'Precisamos Falar' coloca famílias diante de um dilema moral: proteger os filhos ou assumir a verdade
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o longa apresentado por Emílio de Mello e Leonardo Monteiro de Barros lança um olhar incômodo sobre privilégio, impunidade e responsabilidade moral em uma sociedade polarizada.
Proteger os próprios filhos ou dizer a verdade à Justiça, custe o que custar. É a partir desse dilema ético fundamental que se constrói "Precisamos Falar", longa-metragem brasileiro que tem percorrido festivais internacionais antes de sua estreia no Brasil, prevista apenas para o segundo semestre de 2026. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme acompanha dois casais da elite urbana cujas certezas morais entram em colapso quando descobrem que seus filhos adolescentes participaram juntos da agressão a uma mulher em situação de rua - um ataque que resulta em morte.
Os jovens envolvidos no crime são filhos de dois irmãos. Um deles é um político em ascensão; o outro, um professor universitário em crise pessoal e profissional. A revelação da agressão fatal transforma um encontro familiar em um embate ético profundo, no qual entram em confronto não apenas visões distintas de mundo, mas também a relação entre poder, responsabilidade, impunidade e consciência moral.
Quando o poder e a família entram em conflito
"O que eu acho que é interessante no filme é que a questão não é o crime, é como a sociedade lida com o crime. Essas famílias, na verdade, são um espelho de uma sociedade", disse à RFI o ator Emílio de Mello, um dos protagonistas do longa, que esteve em Paris ao lado do produtor Leonardo Monteiro de Barros, sócio da Conspiração Filmes.
"Não importa se o agressor é seu filho, você tem que agir conforme manda a lei, de acordo com a moral, com a ética. Eu acho que o filme discute isso de uma maneira muito boa, muito bonita", destaca Emílio de Mello.
Ele interpreta Celso, um político em plena campanha ao governo do Rio de Janeiro, cuja ascensão nas pesquisas coincide com a revelação do violento ataque cometido por seu filho e pelo primo. "O filme é uma gangorra nesse sentido. Ele começa com ele passando à frente nas pesquisas para ganhar o governo do Rio. E o crime acontece nessa noite", conta o ator. A partir daí, estabelece‑se um embate entre dois núcleos familiares em posições opostas: de um lado, Celso e sua mulher, no auge social e político; de outro, o irmão de Celso, professor afastado da universidade, mergulhado em uma crise existencial e lidando com a depressão.
Pai de dois filhos, o ator e diretor de teatro paulista admite que o conflito extrapola a ficção. "Só de me imaginar numa situação como essa, já me dá um certo arrepio", confessa. Para ele, o filme toca em algo essencial.
"O futuro do nosso mundo são os nossos filhos. A maneira como a gente lida com a nossa família interfere diretamente na construção de uma nova sociedade."
Polarização inviabiliza reflexão
Esse debate, segundo o ator, ganha ainda mais urgência em um mundo atravessado pela polarização. "A gente vive uma polarização pelo mundo inteiro. E a gente não pode falar disso. Então o cinema abre espaço para essa discussão", afirma, citando experiências recentes vividas também fora do Brasil.
A escolha da vítima, uma mulher em situação de rua, estrangeira, acrescenta camadas decisivas ao conflito.
"É muito importante ser uma mulher. Na cadeia da importância social, ela realmente é relegada à última categoria. E acontece com esta pessoa", diz Emílio. "Ela ainda é uma estrangeira. Quer dizer, isso tudo está nas entrelinhas do filme."
Leonardo Barros complementa que essa alteração em relação ao livro original foi uma decisão consciente do roteiro. "A ideia de ser uma moradora de rua e uma refugiada foi uma ideia do roteirista Sérgio Goldenberg, porque no livro original isso era um pouquinho diferente", explica. Para o produtor, essa escolha reforça a dimensão ética da narrativa e a discussão sobre impunidade.
Um dilema universal, com ecos locais
Leonardo lembra ainda que "Precisamos Falar" é uma adaptação do livro "O Jantar", do escritor holandês Herman Koch, publicado há cerca de 15 anos e que se tornou um sucesso internacional. "Esse livro integrou a lista dos dez mais lidos do New York Times quando foi lançado nos Estados Unidos", destaca o produtor. Segundo ele, o longa brasileiro é a quinta adaptação cinematográfica da obra, que já ganhou versões na Holanda, na Itália, nos Estados Unidos - com Richard Gere - e na Coreia do Sul.
"Isso mostra como esse drama é universal e local, porque cada um desses filmes é bastante diferente um do outro na forma de abordar o problema, embora seja a mesma história. Isso é fascinante para um produtor de cinema", afirma.
Longe de simplificações morais, "Precisamos Falar" evita maniqueísmos ao retratar um embate ético cheio de nuances entre pais colocados diante de escolhas extremas. "Não é um filme maniqueísta, tem o bom e tem o mau. Ele mostra uma série de nuances, quase à la Dostoiévski, de dramas humanos profundos", afirma Leonardo.
Em um contexto em que o cinema brasileiro se reestrutura após períodos de crise institucional, Leonardo destaca a vitalidade atual da produção nacional.
"O Brasil está produzindo cerca de 200 filmes por ano. Produzir cinema não é fácil em lugar nenhum do mundo. É um trabalho coletivo, caro, complexo", afirma.
Para Emílio de Mello, apresentar o filme em Paris tem um significado especial. Antigo morador da cidade, ele se emociona ao reencontrar o público francês. "Paris é minha segunda cidade. Eu me sinto em casa aqui", afirma. "Mostrar um filme em que eu realmente acredito, numa cidade que eu amo tanto, é um prazer enorme."
"Precisamos Falar" propõe um debate incômodo e urgente: até que ponto princípios éticos resistem quando atravessados pelo amor, pelo poder e pela desigualdade social. Um filme que, como sugerem seus realizadores, não oferece respostas fáceis, mas insiste na necessidade de enfrentar as perguntas.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.