SBT sempre teve uma relação de tapas e beijos com travestis e transexuais
Episódio de Ratinho com a deputada Erika Hilton traz à memória momentos positivos e negativos do canal com as ‘ts’ da sigla LGBTQIAP+
Após a repercussão estrondosa da declaração de Ratinho em seu programa a respeito da deputada Erika Hilton, quando disse que ela “não é mulher” e, portanto, não deveria ocupar a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara, viralizou nas redes sociais um vídeo de Silvio Santos.
Numa gravação de 2022, o apresentador dá uma aula sobre compreensão da transição de gênero diante de uma miss transexual.
“Se você nasce um menino, mas você está se sentindo uma menina, você está sofrendo”, disse o veterano.
“Se quer se livrar desse sofrimento e a ciência permite, você faz a transformação e fica feliz.”
A entrevistada o elogiou pelo esclarecimento e pediu aplausos à plateia.
A relação do SBT com travestis e transexuais sempre foi de morde e assopra.
Na década de 1980, Silvio abriu espaço importante para artistas transformistas cis e trans no ‘Show de Calouros’.
Elas ganhavam dinheiro pela apresentação de dublagem no palco. Muitas vezes, o comunicador não disfarçava o encantamento pelos corpos bonitos.
Ali tiveram seu momento de estrelato ícones da transgeneridade como Marcinha do Corintho, Angélica Ravache e Leo Áquilla.
Em 2011, a trans Renata Peron se projetou nacionalmente ao participar do ‘Qual o Seu Talento?’
Outras atrações da casa, como as de Hebe Camargo e Marília Gabriela, sempre ofereceram visibilidade valiosa às ‘ts’. Rogéria era uma presença constante na emissora. Nany People está sempre no ar.
Mas houve momentos de flagrante desrespeito.
Em 1998, por exemplo, o ‘SBT Repórter’ exibiu uma reportagem sobre os preparativos da união de uma travesti com o namorado.
O narrador usou pronome masculino ao se referir a ela, citou seu ‘nome morto’ (de batismo) e disse que era “um casamento entre dois homens”.
O próprio Silvio Santos, algumas vezes, foi indiscreto e invasivo ao fazer perguntas íntimas para convidadas transexuais.
A nova polêmica, que poderá gerar multa pesada ao SBT, fez a presidente da emissora, Daniela Abravanel Beyruti, ligar para Erika Hilton a fim de pedir desculpas.
Uma nota oficial de repúdio à transfobia também foi emitida à imprensa.
Mas uma pergunta incômoda permanece: foi a última vez ou o SBT voltará a cair no mesmo erro?
Partes da mídia e da sociedade ainda enxergam pessoas transgêneros como exóticas e desconectadas da realidade.
Passou da hora de compreender que elas têm o direito à inserção em todos os ambientes, inclusive na política.