Script = https://s1.trrsf.com/update-1784747113/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Steve Lacy é um dos talentos mais únicos do pop moderno. Só não faça disso um grande alarde

Ele é um músico extremamente talentoso e um ícone de estilo, com vários clássicos da era do streaming no currículo. O próximo passo: seu álbum mais pessoal até agora

27 jul 2026 - 08h49
Compartilhar
Exibir comentários

"Vamos perder esse desfile". Estou no banco do passageiro de uma Mercedes novinha que está praticamente parada no trânsito de Paris. Steve Lacy está no banco de trás, responsável pela trilha sonora da viagem, colocando uma playlist com a dupla francesa de música eletrônica Air, M.I.A. e Faye Webster. Estamos indo para a Bourse de Commerce, onde a apresentação da coleção Primavera-Verão 2026 da Yves Saint Laurent está prestes a começar. Só que não estamos avançando muito. O trajeto entre o hotel de Lacy e o local deveria levar apenas alguns minutos, mas estamos nos movendo na velocidade de uma conexão discada. Nosso motorista entra por um beco, uma rua estreita, como se diz por ali, apenas para encontrar mais congestionamento. Para piorar, um carro aparece no retrovisor, bloqueando nossa saída. Se quisermos chegar ao desfile a tempo, teremos que ir a pé. E rápido.

Steve Lacy se apresenta durante a 65ª edição do GRAMMY Awards, em fevereiro de 2023
Steve Lacy se apresenta durante a 65ª edição do GRAMMY Awards, em fevereiro de 2023
Foto: Timothy Norris/FilmMagic / Rolling Stone Brasil

🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @centralsonora.

Lacy foi nomeado embaixador da YSL em 2023 e participa todos os anos da apresentação masculina da marca, normalmente realizada em Paris durante a semana de moda. Nesta abafada tarde de terça-feira, em junho, ele veste um look completo da YSL: calças de couro justas, botas pretas de couro de cano alto que quase funcionam como uma calça por si só e uma camisa branca de botões com corte geométrico impecável — todas peças de coleções anteriores.

Assim que o motorista para para nos deixar descer, Lacy salta do carro em um movimento que parece único e contínuo. Percebo algumas pessoas virando o pescoço, espantadas — seus olhos não estão enganando você: é mesmo o músico vencedor do Grammy Steve Lacy caminhando apressado pelas ruas de Paris usando botas Saint Laurent até as coxas, parecendo exatamente uma estrela do rock.

Steve Lacy talvez seja mais conhecido por seu single de 2022, "Bad Habit", que liderou as paradas e se tornou um dos primeiros grandes sucessos da era pós-pandemia. Não importava onde você olhasse, deslizasse ou rolasse a tela, lá estava aquele refrão — "I bite my tongue, it's a bad habit" — capturando o arrependimento específico de não ter tomado uma atitude com um crush. O verso sinceramente autodepreciativo — "I wish I knew you wanted me" — ajudou a música a permanecer na cabeça das pessoas, conectando-se com algo universal, até um pouco profundo, enquanto mantinha uma leveza quase sem esforço. "É literalmente assim que são as conversas comigo", diz Lacy. "É tipo, um pensamento aqui, algo profundo ali e, logo depois, uma piada."

Como segundo single de seu segundo álbum, Gemini Rights (2022), a faixa tinha uma qualidade imediata, quase alquímica. A bateria vibrante sob riffs de guitarra igualmente explosivos soava como um fato científico. A música seria indicada nas categorias Canção do Ano, Gravação do Ano e Melhor Performance Pop Solo no Grammy de 2023, enquanto Gemini Rights venceu como Melhor Álbum de R&B Progressivo.

Antes de seguir carreira solo, Lacy, hoje com 27 anos, fazia parte do grupo the Internet, ao lado da cantora e compositora Syd e do produtor Matt Martians, que já eram nomes estabelecidos dentro do coletivo californiano Odd Future. Ele atuou como coprodutor executivo do álbum que marcou a ascensão do grupo, Ego Death (2016), trabalho que lhe rendeu sua primeira indicação ao Grammy, em 2016, quando ainda estava no ensino médio. "Eu adoro que a primeira coisa em que trabalhei se chamasse Ego Death", diz Lacy. "Entrei sem ego."

