São Paulo ganha festival de teatro pautado por sucessos e apostas na renovação
A mostra apresenta 23 espetáculos ao longo de setembro em quatro espaços culturais, o BTG Pactual Hall, a Sala EMS, o Teatro Youtube e a Arena B3
A capital paulista recebe a primeira edição do Festival de Teatro de São Paulo, realizado pela produtora Aventura. O evento apresenta 23 montagens em 50 sessões, reunindo sucessos de público e novos talentos em quatro espaços culturais. Com abertura de Débora Falabella em "Prima Facie" e encerramento homenageando Othon Bastos, a mostra foca na pluralidade e na formação de plateias. Paralelamente, o projeto gratuito Palcos: SP também leva espetáculos a teatros municipais da cidade até outubro.
Entre esta terça, 1º, e a quinta, 3, a atriz Débora Falabella começa a se despedir temporariamente do monólogo Prima Facie, que há dois anos e meio lota teatros pelo Brasil, desta no palco de BTG Pactual Hall. Sob a direção de Yara de Novaes, o texto da australiana Suzie Miller conta a história de uma advogada que encontra brechas na lei para absolver clientes, inclusive abusadores sexuais, até o dia em que se torna vítima de um deles e enfrenta o outro lado da justiça. "É muito bonito ver uma história tão forte alcançar tanta gente e, no Festival do Curitiba do ano passado, por exemplo, fizemos duas sessões que ultrapassaram 5.000 espectadores", afirma Débora. "Os festivais têm o poder de mobilizar pessoas de uma maneira diferente porque, em um curto espaço de tempo, é possível ver coisas muito diversas."
Prima Facie é o espetáculo de abertura do Festival de Teatro de São Paulo, realização da produtora carioca Aventura, de Aniela Jordan e Luiz Calainho, que ocupa os quatro espaços culturais geridos pela empresa na capital paulista de 1º a 27 de setembro. Com idealização e curadoria de Maria Siman, o evento traz 23 montagens em 50 apresentações que serão vistas no BTG Pactual Hall e na Sala EMS (no antigo complexo do Teatro Alfa), em Santo Amaro, na Arena B3, no centro histórico, e no Teatro Youtube - Sala Eva Herz, no Conjunto Nacional da Avenida Paulista.
Trata-se da primeira edição paulistana do evento que já teve duas edições bem-sucedidas no Rio de Janeiro e oferece uma programação de sucessos recentes, além de servir de vitrine para revelar talentos mapeando o que de melhor se produz na cena brasileira. Aniela Jordan confessa que se surpreendeu com o resultado de público nas duas edições cariocas e considera natural esta extensão para São Paulo. "O objetivo é fazer um resumo dos melhores do ano e comprovamos que o público não se esgota quando o espetáculo é bom", afirma Aniela. "O Rio não tinha até então uma grande mostra e os festivais de São Paulo possuem curadorias mais intelectualizadas que nem sempre atendem aos interesses de um público amplo."
Entre as atrações aparecem Ficções, monólogo com a atriz Vera Holtz dirigido por Rodrigo Portella, que também comparece com (Um) Ensaio Sobre a Cegueira, do Grupo Galpão. Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall em Um Dia Muito Especial, a versão de Novas Diretrizes em Tempos de Paz dirigida por Eric Lenate, e o monólogo Macacos, de Clayton Nascimento, são outras produções que ganham novas oportunidades junto ao espectador paulistano. O homenageado desta edição é o ator Othon Bastos, de 93 anos, que volta à cidade com o solo Não me Entrego, Não!, uma comovente reconstituição de sua carreira, previsto para encerrar o festival nos dias 26 e 27 no BTG Pactual Hall.
Como curadora, Maria Siman destaca a pluralidade das temáticas que permeiam a programação - um diferencial na escolha dos espetáculos já que cada vez mais os festivais costumam adotar conceitos fechados. "O nosso primeiro pensamento é promover a comunicação entre artistas e público e sair do perfil dos festivais-cabeça porque estes já são muitos", declara Maria. "O que não significa que não montamos uma grade com produções que refletem sobre as temáticas contemporâneas que precisam ser discutidas."
Ela ressalta que, por exemplo, Prima Facie e Um Dia Muito Especial tratam de questões sociais sensíveis. A disputa de poder norteia o solo Mary Stuart, de Denise Stoklos, e a memória do teatro brasileiro é personificada por Othon Bastos. A comédia ocupa um lugar destacado com Dona Lola, solo protagonizado por Marcelo Medici, programado para o domingo, 6, sobre uma senhora que de simples dona de casa passa a celebridade na internet.
