No mesmo dia em que recebe indicação ao Grammy Latino, Elodie Bouny estreia ópera sobre a ditadura militar brasileira em São Paulo
Compositora franco-boliviana divide a criação de 'Esquecer? Nunca Mais!' com Roee Ben Sira
A compositora franco-boliviana Elodie Bouny estreou em São Paulo a ópera "Esquecer? Nunca Mais!", sobre a trajetória do economista Marcos Arruda e a resistência à ditadura militar, no mesmo dia em que foi indicada ao Grammy Latino 2026 pela peça "Tríptico Sudamericano". Radicada no Brasil e com sólida carreira acadêmica e artística internacional, Bouny celebrou a presença feminina na premiação e consolidou sua relevância na música clássica contemporânea com este duplo marco histórico.
Elodie Bouny vive nesta quarta, 16, um dia que dificilmente vai esquecer. Horas após ser anunciada como indicada ao Grammy Latino 2026, na categoria Melhor Obra/Composição Clássica, pela peça "Tríptico Sudamericano", a compositora franco-boliviana apresenta a primeira audição da ópera Esquecer? Nunca Mais! no Teatro Moise Safra, em São Paulo.
A reação ao saber da indicação resume bem o tamanho do momento: "São três mulheres entre os cinco indicados — muito bom! Ainda não sei se vou conseguir ir à cerimônia, mas vou tentar. É muita emoção", afirmou a compositora, em comunicado enviado à imprensa.
Esquecer? Nunca Mais! é uma ópera criada por Bouny em parceria com o compositor Roee Ben Sira e idealizada pelo historiador e brasilianista norte-americano James N. Green. A obra revisita a trajetória de Marcos Arruda, economista e educador que sobreviveu à tortura durante a ditadura militar brasileira e se tornou um dos símbolos da resistência política do período. Ao transformar essa memória em linguagem operística, a ópera cruza fronteiras entre história, política e arte.
Elodie Bouny tem uma relação particular com o país. Franco-boliviana, formada nos conservatórios de Boulogne-Billancourt, em Paris (2000), e de Estrasburgo (2005), ela escolheu o Brasil como casa: é mestre em Educação Musical e doutora em Processos Criativos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua trajetória no país inclui um marco histórico: em 2022, Homens de Papel, sua ópera anterior, tornou-se a primeira obra do gênero encomendada pelo Theatro Municipal de São Paulo em 109 anos de história da instituição. Ela também assina arranjos e orquestrações para artistas como Yamandu Costa, com quem lançou o álbum Helping Hands.
A indicação ao Grammy Latino por "Tríptico Sudamericano" é o reconhecimento mais recente de uma carreira marcada pela composição para violão, música de câmara, orquestra sinfônica, ópera e canção, com obras publicadas na França, no Canadá, nos Estados Unidos e no Brasil. Bouny também é produtora e idealizadora do Concurso Novas, voltado à descoberta e ao registro de obras para violão clássico, cujos resultados foram reunidos em quatro álbuns. Como instrumentista, apresenta-se pelo mundo como solista e em projetos como o Iroko Trio e a Caravana do Amanhã.
A primeira audição de Esquecer? Nunca Mais! acontece hoje no Teatro Moise Safra, em São Paulo, em uma data que condensa, em um único dia, uma indicação internacional e uma estreia — dois marcos que, juntos, dizem muito sobre o momento de Elodie Bouny na música clássica contemporânea.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.