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Ser jornalista de política virou profissão de risco para as mulheres no Brasil

Monitoramento secreto, campanhas de difamação e ameaças são mais comuns do que o público imagina

3 jul 2026 - 08h08
(atualizado às 08h08)
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As mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e divulgadas nesta semana ressaltaram os riscos enfrentados por quem faz cobertura política e investigativa no Brasil. 

Segundo reportagens baseadas em conversas obtidas pela Polícia Federal, o então controlador do Banco Master discutiu estratégias para levantar informações sobre a vida pessoal da jornalista Malu Gaspar, colunista de ‘O Globo’ e comentarista na GloboNews.

O objetivo seria encontrar algum elemento capaz de esvaziar sua credibilidade e interromper a publicação de reportagens consideradas desfavoráveis. Nada de comprometedor foi encontrado.

Em vez de responder às reportagens com argumentos e provas, a estratégia foi tentar atingir a jornalista pessoalmente. O foco deixava de ser o conteúdo publicado para recair sobre quem o publicou.

O caso de Malu Gaspar não é um episódio isolado. Nos últimos anos, jornalistas especializados na cobertura política foram inseridos em um ambiente de hostilidade permanente. 

Consequência natural da profissão, a exposição na TV e nas redes sociais passou a ser acompanhada por campanhas coordenadas de ataques, insultos e ameaças.

Entre os exemplos mais conhecidos está o de Vera Magalhães. Ao longo de seus anos no comando do ‘Roda Viva’, na TV Cultura, tornou-se alvo de xingamentos e intimidações por seus questionamentos firmes a personagens centrais da política nacional. 

Organizações dedicadas à defesa da liberdade de imprensa registraram que ela figurou entre os jornalistas mais atacados no período eleitoral de 2022.

Andréia Sadi, Malu Gaspar e Daniela Lima: ser jornalista exige ter coragem dobrada
Andréia Sadi, Malu Gaspar e Daniela Lima: ser jornalista exige ter coragem dobrada
Foto: Fotos unidas por IA a partir de imagens captadas da TV

Situação semelhante foi vivida por Daniela Lima, primeiro na CNN Brasil e depois na GloboNews. Seu trabalho na cobertura dos bastidores de Brasília, lançando contestações ao bolsonarismo, a fez vítima de campanhas de desinformação e agressividade digital.

Andréia Sadi, também da GloboNews, enfrentou momentos semelhantes ao revelar negociatas de políticos e comportamentos antiéticos, desagradando a diferentes grupos.

Embora jornalistas homens também sejam perseguidos e constrangidos, chama a atenção que as mulheres enfrentam um nível adicional de violência. 

As críticas frequentemente deixam de se concentrar no campo profissional para abordar aparência física, vida íntima e até maternidade. Não raro, acontecem deboches e ofensas de natureza sexual.

A condição feminina acaba usada em campanhas de humilhação, intimidação e tentativa de mordaça.

Esse padrão expõe o velho machismo e a reincidente misoginia ainda gritantes em diferentes segmentos da sociedade brasileira. 

Em suas reflexões sobre escrita e poder, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie sustenta que contar histórias é uma forma de romper silêncios impostos. 

As jornalistas brasileiras que não aceitam ser caladas mostram que, hoje, escrever e falar a verdade deixou de ser apenas missão profissional e se tornou também um ato de resistência.

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