A história de como a carreira de Lacy começou parece saída de uma cinebiografia da VH1: um adolescente tímido e talentoso de Compton, que perdeu o pai para o câncer, encontra um grupo de jovens músicos talentosos que o acolhem e desenvolvem suas habilidades antes que ele se torne uma superestrela. "Quando Steve era jovem, a mãe dele era muito protetora. Nós éramos as únicas pessoas em quem ela confiava para deixar o Steve sair de casa quando ele tinha 15, 16 anos", lembra Martians. Em determinado momento das sessões de Ego Death, Martians precisava de uma linha de baixo para uma faixa e pediu para ouvir algumas das músicas que Lacy vinha produzindo. "Ele começou a me mostrar um monte de coisas que fazia no celular na época. E eu fiquei completamente impressionado. Pensei: 'É esse tipo de música que você faz? Isso é insano'", conta Martians. "Ele era muito tímido. Não percebia o quanto era bom."

Entra então a montagem mostrando Lacy dominando praticamente todos os instrumentos imagináveis. Não apenas guitarra, mas bateria, baixo e, mais recentemente, sintetizadores. Claro, ele também canta. No videoclipe de "Playground", de seu álbum de estreia, Apollo XXI (2019), ele aparece em uma banda formada inteiramente por outras versões de Steve Lacy, o que parece bastante apropriado.

Pouco depois do lançamento de Ego Death, Lacy conheceu Kendrick Lamar, com quem trabalharia mais tarde em "Pride", do álbum DAMN. (2017). Naturalmente, Lacy relembra o primeiro encontro com o rapper vencedor do Pulitzer de maneira cinematográfica. "Entrei lá todo estiloso, e o Kendrick falou: 'Já vi seu rosto em alguns videoclipes'", recorda. "Eu respondi: 'Ei, o seu também, cara'. E aí ele riu." Timidamente, Lacy se ofereceu para mostrar algumas músicas que vinha produzindo, e uma delas acabaria se transformando em "Pride", que, no início deste ano, juntou-se a "Bad Habit" e "Dark Red" na lista de produções de Steve Lacy que ultrapassaram 1 bilhão de reproduções apenas no Spotify.

Foi Gemini Rights (2022) que consolidou Steve Lacy entre os grandes artistas de sua geração. A fluidez do álbum entre funk, pop, rock, R&B e hip hop — deslizando entre gêneros com a facilidade de uma playlist do Spotify — dialogava diretamente com a sensibilidade cultural da Geração Z, cuja experiência com música foi moldada pela ideia de acesso infinito a tudo o tempo todo. O disco também encontrou naturalmente um enorme público no TikTok, onde, além de "Bad Habit", a faixa de abertura, "Static", tornou-se onipresente como trilha da tendência viral 'English or Spanish', em que usuários permaneciam completamente imóveis ao som dos versos de abertura de Lacy: "Baby, you got something in your nose. Sniffin' that K, did you fill the hole?".

"Descubro muita música na internet hoje em dia e tudo mais. Não acredito muito nessa conversa sobre déficit de atenção", diz Lacy, referindo-se à ideia de que plataformas como o TikTok estariam reduzindo a capacidade de concentração de sua geração. "Acho que as pessoas gravitam naturalmente para os momentos mais fortes das coisas."

Chegamos à Bourse de Commerce — um palácio circular que já abrigou a antiga bolsa de trigo a céu aberto da França e hoje é dedicado às artes — bem em cima da hora, embora pela entrada errada. O astro sul-coreano Cha Eun-woo provoca gritos dos fãs reunidos do lado de fora, enquanto a equipe de segurança conduz Lacy por um pequeno grupo de curiosos até o local onde ele deve ser fotografado. Quando finalmente entramos, somos recebidos pela instalação "Clinamen", da artista Céleste Boursier-Mougenot, composta por uma grande piscina de água cristalina pontilhada por tigelas brancas de cerâmica flutuantes. A partir daí, tudo vira uma sequência de cumprimentos com dois beijinhos no rosto e cerca de três dúzias de "Oi, tudo bem?". Lacy abre um sorriso malicioso e me diz que "talvez" tenha consumido um comestível mais cedo. "Não sei se fui eu que comi o comestível ou se foi o comestível que me consumiu", brinca depois do desfile. Pergunto se caminhar até o evento sob quase 32 °C o incomodou. "Eu não fico pensando demais nessas coisas."

