design", explica ela.
Os erros mais comuns das marcas ao tentar vestir corpos diferentes
Segundo Amanda, a maioria das marcas erra logo no ponto de partida. O primeiro erro é escalar tamanho sem entender proporção. "Corpos diferentes não são apenas maiores. Eles têm distribuição de volume, movimento e ergonomia diferentes", aponta a CEO da Wonder Size.
O segundo erro é tratar a inclusão como extensão de grade, e não como projeto. E o terceiro, segundo ela, é o mais grave de todos: testar pouco em corpos reais. "Moda inclusiva começa no estudo de corpo e não no marketing", afirma Amanda.
Por isso, na Wonder Size, grande parte do desenvolvimento parte de testes com corpos reais em movimento. Além disso, a marca criou o WonderDataset, um banco de dados de corpos diversos voltado para moda e tecnologia. "Quando você tem dados reais de corpo, o design deixa de ser baseado em suposições", explica ela.
Como saber se uma peça foi pensada de verdade para o seu corpo
Amanda lista sinais claros que indicam quando uma roupa foi desenvolvida com inclusão real, e não apenas com discurso.
- Modelagem específica, e não apenas ampliação de molde.
- Prova em corpos reais com ajustes para movimento.
- Decisões técnicas visíveis, como recortes, compressão, estrutura têxtil e distribuição de tensão.
"Quando isso existe, a roupa acompanha o corpo. Quando isso não existe, a roupa luta contra ele", resume a CEO. Portanto, a diferença entre inclusão real e inclusão de fachada aparece diretamente no produto.
O impacto de encontrar uma roupa que realmente serve
Para Amanda, o momento em que uma mulher encontra uma peça que respeita o seu corpo vai além da estética. "O corpo deixa de ser um problema a ser resolvido e volta a ser um lugar de experiência", descreve ela.
A CEO da Wonder Size relata que essa transformação aparece com frequência na comunidade da marca. "Muitas mulheres relatam que pela primeira vez conseguem treinar, correr ou simplesmente se vestir sem sentir que precisam esconder o próprio corpo", conta Amanda. Além disso, ela aponta que a postura, o movimento e a autoestima mudam junto com a experiência de vestir uma peça desenvolvida para o corpo real.
Segundo ela, é uma experiência de pertencimento. Por isso, o impacto emocional da inclusão na moda vai muito além do guarda-roupa.
A violência silenciosa de ser ignorada pelas lojas
Amanda é direta ao falar sobre o que representa a ausência de opções para corpos fora do padrão. "Existe uma violência simbólica, e ela é silenciosa. Não é uma violência explícita. É uma mensagem repetida milhares de vezes: este espaço não foi pensado para você", afirma a CEO.
Além disso, ela aponta que a exclusão acontece em duas camadas. A primeira é a disponibilidade, ou seja, quem tem acesso à variedade de produtos. A segunda é a legitimidade estética. "Muitas vezes o corpo gordo até encontra roupa, mas não encontra estética, inovação ou desejo. Isso também é uma forma de exclusão", diz Amanda.
Por isso, para a CEO da Wonder Size, a inclusão na moda não é apenas sobre oferecer tamanho. "É também sobre oferecer design, criatividade e desejo estético para todos os corpos", conclui ela.
Sportswear e inclusão: por que demorou tanto?
O sportswear foi durante muito tempo um dos espaços mais excludentes da moda. Segundo Amanda, isso aconteceu porque a indústria confundiu corpo atlético com corpo magro. "Quem mais precisava de roupas adequadas para movimento era quem menos encontrava", aponta a CEO.
Além disso, ela destaca a relação direta entre roupa inadequada e abandono da atividade física. "Se a roupa enrola, marca, escorrega, expõe ou não sustenta o corpo, a experiência vira desconforto. E quando a experiência é ruim, a pessoa não volta", explica Amanda.
Por isso, na Wonder Size, o desenvolvimento das peças redesenhou tudo do zero. "Compressão, estrutura da peça, pontos de suporte e comportamento do tecido durante o movimento. Nada podia ser apenas uma ampliação de molde", afirma ela. Dessa forma, a marca passou a oferecer conforto, segurança e liberdade de movimento para quem sempre foi ignorado pela moda esportiva.
"Moda inclusiva não é um nicho. É design alinhado com a realidade humana"
Para encerrar, Amanda desmonta o que considera o maior mito sobre inclusão na moda. "O mito de que moda inclusiva é um nicho. Corpos diversos não são um segmento de mercado. Eles são a realidade demográfica do mundo", afirma a CEO da Wonder Size.
Além disso, ela é direta sobre o movimento de body positivity e o risco de ele virar apenas estética de campanha. "A diferença aparece no produto. Se a inclusão não chega na modelagem, ela não passou do discurso", conclui Amanda.
Por isso, para ela, a pergunta que deve guiar o futuro da moda é simples e urgente: qual prioridade estratégica as marcas escolhem ter? Dados existem, tecnologia existe e consumidores existem. O que falta, segundo Amanda Momente, é a indústria olhar para a diversidade corporal com seriedade.
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