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O mito da "saudade" como conceito que só existe no português

29 ago 2026 - 14h20
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Resumo
A crença de que a "saudade" é exclusiva do português e intraduzível é um mito. Idiomas como romeno, galês e turco possuem termos com sentidos semelhantes, e línguas como alemão e inglês contam com recursos para traduzi-la. Embora o sentimento não seja exclusivo dos lusófonos, sua verdadeira singularidade está no forte peso histórico e na identidade cultural que os povos de língua portuguesa atribuíram à palavra ao longo dos séculos.
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Teoria de que palavra é intraduzível e de que só os lusófonos conseguem senti-la já foi repetida até por Fernando Pessoa. No entanto, idiomas tão diferentes quanto o turco e o galês jogam por terra essa ideia.Existe uma ideia amplamente difundida entre falantes de português de que a palavra "saudade" seria única no mundo e praticamente intraduzível. Essa noção é também ampliada e há quem diga que os lusófonos seriam os únicos capazes de experimentar esse sentimento.

Esse argumento aparece em um dos poemas do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), incluído nas Quadras ao Gosto Popular, publicadas postumamente. "Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem. Porque têm essa palavra para dizer que as têm", escreveu o poeta lisboeta.

No entanto, a teoria de que a "saudade" é uma palavra (e um sentimento) unicamente português cai por terra assim que observamos outros idiomas, explica Marco Neves, linguista e professor da Universidade NOVA de Lisboa.

"Vamos encontrar línguas que têm uma palavra com sentido muito parecido com a saudade", diz Neves. Uma delas é o termo romeno dor, que não corresponde à "dor" em português, mas a um sentimento próximo à saudade, associado à ausência de algo ou alguém.

Neves afirma que outras línguas também possuem termos semelhantes. "Os galeses têm uma palavra parecida (hiraeth), o turco também tem (gözlem). E várias outras línguas", complementa. "Se nós perguntarmos a muitos falantes dessas línguas, eles vão dizer que é uma palavra só deles e esse sentimento é só deles", afirma Neves.

Parte da identidade cultural

Embora não seja um conceito exclusivo do português, a saudade tem forte ligação com a identidade cultural e linguística dos países lusófonos. A palavra costuma ser associada ao período das navegações portuguesas, marcadas por longas separações e partidas sem garantia de retorno.

A presença da saudade na literatura também contribuiu para seu peso simbólico. O tema aparece, além de Fernando Pessoa, no épico Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, considerado um dos fundadores do português moderno. No Brasil, a importância cultural do termo é refletida até mesmo na existência do Dia da Saudade, celebrado em 30 de janeiro, além de figurar no título de uma das canções mais emblemáticas da música brasileira: "Chega de Saudade", composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes e imortalizada na voz e no violão de João Gilberto, no álbum de mesmo nome, de 1959.

A origem exata da palavra, porém, ainda é tema de debate. Alguns linguistas apontam uma derivação do latim solitas, enquanto outras hipóteses sugerem influências externas.

"A palavra aparece tardiamente. Estamos falando do século 16. Ela não está registrada nos textos medievais nem na poesia medieval", afirma Neves. Segundo ele, há indícios de uma possível influência do árabe saudah, termo encontrado no norte da África e que apresenta semelhanças tanto na forma quanto no significado.

Uma tradução impossível?

Para os tradutores, a saudade representa um desafio interessante, mas não necessariamente único. Em alemão, por exemplo, existem várias palavras capazes de expressar aspectos diferentes desse sentimento.

Entre elas estão Heimweh, que descreve a saudade de casa ou do lugar de origem; Fernweh, associada ao desejo de estar em lugares distantes; Sehnsucht, um anseio profundo por algo inacessível; e o verbo vermissen, usado para expressar a falta de alguém ou de alguma coisa. Em inglês, longing e o verbo to miss também se aproximam da definição de "saudade".

Nenhum desses termos, no entanto, reproduz exatamente todos os significados que os falantes de português costumam associar à palavra saudade. Ainda assim, isso não significa que o conceito seja impossível de traduzir, lembra o professor da Universidade NOVA de Lisboa.

"O problema da tradução, em geral, não é a falta de palavras, mas o excesso delas. O tradutor em geral tem que escolher entre várias hipóteses. E essa é a dificuldade", diz. "As pessoas muitas vezes acreditam que uma língua tem uma palavra e outra não tem lá nada. O que geralmente existe são várias possibilidades para traduzir aquilo que outra língua concentra em um único termo", explica Neves.

Um mito que diz tudo

Afirmar que a saudade é uma palavra intraduzível ou um sentimento exclusivo dos falantes de português não corresponde à realidade linguística. O que parece ser singular, porém, é a importância cultural atribuída ao termo.

"A importância que damos à saudade e a esse sentimento, sim, pode ser considerada única", afirma Neves. Para ele, o valor simbólico da palavra foi construído ao longo de séculos e faz parte da forma como os falantes de português enxergam sua própria cultura.

"Às vezes precisamos olhar para o mito para entender o que realmente importa. Não são frases de efeito como 'só o português tem essa palavra', mas uma história muito mais longa e interessante", diz.

Ou, como escreveu o próprio Fernando Pessoa, lembra o linguista, "o mito é um nada que é tudo". "Não representa a verdade, mas tem a sua importância cultural e devemos tentar percebê-la", conclui Neves.

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