Hoje em dia, Steve Lacy pensa principalmente em música. Seu novo álbum, previsto para ser lançado em breve, chama-se Oh Yeah? (2026) e traz uma capa que lembra o mascote fictício de uma bebida famoso por atravessar paredes. "Tirei o rosto dele do copo. Espero não ser processado", brinca Lacy. Lacy vem divulgando o projeto à vista de todos, usando camisetas do álbum em fotos publicadas nas redes sociais, enquanto os fãs aguardam ansiosamente por músicas inéditas. Sobre o motivo de ter escolhido o título Oh Yeah?, ele apenas diz que "a pergunta é importante". Apesar do tom bem-humorado, o disco é, sem dúvida, o trabalho mais confiante de sua carreira até agora. "Esse levou muito tempo e muita reflexão", afirma Lacy. "Continuo usando a palavra 'design'. Parece que estou projetando uma linguagem completamente nova para mim mesmo."

"Por um bom tempo, as palavras eram meio que secundárias. Mas agora eu penso: 'OK, quero dizer as coisas do jeito que eu diria'."

Apesar de sua inclinação para escrever versos memoráveis ("Dark Red", por exemplo, começa com "Something bad is about to happen to me"), Lacy diz que este álbum marca a primeira vez em que pensou conscientemente nas letras. "Quando comecei a fazer música ou produzir coisas com o the Internet, eu sempre fazia a batida, criava um refrão e simplesmente entregava para alguém", conta Lacy. "Esse foi meu processo durante muito tempo, então as palavras sempre ficavam meio em segundo plano. Eu pensava: 'Se minha batida é foda, essa linha de baixo é foda, os acordes são fodas, o que mais a gente precisa?' Mas agora eu penso: 'OK, quero dizer as coisas do jeito que eu diria'."

No dia anterior ao desfile da YSL, estou no carro com Lacy, que, claro, continua responsável pela trilha sonora, desta vez tocando a versão mais recente das músicas do álbum. Estamos a caminho de uma gravação de vídeo às margens do Sena e, durante o trajeto, passamos por cartões-postais de Paris, como a Torre Eiffel, o Louvre e a Catedral de Notre-Dame. Você percebe a música de forma muito mais completa quando a ouve dentro do anfiteatro particular e fechado que é um bom sistema de som automotivo. As sutilezas e texturas dos vocais, o impacto físico da bateria e as melodias de guitarra quase efervescentes. As faixas que escuto têm um tom pessoal e introspectivo, como se Lacy tivesse pegado o olhar perspicaz e inteligente com que observava a vida e o amor de uma perspectiva distante e o voltado para si mesmo. Ele habita emocionalmente essas músicas, explorando temas como sua identidade racial, sua relação com o amor e a confiança, além da própria fluidez sexual, tudo com o estilo de observação meio cômico e ocasionalmente devastador que construiu ao longo da carreira. "Sinto que posso simplesmente dizer qualquer coisa, mas também dar pequenas cutucadas em coisas humanas muito reais que você precisa conhecer e perceber", afirma Lacy. "É uma mistura de besteira com barras realmente fortes."

Lacy produziu sozinho Oh Yeah?. Sonoramente, o álbum é aventureiro, mergulhando em estilos como trip-hop e música eletrônica, ao mesmo tempo em que constrói baladas de rock clássico feitas para estádios e arenas. Nos últimos anos, Lacy desenvolveu interesse por sintetizadores, algo que pode ser ouvido nas novas músicas. Famosamente, sua banda favorita é o Stereolab, e, neste disco, ele canaliza a sensibilidade melódica e brincalhona do grupo anglo-francês. O resultado é o tipo de álbum pop abrangente que artistas como Prince — com quem Lacy é frequentemente comparado — costumavam fazer. "Quando ouvi o álbum, falei: 'Você realmente fez um álbum pop. E não pop no sentido do pop atual, mas pop como era na época dos grandes nomes'", diz Martians. "Ele está entrando em territórios que me lembram muito o pop de antigamente, e isso é muito bom."

