Nero sobre protagonizar trama das 21h: "fujo do padrão galã"
Falsa modéstia não combina com Alexandre Nero. O curitibano de 44 anos sabia que, cedo ou tarde, chegaria o momento em que ganharia seu primeiro protagonista em novelas. Mas o intérprete do ambicioso Hermes de Além do Horizonte jura que, ao ler que era a primeira opção de Aguinaldo Silva para o papel principal de Falso Brilhante, título provisório da próxima novela das 21 horas da Globo, com estreia prevista para final de julho, pensou ser mero boato. Principalmente por não se enxergar no padrão que considera ser o de um galã da faixa nobre. Mas foi só receber o convite oficial para o posto que ofereceu até trabalhar sem férias, se fosse necessário. E foi.
Com o encerramento de Em Família após a Copa do Mundo, dia 25 de julho, o ator experimenta gravar um folhetim já se preparando para o seguinte. "Fiquei sabendo há poucos dias, cerca de um mês. E, desde então, passei a pensar nesse trabalho. Pedi um pouco mais de tempo para me dedicar porque, com essa nova data, tudo tem de ser apressado. Por isso, Hermes precisa morrer em Além do Horizonte, explica Nero, que sai do ar na próxima semana. "Achei chiquérrimo morrer em uma novela para fazer outra", confessa.
TVPress – Para se dedicar à próxima novela das 21 horas, Falso Brilhante, você está deixando Além do Horizonte. Como sua saída foi recebida pela equipe?
Alexandre Nero
– O carro-chefe da emissora é a novela das 21 horas. É o que domina a grade, é o principal produto mesmo. Então, é natural que mexam alguns pauzinhos para que ela aconteça. Quando começaram as conversas, estava tudo certo porque as datas batiam. Eu só precisava aceitar emendar uma na outra e já tinha me deixado disponível para isso.
Além do Horizonteia acabar próximo do período de início das gravações da novela do Aguinaldo, mas ela foi adiantada. Como meu personagem é o protagonista e um pai de família, multimilionário e mais velho que eu, ou seja, muito distante da minha realidade, pedi um tempinho para me concentrar. Preciso de leituras, conversas e uma preparação mais intensa do que em outras novelas. O Papinha (Rogério Gomes, diretor) pediu a todos que tinham de autorizar e conseguimos isso. Acho que deu tudo certo, mas não foi uma conversa minha.
TVPress – Desde quando você sabe da novela do Aguinaldo?
Alexandre – Deve ter mais ou menos um mês. Sendo que tudo começou como um boato e eu achava que era mentira. Não que fosse impossível. Sabia que poderia pintar um protagonista para mim. Mas, como fujo do padrão de galã, era mais fácil ver como boato mesmo. Não sou conhecido e protagonista normalmente é quem já fez sucesso e protagonizou outro horário. Além disso, não sou o bonitão.
TVPress – Esta é a primeira vez que você sai de um trabalho para entrar em outro. Como está sendo essa transição, lendo textos de duas novelas diferentes?
Alexandre
– É a primeira vez que eu morro para sair e achei chiquérrimo! Imagina, ter de morrer para entrar em outra novela? Estou estudando desde o dia em que fiquei sabendo oficialmente que ia fazer e o Papinha me mandou o "briefing" do personagem e da novela. Não tinha nenhum capítulo escrito, agora já tenho quatro. Ali, a minha cabeça começou a trabalhar. O Hermes, de
Além do Horizonte, não tem mais para onde ir. Já estava a caminho do final.
TVPress – A proposta de Além do Horizonte era explorar uma trama de aventura e suspense, mas não funcionou. Como você encarou isso?
Alexandre – Tentaram mudar um paradigma e acho isso louvável. Comprei a ideia porque achei muito boa. E ela é mesmo. Mas, na hora de fazer, as pessoas não entenderam. Nem mesmo nós estávamos entendendo. Havia uma complexidade que não conseguimos alcançar. Mas tudo bem, dá-se o braço a torcer e volta-se à fórmula do humor das 19 horas. Falam que falta novidade, mas acho que as pessoas não querem novidade nenhuma. Quando uma coisa muda, as pessoas não entendem e você precisa logo voltar para o que elas compreendem. Cobram autenticidade do artista, mas, se você se mostra autêntico, metem o pau em você. Querem que você seja o que elas acreditam que você é. E tivemos um outro problema grave ali que pouca gente comenta.
TVPress – Qual?
Alexandre – Essa classificação indicativa, uma censura meio que velada. A gente não tem mais liberdade. Não podíamos falar "matar", tinha de ser "exterminar". Não mostramos armas e nem dizemos "tiro". O público pede verossimilhança, mas sempre cheio de "não pode". No telejornal, vemos gente tomando tiro na cabeça, de verdade. Mas, na novela das sete, um ator não pode sequer segurar uma arma. Não é questão de concordar ou discordar, só não entendo essa lógica. No Brasil, vale o "não passa" e não o "tome conta do que seus filhos veem na TV". Começam a limar tudo, incluindo a qualidade. E não é culpa das emissoras, mas da sociedade, que cobra essa postura. E ainda reclamam que as histórias estão bobinhas.
TVPress – Você é o protagonista de Falso Brilhante, mas não se trata de um mocinho no eixo central da história. Como define o José Alfredo?
Alexandre
– É um anti-herói, o que é diferente de vilão. É um "poderoso chefão" que cativa a gente. Mesmo sabendo que ele mata pessoas, você torce para ele. Acho que é um cara que enriqueceu muito porque entendeu que só isso presta para as pessoas. Depois que ele tem uma desilusão amorosa com a cunhada, mulher do irmão dele, fica assim. Então, com 20 anos, sai do Brasil e passa décadas fora.
