Por que a Tapeçaria de Bayeux causa tanto furor no Reino Unido?
Considerada um símbolo da identidade britânica, a milenar Tapeçaria de Bayeux está em exibição no Museu Britânico após um inédito e complexo empréstimo da França. O bordado de 70 metros, que retrata a Conquista Normanda de 1066 e a Batalha de Hastings, gerou uma corrida histórica por ingressos em Londres. Registrada pela Unesco, a obra atua como peça de propaganda e valioso documento medieval, com potencial para quebrar os recordes históricos de visitação do museu.
Peça de cerca de 70 metros de comprimento e retratando 58 cenas é exibida no Museu Britânico após grande expectativa. Ela é considerada por muitos como um símbolo da identidade do Reino Unido.Antes de tudo, é preciso esclarecer um ponto: tecnicamente, não se trata de uma tapeçaria. Tapeçarias são tecidas, enquanto esta obra é um bordado feito sobre linho. Apesar disso, ela é tradicionalmente conhecida por esse nome.
Com cerca de 70 metros de comprimento, essa narrativa visual retrata os acontecimentos que cercaram a Conquista Normanda da Inglaterra, em 1066, culminando na Batalha de Hastings e na vitória de Guilherme, o Conquistador, sobre Haroldo 2º.
A Conquista Normanda mudou radicalmente a Inglaterra: política, leis e cultura passaram a ser influenciadas pelo domínio normando. A Tapeçaria de Bayeux testemunha esse acontecimento e, ao mesmo tempo, é um exemplo extraordinário da habilidade artesanal inglesa na Idade Média. Por isso, muitos britânicos a consideram um dos mais importantes símbolos da identidade nacional, ao lado das obras de Shakespeare ou de Stonehenge.
Acredita-se que a tapeçaria tenha sido encomendada pelo bispo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme e presente na batalha, a bordadores do sul da Inglaterra, para a inauguração de sua catedral, em 1070. Na época, os bordadores anglo-saxões eram famosos em toda a Europa por sua habilidade. Posteriormente, a obra foi levada para a França, onde permaneceu por quase mil anos, até agora.
Por que a Tapeçaria de Bayeux é tão importante?
A Tapeçaria de Bayeux é considerada um dos mais importantes monumentos pictóricos da Alta Idade Média. Muitos pesquisadores a veem como uma sofisticada peça de propaganda, criada para mostrar e explicar a vitória de Guilherme, o Conquistador, ao público da época. Sua mensagem, ainda alvo de debates acadêmicos, é que Haroldo Godwinson, então conde de Wessex, havia feito um juramento sagrado sobre relíquias, prometendo apoiar a reivindicação de Guilherme ao trono inglês. Ao quebrar esse juramento e coroar-se rei, teria justificado a guerra que se seguiu, retratada como uma punição legítima. O fato de Haroldo provavelmente não ter feito esse juramento por livre vontade é irrelevante para a narrativa apresentada no bordado.
A obra faz parte do Registro Memória do Mundo da Unesco e, devido às suas 58 cenas ilustradas, às vezes é chamada de "a história em quadrinhos mais antiga do mundo".
Acompanhada por inscrições em latim, a narrativa visual mostra os horrores da guerra, incluindo massacres, cabeças rolando e a morte de um rei.
Mas a tapeçaria também é um valioso documento histórico para os pesquisadores. Ela retrata com detalhes surpreendentes a construção naval, o equipamento militar e aspectos do cotidiano medieval. Até mesmo o Cometa Halley aparece na obra. O cometa foi visível nos céus em 1066 e é interpretado na narrativa visual como um mau presságio para os anglo-saxões.
Por que demorou tanto para a tapeçaria ser emprestada?
A tapeçaria pertence ao Estado francês e estava sob custódia da cidade de Bayeux, onde era exibida no Museu da Tapeçaria de Bayeux.
O Reino Unido já havia tentado obter a obra emprestada para a coroação de Elizabeth 2ª, em 1953, além de outras ocasiões históricas posteriores, mas a França sempre recusou. O artefato era considerado frágil demais, e a viagem, arriscada demais.
Por fim, no ano passado, o presidente francês, Emmanuel Macron, autorizou a exposição no Museu Britânico, contrariando as preocupações manifestadas por especialistas.
Em setembro do ano passado, a tapeçaria foi então retirada de exibição, embalada e colocada em armazenamento em uma operação altamente complexa que durou seis horas.
Em 9 de julho, ela finalmente chegou a Londres em uma operação de transporte mantida em sigilo. A obra foi acondicionada em um contêiner de alta tecnologia capaz de protegê-la de vibrações, além de manter temperatura e umidade constantes.
O governo britânico também contratou um seguro de 800 milhões de libras esterlinas para a obra, o equivalente a cerca de R$ 5 bilhões.
Onde conseguir ingressos?
O Museu Britânico dividiu a venda de ingressos em três fases. A primeira, para visitas entre setembro e dezembro, começou em 1º de julho. Todos os ingressos se esgotaram rapidamente, com relatos de até 80 mil pessoas tentando garantir uma vaga ao mesmo tempo. Muitos enfrentaram esperas de até nove horas.
Para quem perdeu essa oportunidade, haverá novas chances em breve: os ingressos para o período de janeiro a março serão colocados à venda em 21 de outubro, e os ingressos para abril a julho estarão disponíveis em janeiro.
A exposição está sendo promovida como um evento raro, "de uma vez por geração", e um amplo programa educacional pretende envolver escolas de todo o país.
O Museu Britânico acredita que a Tapeçaria de Bayeux poderá ajudá-lo a estabelecer um novo recorde de público. Até hoje, a exposição mais visitada da história da instituição continua sendo "Os Tesouros de Tutancâmon", realizada em 1972, que atraiu quase 1,7 milhão de visitantes.
Ficou sem ingresso? Existe uma alternativa
Se você está animado para ver a tapeçaria, mas não tem certeza de que conseguirá um ingresso, pode visitar a cidade de Reading, cerca de duas horas a oeste de Londres. Lá está exposta uma réplica fiel da obra, que por si só já tem 140 anos.
Mesmo naquela época, havia um forte desejo de ter essa obra na Inglaterra. Em 1885, 35 bordadores iniciaram um trabalho que durou cerca de um ano. Utilizando fotografias colorizadas como referência, reproduziram a tapeçaria em escala real.
No entanto, eles alteraram um detalhe. Algumas figuras presentes na borda do original aparecem nuas e em poses sugestivas. Pelo visto, isso foi considerado escandaloso demais para a moral vitoriana inglesa. Uma das figuras foi retocada na fotografia correspondente, e os bordadores copiaram essa alteração. Como resultado, a personagem passou a aparecer usando roupa íntima.
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