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Stray Kids Faz Estreia Histórica com Lightsticks no Rock in Rio

Grupo sul-coreano fechou o primeiro dia dedicado ao K-pop com português, coreografias, fogos e até Michel Teló no repertório

12 set 2026 - 05h15
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Resumo
O Stray Kids fez uma estreia histórica como headliner no Rock in Rio com o maior oceano de lightsticks da América Latina. O grupo sul-coreano apostou em banda ao vivo para dar peso ao repertório eletrônico, ocupou o Palco Mundo com coreografias dinâmicas e fogos no meio do set, além de manter forte conexão com a plateia em português e até cantar Michel Teló. Com alta sintonia e presença de palco marcante, os artistas seguraram a multidão até o fim e consolidaram a força do K-pop em megafestivais.

Stray Kids começou seu show no Rock in Rio 2026 antes de colocar os oito integrantes no centro do Palco Mundo. Uma câmera encontrou Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N ainda nos bastidores e acompanhou o grupo enquanto ele caminhava próximo à grade. A primeira grande imagem daquela madrugada surgia justamente da redução temporária da distância entre headliner e público. Quando "Topline" começou de fato, a apresentação já havia estabelecido sua principal característica: aqueles fãs seriam tratados como parte ativa do show.

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E havia muita gente preparada para ocupar essa função. Lightsticks estavam espalhados por praticamente toda a área diante do Mundo, enquanto celulares, SKZOO, cartazes e acessórios do fandom completavam a paisagem. O Rock in Rio havia liberado a entrada dos bastões luminosos pela primeira vez para atender às particularidades daquele público e instalou uma passarela que não faz parte da configuração habitual do palco. A produção do festival classificou o resultado como o maior lightstick ocean já realizado na América Latina.

A imagem impressionava, mas a principal diferença estava no comportamento. O público conhecia versos, coreografias, pausas e chamadas. Havia respostas antes que determinadas orientações fossem traduzidas, gritos associados a membros específicos e movimentos reproduzidos no gramado. Em muitos shows de festival, o artista precisa convencer uma parcela da plateia durante os primeiros minutos. O Stray Kids encontrou uma multidão que vinha se preparando para aquele momento desde a abertura dos portões. Isso poderia deixar a apresentação confortável demais. O grupo escolheu o caminho oposto.

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Banda ao Vivo Dá Outro Peso às Músicas

Imagem: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial)
Imagem: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial)
Foto: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial) / Woo! Magazine

O Stray Kids levou banda ao vivo ao Rock in Rio, escolha importante para um repertório construído originalmente com camadas eletrônicas densas, beats de hip-hop, sintetizadores e mudanças rápidas de andamento. Guitarras e bateria ampliaram especialmente as faixas mais agressivas e impediram que o Palco Mundo funcionasse como simples reprodução gigantesca das versões de estúdio.

Esse tratamento aparece bem em músicas como "Domino", "Thunderous", "God's Menu" e "LALALALA". O Stray Kids já trabalha com composições que mudam de direção várias vezes dentro de poucos minutos, e o instrumental ao vivo deixa essas viradas ainda mais secas. Rap, refrões melódicos e trechos eletrônicos parecem disputar a música entre si, enquanto os integrantes alternam posições e funções no palco.

"Domino" foi um dos melhores exemplos do casamento entre som e movimento. A coreografia trabalha o efeito sugerido pelo próprio título, com corpos reagindo uns aos outros numa sucessão visual muito clara mesmo para quem estava longe. O novo Mundo, com seus grandes painéis, ajudou bastante nesse sentido: a direção de câmeras conseguia acompanhar detalhes sem perder o desenho coletivo da performance. O show estava sendo feito simultaneamente para quem estava na grade e para quem assistia centenas de metros atrás.

O mesmo vale para "Walkin on Water". Uma grande quantidade de dançarinos entrou em cena e ampliou a escala da apresentação sem esconder os integrantes. O Stray Kids entende bem uma dificuldade comum a grupos pop em festivais: coreografias criadas para televisão ou arenas fechadas podem parecer pequenas num palco daquele tamanho. A solução foi ocupar largura e profundidade, utilizar a passarela e variar constantemente a formação.

LALALALA Colocou os Fogos no Meio do Show

Uma escolha particularmente boa veio em "LALALALA". Em vez de guardar toda a pirotecnia para o encerramento, o grupo disparou uma grande sequência de fogos aproximadamente na metade da apresentação.

Funciona porque impede a estrutura previsível de festival em que todos sabem que a maior explosão chegará na última música. "LALALALA" já carrega guitarras e uma pulsação feita para grandes espaços, e os fogos empurraram aquele trecho para um primeiro clímax antes de o repertório mudar novamente.

A decisão também mostra que o Stray Kids não montou o set como escada contínua até um único momento final. A apresentação trabalha blocos. Existe coreografia pesada, depois conversa; um grande hit conduz a plateia, depois uma versão diferente altera o ritmo; fogos aparecem no meio e voltam mais tarde. Essa arquitetura ajuda bastante durante 1h45 porque impede que a quantidade de estímulos se torne uniforme.

