Caso de Astrid confirma: a TV não é mãe de ninguém e demite sem dó
Os profissionais que se apegam a uma empresa de comunicação quase sempre sentem o gosto amargo da decepção
Já faz seis meses que Astrid Fontenelle deixou o Grupo Globo, onde trabalhou por 19 anos, mas ela ainda se mostra magoada com a demissão.
Num painel no evento Rio2C, a apresentadora fez questão de dizer que foi dispensada “por Zoom” (videochamada) e ainda sofre a consequência na vida profissional.
“Estou fora do ar.”
Não é fácil para alguém se recolocar aos 65 anos, mesmo famosa e com carreira consolidada.
O desabafo de Astrid está longe de ser um caso isolado. Ao longo dos anos, inúmeros artistas, jornalistas e apresentadores deixaram grandes emissoras com a mesma sensação: a de terem sido descartados friamente após décadas de dedicação.
Nas entrelinhas ou de forma explícita, muitos falam em ingratidão. Afinal, criaram programas, deram audiência, emprestaram credibilidade à marca e se tornaram rostos associados à própria identidade da empresa.
Para quem passa anos dentro de um estúdio, vivendo a rotina intensa da televisão, é natural que o vínculo ultrapasse o profissional. A emissora vira parte da vida, quase uma extensão da família. Há apego, afeto.
Mas a realidade do mundo corporativo é bem menos emocional. A televisão aberta, apesar do glamour, funciona como qualquer grande companhia que visa lucro.
Faz contas, analisa desempenho, calcula custos, reposiciona marcas e substitui profissionais quando entende que isso atende melhor aos interesses comerciais. Não existe maternidade nessa relação. Existem metas. E só.
O funcionário cria laços enquanto a empresa cria estratégias. Por isso, demissões na TV, frequentemente, parecem cruéis para quem está de fora.
Profissionais históricos são dispensados em reuniões rápidas ou, pior, só descobrem pela imprensa. Outros recebem homenagens protocolares em tom de velório. Foi assim com Jô Soares, Faustão, Chico Anysio e tantos outros.
É duro, mas faz parte da lógica do negócio. A televisão raramente toma decisões olhando para trás. Olha para a próxima temporada, para o próximo patrocinador, para o próximo índice de audiência, para o próximo objetivo de faturamento.
Astrid apenas verbaliza algo que muitos outros artistas sentem, porém, nem sempre admitem publicamente: na TV, o carinho do público pode durar para sempre, já o da empresa pode acabar num piscar de olhos.
E cada um que aprenda a lidar com sua frustração.
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