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Transgressora, Elke Maravilha deu vários tapas na cara da sociedade conservadora

16 ago 2016 - 08h53
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(Foto: Blog Sala de TV/Terra)
(Foto: Blog Sala de TV/Terra)
Foto: Sala de TV

Muitas pessoas passam invisíveis pela vida. Elke Maravilha, não. Ela deixou um rastro de cores fortes e vibrantes. Cores presentes no figurino extravagante e na maquiagem forte e, principalmente, na personalidade destemida.

A multiartista gostava de desafiar convenções sociais. Já na infância, a pequena russa adorava conviver com os trabalhadores negros da plantação onde seu pai trabalhava, no interior de Minas Gerais, enquanto a maioria dos imigrantes preferia viver isolada, em colônias.

Adulta, vivendo sozinha no Rio de Janeiro, formou-se em Letras. Teve empregos convencionais: bancária, secretária, bibliotecária, professora de idiomas (além do português, dominava russo, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, grego e latim).

Loira e alta, foi convidada a ser modelo de grandes costureiros da época. A beleza considerada exótica fez sucesso nas passarelas, nos desfiles e logo estava nas capas de revistas. Não demorou para se lançar atriz e, depois, tornar-se uma das juradas de calouros mais famosas e queridas de todos os tempos.

Audaz, fez protestos contra desaparecidos políticos durante a ditadura e chegou a ser presa. A ousadia de chamar os militares de "covardes" a fez perder a cidadania brasileira. Durante décadas foi apátrida, até conseguir o passaporte alemão devido à ascendência de sua mãe, uma aristocrata.

Agregadora e ativista das liberdades individuais, foi madrinha da Associação das Prostitutas do Rio de Janeiro e musa dos gays. Defendeu o direito ao aborto - admitiu ter interrompido três gestações, "sem arrependimento" - e falava sem culpa da falta de vocação para a maternidade.

Elke não teve pudores em relação ao amor e ao sexo: casou e descasou oito vezes. Contava ter experimentado todas as drogas. Não vivia pela metade, mergulhava de cabeça em tudo o que se propunha experimentar.

Dos verdadeiros amigos, jamais se separava. Foi guru de vários deles. Ensinava história (gostava de debater as grandes guerras) e relatava as aventuras dos períodos passados no exterior.

Seu grande legado artístico é a versatilidade. Na TV teve performances elogiadas, como a dona de bordel Madame Yara na minissérie Memórias de um Gigolô (Globo, 1986). No cinema esteve em filmes importantes: Xica da Silva (1976), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), Zuzu Angel (2006).

Xodó do 'painho' Chacrinha e respeitada por Silvio Santos, Elke conciliava o visual exótico com a doçura, as piadas com a filosofia, o popular com o erudito. Sua chegada em qualquer lugar era um acontecimento - e provocava sorrisos espontâneos simplesmente por se fazer presente. Personificação da alegria.

Em entrevista ao blog, em junho de 2015, quando ensaiava a estreia do espetáculo 'Elke Canta e Conta', ela dissertou a respeito de vida, envelhecimento e morte.

"Ficar velho é bom. Mas não pode ficar ultrapassado. Aquela coisa saudosista, chata. Isso, não! Tenho sorte porque já nasci velha. As pessoas falam: 'você envelheceu, mas tem cabeça jovem'. Mas as pessoas de espírito jovem ficam muito chateadas quando envelhecem. Agora um espírito velho como o meu, num corpo velho, se sente em casa. A vida é um eterno presente. Presente de estar aqui, agora, e de dádiva. Deixo o mundo me surpreender, se ainda tiver alguma coisa. Agora, se a morte quiser me levar, estou pronta. Eu gosto da morte. Gostaria de ter o privilégio de deitar e morrer. Os deuses não gostam de todo mundo. Eles chutam muitos filhos. Agora a morte é democrática, ela gosta de todos nós."

Elke Georgievna Grunnupp morreu aos 71 anos, de falência de múltiplos órgãos, em decorrência de complicações de uma cirurgia. Já Elke Maravilha não morrerá jamais. Estará sempre na memória da cultura brasileira e de seus muitos admiradores.

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