Como José Mayer virou símbolo do macho e foi banido da Globo justamente por isso
Comportamento abusivo de personagens do galã influenciou várias gerações e agora é combatido na sociedade
A polêmica em torno do curso de masculinidade do ator Juliano Cazarré, direcionado a homens conservadores e religiosos, suscitou uma questão: como a televisão — e, especialmente, as novelas — influenciou várias gerações de meninos, adolescentes e rapazes a respeito do que é ser macho.
Um galã veterano surge como símbolo dessa masculinidade tradicional defendida por vários movimentos e combatida por outros: José Mayer.
Ele fez personagens diretamente ligados ao imaginário da virilidade. “Um homem com cara e jeito de homem”, diziam em tom de elogio.
Em 1986, na novela ‘A Gata Comeu’, Mayer interpretou Edson, um piloto de lancha de família pobre que se apaixonava por uma moça rica, Lenita (Débora Evelyn).
Após o casamento, ele a pressionava para abandonar o trabalho e ser apenas ‘do lar’. E, diante do aperto no orçamento doméstico, recusava ajuda financeira da esposa.
O machismo gritava, mas as telespectadoras se derretiam por ele: um marido à moda antiga. Um brucutu dominante que exalava testosterona.
Culto ao bronco sedutor
Foi assim também diante do Fernando Flores de ‘Fera Radical’, do Ricardo Miranda de ‘Meu Bem Meu Mal’, do Teobaldo de ‘A Indomada’, do Fernando de ‘Presença de Anita’, do Marcos de ‘Viver a Vida’, do Pereirinha de ‘Fina Estampa’ e de seu último personagem na TV, o Tião de ‘A Lei do Amor’.
Todos homens rústicos, dominadores, 100% héteros, incapazes de ouvir o “não” de uma mulher. Alguns até violentos, como o Pedro de ‘Laços de Família’, que deu um tapa no rosto de Ísis (Deborah Secco).
Mesmo quando viveu um homem casado com mulher e amante de outro homem, o Cláudio de ‘Império’, o ator manteve a aura de macho alfa.
Por décadas, na fase em que a teledramaturgia exercia imensurável influência no pensamento e no comportamento do público, José Mayer e seus personagens brutos eram a maior referência do homem brasileiro médio.
Despertavam admiração, desejo, imitação.
Essa construção simbólica ocorreu dentro de um contexto cultural que naturalizava atitudes machistas e até misóginas como parte inerente da masculinidade.
O homem que não demonstrava fragilidade, com controle sobre a parceira e sem qualquer sinal de dependência emocional era, frequentemente, retratado como o ideal.
Com o passar dos anos, essas referências começaram a ser questionadas. Mudanças sociais, avanços nos debates sobre igualdade de gênero e maior visibilidade de denúncias de abuso e assédio contribuíram para uma revisão crítica daquele modelo masculino.
O próprio José Mayer se tornou exemplo disso: foi dispensado pela Globo, após 40 anos no canal, em razão de uma denúncia de suposto assédio feita por uma figurinista. O caso não chegou à polícia por opção da reclamante.
Homens no Paredão
Aquilo que antes era romantizado, como o homem viril e enérgico nas novelas, passou a ser visto com desconforto por parte do público, especialmente pelas novas gerações, que passaram a demandar representações mais diversas e responsáveis.
Ganhou destaque na mídia e nas novelas o homem desconstruído: mais sensível, romântico e apoiador do feminismo.
Por outro lado, parte dos homens entraram em uma crise de masculinidade, teoricamente sem saber bem como agir.
Surgiram grupos como o ‘redpill’, que acusa a sociedade de demonizar a população masculina em favor das mulheres, e cursos a exemplo de ‘O Farol e a Forja’, de Juliano Cazarré, que pretende discutir o resgate do valor do homem conservador e praticante da fé.
Nas novelas e séries, o protagonista masculino deixou de ser aqueles tipos eternizados por José Mayer.
São homens conscientes sobre igualdade de gênero, como o policial Paulinho (Romulo Estrela) de ‘Três Graças’ e a exemplo do que será o advogado idealista Pedro (Chay Suede), na próxima trama das 21h da Globo, ‘Quem Ama Cuida’.
Muitas maneiras de ser macho
Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a ideia de masculinidade é, antes de tudo, uma simbologia organizada em torno da chamada função fálica.
Não tem a ver com o órgão sexual, mas com a posição de autoridade, limite e reconhecimento dentro do campo social.
Por muito tempo, a figura do ‘macho dominante’ na TV ajudou a sustentar essa imagem poderosa de um homem que sabe, decide e não vacila, funcionando como referência de identificação para muitos indivíduos.
O problema é que, para Lacan, essa idealização nunca dá conta do real da subjetividade. O sujeito não é inteiro nem coerente como o modelo masculino prometia.
Quando a sociedade começa a questioná-lo — por exemplo, ao recusar o autoritarismo e a exploração da fragilidade afetiva de mulheres — estremece a sustentação imaginária do ‘homem inabalável’.
Isso produz um efeito de desorganização, porque o indivíduo perde uma referência antiga de como ocupar esse lugar de ‘ser homem’.
Ao mesmo tempo, a teoria lacaniana ajuda a entender que essa crise não é apenas perda, mas também abertura.
O homem contemporâneo deixa de estar preso a uma forma pronta e passa a ter que lidar com a própria falta de garantias.
Assim, o que se vê não é o fim da masculinidade, mas a queda de um conceito que parecia sólido e imutável. Percebe-se, enfim, que não existe um jeito único de ser homem.
Em tempo: José Mayer está com 76 anos. Vive em um sítio na Serra Fluminense com a mulher, a atriz Vera Fajardo. Numa rede social com 1 milhão de seguidores, ele posta trechos de cenas da carreira e vídeos atuais com mensagens aos fãs. Não demonstra expectativa de voltar à TV.
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