A tropa dos virgens no ‘BBB’: polêmica envolvendo competidoras atuais já ocorreu antes
Participantes do reality show admitiram ter optado por esperar a hora e a pessoa adequadas para estrear no sexo
“Não sou santa, eu vi ‘50 Tons de Cinza’. Eu sei tudo o que acontece… Eu nunca fiz, mas eu sei… Não me sinto pronta para iniciar ainda”, disse Milena, 26 anos, ao comentar sobre ser virgem no ‘BBB26’.
Dias depois, Alberto Cowboy ironizou ao afirmar que a babá fugiria desesperada diante de uma hipotética tentativa de Jonas beijá-la, escancarando a visão equivocada de que ela tem medo do sexo.
Outra competidora, Gabriela, de 21, também cultiva a virgindade por escolha própria, segundo relatou a mãe dela na época da ‘Casa de Vidro Sudeste’.
Uma declaração machista de Matheus a respeito disso, associando a inexperiência da jovem no sexo a “não ter abertura de mundo” para pensar, gerou indignação nas redes sociais.
Rafaella, da ‘Casa de Vidro Nordeste’, surpreendeu os colegas ao contar que vive a mesma situação aos 29 anos. “Não bebo, nem fumo, nem transo.”
Uma pesquisa realizada em 2025 e divulgada no ‘Fantástico’ mostrou que 30% dos brasileiros transam presencialmente pela primeira vez após os 19 anos. Milena, Gabriela e Rafaella não são exceções: há milhões de virgens no país.
A melhor hora
Edições anteriores do ‘Big Brother Brasil’ tiveram alguns homens e mulheres sem iniciação sexual.
No ‘BBB24’, Beatriz Reis, a Bia do Brás, garantiu que era virgem.
No fim do ano passado, com 25 anos, ela revelou que nada havia mudado e explicou o motivo. “Acho que me fechei um pouco mais depois da fama por não confiar em todo mundo.”
Na 20ª temporada, Victor Hugo, 25, se declarou inexperiente e fez o Brasil conhecer a existência dos assexuais. Ao ser eliminado, ele explicou melhor a ‘O Globo’. “Eu me interesso romanticamente por homens e mulheres. Mas não há nenhuma intenção sexual nesses amores.”
O ‘BBB19’ trouxe uma revelação de Danrley, 19 anos na época. “Eu tô esperando o casamento. Eu resolvi esperar”, explicou.
Na 6ª edição, o ex-monge Gustavo, 28 anos naquele momento, jurou ser “virgem convicto”. Mas, numa conversa na casa, deu a entender que não era mais casto. A dúvida ficou no ar.
Todos esses casos geraram matérias na imprensa e discussões na internet. De um lado, elogios pelo autocontrole. De outro, crítica e deboche por retardar o prazer sexual a dois.
Ainda tabu e novo comportamento
A virgindade, dentro do ‘Big Brother Brasil’, raramente é tratada como um dado neutro da vida íntima. Costuma ser convertida em narrativa moral, usada para classificar, julgar e até hierarquizar participantes.
Quando alguém assume não ter iniciado a vida sexual, o jogo social se reorganiza ao redor dessa informação, que passa a funcionar como atalho para conclusões sobre caráter, maturidade, inteligência ou visão de mundo, assim como Matheus fez em relação a Gabriela.
A escolha pessoal vira rótulo positivo ou negativo, a depender do olhar de quem observa. Nesse processo, homens e mulheres vivem experiências distintas.
Rapazes virgens, como Victor Hugo e Danrley, frequentemente são tratados de maneira infantilizada, vistos como ingênuos, frágeis e fora do padrão esperado de masculinidade.
Já as mulheres, quando assumem a virgindade, tendem a ser enquadradas em dois extremos igualmente reducionistas: ou são exaltadas como símbolo de pureza e virtude, ou ridicularizadas como imaturas e reprimidas.
Trata-se de uma lógica perversa, que transforma o corpo — e o que se faz ou não com ele — em régua para medir valor humano.
Virgens se enxergam na TV
Nesta questão comportamental, o reality show da Globo funciona como um espelho da sociedade ao ressaltar que uma parcela significativa da população adia ou recusa a iniciação sexual por decisão consciente, sem culpa.
Ao expor esses relatos, o programa ilumina um fenômeno geracional mais amplo: a redefinição do sexo como opção, e não como obrigação social. “É cada vez mais frequente que seja postergada essa iniciação”, disse a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo no ‘Fantástico’.
Não faz muito tempo, garotos eram pressionados a perder a virgindade ainda na adolescência como prova de virilidade e pertencimento ao grupo.
Enquanto isso, as moças solteiras virgens se viam ridicularizadas como ‘encalhadas’ e indesejadas.
Por essa visibilidade a um tema tão sensível e relevante, o ‘Big Brother Brasil’ presta um relevante apoio a quem, em nome da liberdade individual no sexo, usa o direito de dizer “ainda não”.