Medici celebra a iniciativa, principalmente, pelo incentivo à formação de novas plateias, uma característica marcante de festivais das décadas de 1980 e 1990, como a Jornada Sesc de Teatro e aqueles promovidos pela atriz e produtora Ruth Escobar em São Paulo. "Boa parte da minha formação eu devo e estes festivais porque vi espetáculos marcantes, como Quando Despertarmos de Entre os Mortos, com o ator Joel Grey, dirigido pelo Bob Wilson, no Teatro Municipal", lembra Medici. "Além disto, os festivais muitas vezes atraem públicos que podem não ir ao teatro com frequência e, no meu caso, vou fazer Dona Lola no BTG Pactual Hall, na zona sul, depois de ter me apresentado em salas da região central."
Aniela Jordan e Maria Siman garantem que o espectador pode apostar com tranquilidade em trabalhos de artistas menos conhecidos que integram a grade. Os solos Cabo Enrolado, com o ator e diretor Júlio Lorosh, Prata da Casa, protagonizado por Felipe Frazão, Donatello, de Vitor Rocha, 1 Peça Cansada, de Natasha Corbelino, e Não Aprendi a Dizer a Deus, com Bárbara Salomé, são montagens que merecem ser descobertas na Sala EMS ou na Arena B3. "O foco principal pode ser as grandes produções, mas precisamos investir em peças intimistas para que estes artistas tenham a possibilidade do exercício e cheguem ao mainstream", justifica Maria.
Bastante conhecida como filósofa, Viviane Mosé tem surpreendido muita gente com o monólogo Um Sim à Vida, que participou do Festival de Teatro do Rio e poderá ser visto no dia 25 no BTG Pactual Hall. Sob a direção de Lee Taylor, ela exercita o seu lado de atriz ao evocar memórias pessoais costuradas a conceitos de filosofia dos alemães Friedrich Nietzsche (1844-1900) e do Arthur Schopenhauer (1788-1860) facilmente traduzidos para o grande público. "Foi uma surpresa ser convidada pelo festival porque sei que a curadoria é muito criteriosa e o resultado no Rio foi excelente", comemora Viviane. "O meu trabalho é de experimentação de linguagem, não estou no palco exatamente como uma atriz, mas como uma artista provocadora e acho que foi isso que atraiu a atenção da organização do festival."
Projeto da prefeitura tem programação gratuita
Em meio ao Festival de Teatro de São Paulo, um outro evento dedicado às artes cênicas movimenta os seis teatros municipais da cidade neste mês. O Projeto Palcos: SP, parceria do Instituto Alecrim com a Prefeitura de São Paulo, acontece entre esta quinta, dia 3, e 3 de outubro com vinte apresentações gratuitas nos teatros Alfredo Mesquita, em Santana, Arthur Azevedo, na Mooca, Cacilda Becker, na Lapa, João Caetano, na Vila Clementino, e Paulo Eiró, em Santo Amaro.
Em comum, o Projeto Palcos: SP exibe as peças Prima Facie, cartaz do Teatro Paulo Eiró, no sábado, 5, e domingo, 6, Ficções, que ocupa o Alfredo Mesquita nos dias 25 e 26, e Dona Lola, no mesmo teatro, no dia 27. Além dos solos de Débora Falabella, Vera Holtz e Marcelo Medici, o festival destaca o espetáculo A Última Entrevista de Marília Gabriela, protagonizado pela atriz e apresentadora e o seu filho caçula, o ator Theodoro Cochrane nos dias 10 e 11 no Arthur Azevedo, e a atriz Lilia Cabral em Rita Lee - Balada da Louca no Teatro João Caetano nos dias 19 e 20.
Preste atenção ainda nos monólogos Inventário, interpretado por Érica Montanheiro, Tip - Antes que me Queimem eu Mesma me Atiro no Fogo, de Milla Fernandez, e Deixa Comigo, da atriz Iléa Ferraz. Duas das melhores peças vistas este ano na capital ganham nova chance, Habitat, que tem no elenco Fernanda de Freitas, Rafael Primot e Rogério Brito, e Oleanna, com Velson D´Souza e Julianna Gerais. Os fãs de um clássico recente, A Partilha, comédia de Miguel Falabella, podem conhecer a versão com as atrizes Iléa Ferraz, Adriana Lessa, Leticia Soares e Flávia dos Prazeres. Os ingressos para todas as atrações podem ser retirados na bilheteria dos teatros uma hora antes de cada sessão. Confira a programação no site oficial da prefeitura de São Paulo.
Festival de Teatro de São Paulo
- Onde: BTG Pactual Hall e Sala EMS. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro. Arena B3. Praça Antônio Prado, 48, Centro. Teatro Youtube - Sala Eva Herz. Avenida Paulista, 2073
- Quando: De 1º a 27 de setembro
- Quanto: De R$ 10 a R$ 140
- Programação: Consulte a programação completa em festivaldeteatrodesp.com.br
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