Globo promove casal gay, negros empoderados e defesa do feminismo enquanto extrema direita avança no país
Emissora vista como progressista se torna contraponto às pautas conservadoras que devem dominar o novo Congresso
Um desavisado que assistisse às novelas da Globo concluiria que o Brasil é um país de maioria à esquerda no espectro político.
A ficção do canal está cada vez mais sintonizada com as demandas dos grupos identitários.
Em ‘Quem Ama Cuida’, logo será exibido o beijo na boca entre Mau Mau (João Victor Gonçalves) e Felipe (Pietro Antonelli).
Nas redes sociais, o público torce, ansiosamente, pela explosão do romance entre os dois rapazes. Não se nota grandes protestos contra o casal gay.
Na mesma novela, a reação da mulher contra o homem opressor é discutida por meio de Elenice (Mariana Sena), vítima da truculência emocional do marido, Tom (Allan Souza Lima).
Cercada por uma rede de apoio formada por parentes e amigos, ela está, aos poucos, desenvolvendo a consciência de seu valor pessoal e da importância de reagir ao machismo.
No Globoplay, a série original ‘Jogada de Risco’ ousou ao abordar a homossexualidade no mundo dos jogadores de futebol.
O atleta negro Geraldo (Breno Ferreira) teve de lidar com o medo da homofobia. No fim, se assumiu publicamente e pôde viver sem medo o namoro com outro homem.
Na trama das 19h, ‘Por Você’, a protagonista é Bela (Sheron Menezzes), uma médica negra, de tranças afro, que mora de frente para a praia, no Rio.
Ela exala autoconfiança e jamais abaixa a cabeça para a vilã branca preconceituosa Vanessa (Alinne Moraes).
Transmite aos quatro filhos adotados as lições para enfrentar os racistas e alimentar a autoestima ligada à negritude.
A mesma mensagem sustenta as palavras e atitudes da princesa africana Alika (Duda Santos) na produção das 18h, ‘A Nobreza do Amor’.
Discute-se a importância de respeitar a origem étnica de um povo originário e combater políticos tiranos que desprezam a ética e a moral em nome da tomada de poder, a exemplo do usurpador do trono, Jendal (Lázaro Ramos).
Aliás, ele já parafraseou a polêmica declaração “eu não sou coveiro”, do então presidente Jair Bolsonaro sobre os mortos na pandemia. Disse “eu não sou cozinheiro”, para desdenhar o povo faminto de seu reino.
A cúpula da Globo — a família-proprietária Marinho e o Conselho de Administração — pode ser simpática à direita, mas o conteúdo da teledramaturgia do canal está bem à esquerda. E não é de hoje.
Tornou-se mais progressista justamente em reação aos ataques recebidos no governo Bolsonaro (2019-2022), apresentando-se como uma espécie de antídoto contra o reacionarismo e o fortalecimento de figuras conservadoras.
Como a emissora vai se comportar em uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro? Somente o tempo poderá responder.
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