Por que ortodoxos comemoram a Páscoa em uma data diferente?
Ano passado, em um alinhamento de datas, as grandes igrejas cristãs celebraram juntas o Domingo de Páscoa. Mas, em 2026, a data voltou a cair em dias diferentes no Oriente e no Ocidente.No próximo fim de semana, será Páscoa novamente. Ou melhor, será Páscoa para uma outra vertente do cristianismo: a Igreja Ortodoxa. Enquanto católicos romanos e protestantes celebraram o Domingo de Páscoa no último 5 de abril, ortodoxos de várias denominações, vão celebrar a data em 12 de abril.
As datas diferentes resultam de tradições de calendário distintas e de regras específicas para o cálculo da celebração.
Cálculo
A questão sobre o momento correto da celebração da Páscoa é tema de debate entre cristãos há quase 2 mil anos, relata o arcipreste greco-ortodoxo Radu Constantin Miron, de Bonn, na Alemanha.
"No século 4, foi realizado um grande concílio ecumênico em Niceia [então uma cidade romana, hoje na Turquia], cujo 1.700º aniversário celebramos no ano passado. Esse concílio, realizado no ano 325 depois de Cristo, definiu quando a Páscoa deve ser celebrada: no primeiro domingo após o equinócio da Primavera, com a condição adicional de que a festa judaica da Pessach tenha ocorrido antes", explica ele.
Na época do concílio de Niceia, a Igreja se orientava pelo calendário juliano, introduzido pelo imperador romano Júlio César em 46 a.C.
Separação
Mas então no século 11 ocorreu o Grande Cisma, que causou uma ruptura da Igreja Católica, separando-a em duas: Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, a partir do ano 1054.
Em 1582, o então líder da Igreja Católica, o papa Gregório 13, introduziu um novo calendário, para corrigir distorções matemáticas, mudando a contagem de dias.
Naquele ano, o dia seguinte ao 4 de outubro, uma quinta-feira, não seria a sexta-feira 5 de outubro, mas, sim, sexta-feira 15 de outubro - um salto de 13 dias. Nos séculos seguintes, o calendário gregoriano foi sendo gradualmente adotado na Europa.
Isso teve um impacto direto na forma de cálculo da data da Páscoa tanto para os católicos quanto para confissões protestantes.
No entanto, as igrejas ortodoxas continuaram a seguir o antigo calendário juliano, pelo em datas religiosas, já que países de maioria ortodoxa adotam o gregoriano para o dia a dia.
É essa defasagem de 13 dias somada a fórmula de cálculo do equinócio que faz com que a Páscoa ortodoxa seja celebrada entre uma ou até cinco semanas após a Páscoa em denominações ocidentais.
Mas, algumas vezes as datas coincidem. Em 2025, num alinhamento de calendários, a Páscoa foi celebrada em uma data comum para todas as grandes igrejas cristãs, católicas, protestantes e ortodoxas. Já em 2026, o feriado ocorre em semanas distintas. O próximo alinhamento vai ocorrer em 2028.
Esforços para um calendário em comum
O 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, celebrado em 2025, reacendeu o debate sobre uma data comum para a Páscoa no Oriente e no Ocidente. Em novembro passado, o papa Leão 14 visitou o local histórico na atual Turquia, apelou à unidade das igrejas cristãs e participou, junto com o Patriarca Bartolomeu 1° de Constantinopla, de uma oração ecumênica.
Ambos os líderes eclesiásticos apoiam, em princípio, uma data comum para a Páscoa e ressaltam que um calendário unificado seria um sinal visível da unidade cristã. Embora até agora não tenha havido um avanço decisivo, a disposição para uma aproximação foi expressa de forma mais clara do que antes.
De acordo com Radu Constantin Miron, o aniversário do Concílio de Niceia lembrou muitos de como a data da Páscoa foi originalmente estabelecida e de que católicos e ortodoxos deveriam retornar à celebração conjunta.
"Nós, ortodoxos, às vezes somos um pouco lentos - e, admito, também um pouco formalistas", diz ele, sem se furtar de uma autocrítica. "É claro que o momento da Páscoa não é o mais importante. O essencial é que celebremos a ressurreição de Cristo. E, se fizermos isso juntos, é obviamente melhor. É assim que deveria ser."
Unidade em tempos de afastamento
Mesmo que o caminho até um acordo ainda pareça distante, o jubileu de Niceia mostrou que decisões históricas podem ser repensadas em conjunto. Hoje, ortodoxos e católicos compartilham claramente mais pontos em comum do que aquilo que, há poucos anos, parecia separá-los.
Cada vez mais clérigos parecem compartilhar a visão de que uma Páscoa celebrada em comum não representaria uma perda de prestígio para nenhuma das igrejas, mas sim um ganho em prática de fé compartilhada. E também um sinal visível de unidade em um período em que cada vez mais pessoas na Europa e em outras regiões do mundo se afastam das igrejas.
fcl/jps (DW)
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