Há um excesso natural nessa linguagem. Telões, fogo, dança, banda, oito integrantes, backing tracks e gritos da plateia frequentemente acontecem ao mesmo tempo. Algumas passagens poderiam ganhar mais clareza se trabalhassem menos elementos. Ainda assim, a maior parte do show consegue administrar essa densidade sem perder o foco principal: os membros continuam reconhecíveis dentro do espetáculo.

Português Funcionou Porque Houve Tempo Para Conversar

O esforço para falar português apareceu durante toda a noite. Os integrantes prepararam frases, agradeceram ao público e recorreram à tradução simultânea durante conversas mais longas. Em determinado momento, comentaram que a quantidade de pessoas parecia surreal e que sequer conseguiam enxergar onde a multidão terminava.

O mais importante é que essas falas receberam tempo. O show não tratou a interação como obrigação entre duas músicas. Cada integrante conseguiu falar, brincar ou reagir ao público, algo fundamental num grupo de oito pessoas em que a relação do fandom passa também pelas personalidades individuais.

Bang Chan, por sua experiência como líder, frequentemente assume o controle desses intervalos, mas existe cuidado para que os demais não desapareçam. Felix explora o contraste entre a voz grave e sua postura mais leve nas conversas; Changbin consegue transformar pequenas provocações em reação coletiva; Han trabalha humor com facilidade; Seungmin e I.N recebem respostas específicas quando assumem o microfone. A apresentação permite que essas diferenças apareçam sem desmontar a imagem do grupo.

Um dos momentos mais responsáveis veio quando eles pediram ao público que bebesse água, evitasse empurrões e ajudasse quem estivesse por perto. Horas antes, a produção havia interrompido a preparação para Hwasa e solicitado repetidamente que fãs recuassem da grade devido à pressão na frente do palco. O aviso do Stray Kids tinha, então, uma razão concreta.

Essa relação entre entusiasmo e segurança merecia atenção. Muitos STAYs permaneceram praticamente no mesmo lugar durante horas esperando o headliner. Quando o show finalmente chegou, cansaço e emoção estavam acumulados. Reconhecer isso do palco foi uma decisão correta e também mostrou que proximidade com fã envolve responsabilidade sobre a maneira como aquela massa se comporta.

Chk Chk Boom Ganhou Brasil - Mesmo Quando a Ideia Não Funcionou Perfeitamente

Imagem: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial)
Imagem: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial)
Foto: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial) / Woo! Magazine

O Stray Kids tentou inserir uma batida de samba na introdução de "Chk Chk Boom". O resultado musical não foi um dos melhores momentos da noite. O encaixe pareceu um pouco artificial diante de uma faixa que possui identidade rítmica própria e uma construção bastante seca.

Ainda assim, vale mais pela intenção de alterar o repertório para o lugar em que o grupo estava do que por alguma necessidade de agradar usando uma referência brasileira. Eles não vieram apenas repetir mecanicamente o mesmo set apresentado dois dias antes na Colômbia. Algumas versões receberam tratamento específico para festival, outras foram reorganizadas e o Brasil entrou inclusive na brincadeira do bis.

A música também demonstra muito bem por que o Stray Kids consegue funcionar num Palco Mundo. "Chk Chk Boom" dura pouco, possui partes muito diferentes e entrega frases que o público consegue responder imediatamente. É quase uma ferramenta de festival fabricada dentro da lógica do K-pop.

O grupo gostou tanto da faixa naquele contexto que voltou a ela perto do fim. Esse tipo de repetição poderia parecer desperdício num repertório tão vasto, mas o show trabalha versões e reaparições como parte da festa final, quando a estrutura já abandonou qualquer preocupação em apresentar uma sequência convencional.

Os Lightsticks Fizeram Algo Que o Telão Não Conseguiria Fazer

O novo Palco Mundo possui cerca de 2.400 m² de LED e já recebeu produções gigantescas nesta edição. Mesmo assim, uma das imagens mais fortes do quinto dia estava fora dele.

Milhares de lightsticks espalhados pelo gramado criavam uma iluminação irregular e humana, completamente diferente da precisão dos painéis. Cada bastão representava alguém que havia escolhido levar para o festival um objeto ligado à identidade do fandom. O resultado visual nascia da repetição, mas continuava individual.

Esse detalhe ajuda a explicar a diferença entre um público que assiste e um fandom que prepara sua própria participação. O Rock in Rio controla palco, LEDs, pirotecnia e iluminação, mas não controla aquela massa de pontos luminosos. A cena existe porque milhares de pessoas chegaram com os mesmos códigos e sabiam quando levantar os bastões.

É também uma resposta para quem ainda reduz o K-pop a uma experiência fabricada exclusivamente por gravadoras. Existe certamente uma indústria extremamente planejada por trás dessas carreiras, mas a maneira como fãs ajustam símbolos, memes, presentes, coreografias e objetos fora desse controle corporativo cria uma cultura própria. E na sexta-feira, essa cultura ocupou fisicamente o Rock in Rio.