TVPress – Trata-se de um personagem mais velho. Isso é motivo de preocupação?
Alexandre
– Não. Eu sei que sempre tem quem torça o nariz para reclamar disso. Cada vez mais acho que confundem personagem com personalidade. Tenho jeito jovem, tatuagem, não sou pai. Então, me veem como um cara de trinta e poucos anos. Mas não, eu tenho 44. Minha teoria é de que, como a textura de telejornais, "realities" e programas de auditório é a mesma das novelas, as pessoas misturam as coisas. Quando entro em cena, enxergam o Alexandre, não o personagem. Minha avó, com 60 anos, era uma velhinha. As pessoas ainda querem entender que o homem de quase 60 anos é o barrigudo, velhinho, mas não é assim. Antonio Calloni e Cássio Gabus Mendes trabalham comigo e têm 52. Não me vejo diferente deles.
TVPress– Fisicamente, vocês já pensam em alguma mudança?
Alexandre – Vamos deixar a barba um pouco mais branca. Acho legal porque fico muito garoto de cara limpa, vai ajudar a trazer esse ar mais maduro. O cabelo vai ficar meio assim, um pouco grisalho, mas natural. Hoje uso liso para Além do Horizonte. Não estou me preocupando com o corpo. Então, pode ser que eu engorde um pouquinho. Não está sendo proposital, mas dei uma relaxada. Mas acho que essa faixa etária vai estar muito mais exposta no meu peso de vida ali. Pela primeira vez vou poder usar isso em um personagem.
TVPress – Qual peso?
Alexandre – Do cara que viveu a vida toda sozinho. Que foi o que eu passei. Meus pais morreram cedo e, com 14 anos, eu tive de viver sozinho. Na verdade, tenho mais vivência nesse sentido do que o próprio personagem, porque tive de crescer mais cedo. José Alfredo foi com 20 anos para a África do Sul, mas eu fiquei sozinho com 14. Me ferrei mais que ele. E vou trazer para esse personagem essa "chapoletada" da vida que, eventualmente, escondo na imprensa com sorrisos, mas que a vida me deu quando eu ainda era um garoto.
Pedra lapidada
Quando começou a ler sobre João Alfredo, seu personagem em Falso Brilhante, Alexandre Nero chegou a pensar que se tratava de um alter ego do próprio autor. "O personagem se veste sempre de preto e Aguinaldo Silva queria os cabelos dele bem grisalhos. Pensei que pudesse haver essa relação. Mas descobri que não", explica, completando que a inspiração para o papel é real, mas não pode ser mencionada. Além da imagem imponente, o anti-herói também intercala palavras em inglês nas suas conversas, como a vilã Altiva, de Eva Wilma, fazia em A Indomada. No caso de João, a desculpa é a de que ele esqueceu parte de seu vocabulário em português depois que passou cerca de 30 anos no exterior. "Em Fina Estampa, Teresa Cristina citava a Nazaré, de Senhora do Destino. O Aguinaldo faz isso, ele se cita bastante nos trabalhos", avalia.
Na história, João Alfredo mora com o irmão e a cunhada na juventude. Mas, apaixonado por ela, tem uma desilusão amorosa e sai de casa. A partir daí, trilha um longo caminho até se tornar dono de uma grande empresa de joias. Mas enfrenta a ex-mulher e a irmã dessa cunhada, interpretadas respectivamente por Lília Cabral e Drica Moraes, as grandes vilãs da novela. Ambas almejam colocar a mão no patrimônio conquistado por ele. De quebra, surge ainda uma possível filha, vivida por Leandra Leal, para disputar espaço com os três herdeiros que João já tem. Até agora, só a filha do meio tem sua intérprete escolhida, a atriz Andréia Horta. "É muito cedo para adiantar tanto, só tenho quatro capítulos nas mãos. Mas estou disposto a correr todos os riscos para fazer desse um trabalho inesquecível", garante.
Agenda cheia
Com tantos trabalhos na televisão, o tempo de Alexandre Nero é cada vez menor para investir em suas produções musicais. Lançado no final do ano passado, o DVD Revendo Amor com Pouco Uso Quase na Caixa está à venda, mas o ator admite não poder planejar uma agenda de shows que se sinta capaz de cumprir para divulgar o trabalho. "Não adianta, quando a gente grava uma novela, precisa estar disponível. Você pode agendar uma casa e pedir para estar livre às 21 horas. Mas, se o estúdio atrasar, não vou abandonar. E vou ter de pagar multa, cancelar... Não quero esse estresse", argumenta.
Contratado da Globo desde que estreou nas novelas como o verdureiro Vanderlei de A Favorita, Nero também assume que não experimenta abrir espaço na TV como cantor. Até admite que poderia tentar incluir uma de suas canções em alguma trilha sonora ou aparecer em programas de auditório mostrando suas músicas. Mas garante não ter essa visão "comercial" com suas composições. "Não faço questão de cantar na TV. Até porque, se for para eu fazer, vai ter de ser bacana. Para uma coisa mais ou menos, prefiro não ir. Não tenho essa coisa de 'ator que canta'", critica.
Trajetória Televisiva
Casos e Acasos (Globo, 2007) - Marcos
A Favorita (Globo, 2008) - Vanderlei
Paraíso (Globo, 2009) - Terêncio.
Dó-Ré-Mi-Fábrica (Globo, 2009) - Lamartine.Escrito nas Estrelas" (Globo, 2010) - Gilmar.
Batendo Ponto (Globo, 2011) - Caíque.
Fina Estampa (Globo, 2011) - Baltazar.
Salve Jorge (Globo, 2012) - Stênio.
Amor & Sexo (Globo, 2012/2013) - Participante fixo.
Além do Horizonte (Globo, 2013) - Hermes.
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