Ai Se Eu Te Pego Virou Piada Interna de Uma Relação com o Brasil

Na reta final apareceu uma surpresa que já não era exatamente inédita: "Ai Se Eu Te Pego", sucesso mundial de Michel Teló. Bang Chan puxou a música novamente, recuperando uma brincadeira feita pelo grupo durante a passagem pelo Brasil em 2025.

O mérito está justamente na repetição. Se o grupo tocasse qualquer música brasileira escolhida aleatoriamente, seria apenas mais uma tentativa de produzir reação local. Repetir Michel Teló transforma a referência em memória compartilhada entre Stray Kids e os fãs brasileiros. Quem esteve nos shows anteriores reconhece a piada; quem conhece apenas o hit entra facilmente.

O português reaparece nessa região final de forma menos ensaiada, porque os integrantes já estavam soltos depois de mais de uma hora de apresentação. O resultado tem uma naturalidade maior do que aquelas frases cuidadosamente decoradas no começo.

Foi também um momento em que a diferença cultural desapareceu por alguns minutos de um jeito particularmente engraçado: oito artistas sul-coreanos cantando um sertanejo brasileiro que virou fenômeno internacional, diante de milhares de brasileiros que sabiam exatamente por que aquilo estava acontecendo.

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O Falso Final Mostrou Quanto Público Ainda Estava Ali

Imagem: Reprodução/Stray Kids (Via: @realstraykids)
Imagem: Reprodução/Stray Kids (Via: @realstraykids)
Foto: Reprodução/Stray Kids (Via: @realstraykids) / Woo! Magazine

"Run It" e "Miroh" conduziram um falso encerramento acompanhado por nova sequência de fogos. Num festival, esse seria o momento perfeito para uma debandada: madrugada avançada, horas em pé e transporte ainda pela frente.

Ela praticamente não aconteceu. A maior parte do público permaneceu diante do Mundo esperando uma volta que parecia óbvia, mas cuja duração ninguém sabia. O grupo retornou e recuperou "This & That", passou por "Ai Se Eu Te Pego", voltou a "Chk Chk Boom" e levou o set até "Hall of Fame".

Essa retenção é um dos dados mais importantes para avaliar a apresentação. Outros headliners desta edição viram fluxos consideráveis de saída antes dos minutos finais, seja por chuva, cansaço ou dificuldade do show em sustentar atenção. O Stray Kids encontrou um público que havia chegado horas antes e ainda assim permaneceu quase inteiro depois de 1h30.

Claro que existe uma variável óbvia: boa parte daquela plateia comprou o ingresso especificamente para eles. Mas isso só aumenta a pressão. Um público altamente dedicado conhece versões, repertórios, falhas e repetições. Entregar exatamente o esperado pode ser insuficiente quando todos já assistiram a dezenas de vídeos de apresentações anteriores. O grupo resolveu esse problema combinando familiaridade com alteração.

O show cresceu porque o Stray Kids não pareceu visitante

A estreia do Stray Kids no Rock in Rio poderia facilmente ter sido tratada como acontecimento histórico antes mesmo de qualquer música. Primeiro headliner de K-pop, primeira noite do festival construída dessa maneira e uma base enorme aguardando sua entrada. Seria simples depender desse marco para carregar a apresentação.

O grupo tocou como se precisasse justificar o posto. A banda ao vivo aumentou o peso das músicas, as versões de festival deram outra estrutura a faixas conhecidas, a passarela foi explorada de verdade, cada integrante encontrou momentos próprios e o Mundo teve seus LEDs utilizados com uma precisão que várias atrações anteriores não alcançaram (Tirando o Alok, que fez algo espetacular). A produção não escondia a música; servia à velocidade com que ela mudava.

Há excessos. Alguns blocos jogam informação demais sobre o público, determinadas transições poderiam respirar mais e a tentativa de samba em "Chk Chk Boom" foi mais simpática do que musicalmente convincente. Também existe apoio de faixas pré-gravadas, prática comum em apresentações pop com coreografias intensas. O ponto positivo é que os vocais ao vivo permaneceram presentes durante grande parte da apresentação e se tornaram bastante perceptíveis justamente quando os integrantes se afastavam das coreografias mais rígidas.

O show também mostrou uma banda que já pensa em escala de festival. "LALALALA", "Miroh", "Walkin on Water", "God's Menu", "Run It" e "Chk Chk Boom" não precisam ser ampliadas artificialmente para ocupar grandes espaços. Elas já carregam quebras, drops e refrões capazes de dividir dezenas de milhares de pessoas em respostas rápidas.

O Rock in Rio abriu o Palco Mundo para o K-pop. O Stray Kids entrou sabendo exatamente o que fazer com ele.

Imagem: Divulgação/Stray Kids/JYP (Via Site Oficial)

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

Woo! Magazine
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