Lacy me mostra "Nice Shoes", que ele descreve como um "trailer" deste novo momento de sua carreira. Diz que pretende lançar a música junto com esta reportagem — na verdade, ela chega às plataformas à meia-noite de hoje. A faixa é conduzida por um breakbeat no estilo drum and bass que só pode ser descrito como imundo. A letra alterna entre o divertido e o perspicaz, com Lacy refletindo sobre sua ereção ao imaginar dar as mãos para seu novo crush — "ereções românticas", como ele define —, além da natureza às vezes sutil da melancolia. "Crazy how you could be sad and not notice", canta Lacy. "All I need is my guitar and serotonin."

Os fãs, no entanto, não precisam se preocupar com a possibilidade de Lacy ter abandonado a guitarra em favor da música eletrônica. Perto do fim da faixa, o bpm cai pela metade, e ele volta às seis cordas, dedilhando uma melodia tipicamente Steve Lacy antes de seus vocais começarem a falhar digitalmente, fazendo a transição para o break. Assim como deseja que suas letras reflitam a maneira como fala, Lacy está pronto para que sua música revele aspectos de sua personalidade e de seus gostos que ainda não havia mostrado ao público.

DE VOLTA AO HOTEL, dentro de um daqueles elevadores minúsculos que parecem assombrar toda a cidade de Paris, Lacy me conta que ficou um pouco cansado dos eventos da semana de moda. Ele considera desgastantes as conversas superficiais e as gentilezas obrigatórias. Além disso, não se vê exatamente como uma celebridade. Aliás, é justamente por isso que se sente tão confortável em Paris, uma cidade muito menos obcecada pela fama do que a maioria dos lugares nos Estados Unidos. Lacy vem viajando entre sua casa em Los Angeles e Paris para gravar o álbum. No fim de semana anterior ao nosso encontro, ele foi ao show da turnê de Beyoncé na cidade (onde Jay-Z subiu ao palco para uma versão de "Nias in Paris**" sem Kanye). Ele não estava nos bastidores nem em uma área VIP, mas no meio do público ao lado do amigo, o músico Moses Sumney, que conheceu em um brunch pré-Grammy por volta de 2016. "Fomos como fãs, pegamos o trem, ficamos no meio da multidão, e eu pensei: 'Em Los Angeles isso seria uma loucura'", conta Lacy. "Mas aqui foi tudo muito tranquilo e natural."

"Eu não compro essa ideia de fama. Antes de qualquer coisa, sou um estudante".

Lacy dominou um tipo de fama discreta, em que seus fãs são genuinamente obcecados por ele e sua música é sempre boa o suficiente para causar impacto no mainstream — o bastante para render convites para desfiles de moda em Paris. Ele cita artistas como Frank Ocean, Tyler, the Creator e Solange como exemplos do tipo de carreira que enxerga para si. "Eles nunca se moldaram ao formato da música pop. Mas provavelmente podem fazer o que quiserem e ser headliners de qualquer festival", diz. "Todos criaram seus próprios universos, e as pessoas vão até eles".

Esse comportamento é praticamente uma característica da atual geração de superestrelas. Hoje em dia, por todos os lados, os maiores nomes da música parecem querer se livrar da artificialidade da celebridade em busca de conexões mais autênticas com o público. É Charli XCX organizando raves, Drake se aproximando de streamers e criadores de conteúdo como Kai Cenat, ou Justin Bieber lançando o álbum Swag, no qual abandona sua imagem polida de galã para adotar uma persona mais espontânea e pé no chão, influenciada por seus gostos pessoais.

Lacy incorpora isso de forma natural, o que muitas vezes significa tratar a fama mais como um irmão mais novo irritante que vive atrás dele do que como um fato da vida. "Eu não compro essa ideia de fama porque, antes de qualquer coisa, sou um estudante", afirma. "Lembro quando comecei a estourar e as pessoas falavam um monte de merda sobre mim na internet. Fui reclamar com a minha mãe: 'Por que diabos alguém está me incomodando? Eu só quero fazer música'. E ela respondeu: 'Steve, você foi abençoado com essa plataforma. Precisa ser grato'." Lacy diz que conseguiu transmitir esse aprendizado para artistas em ascensão, como PinkPantheress, que contou em entrevista à i-D que ele a ajudou a lidar com a fama repentina causada pela internet. "Matt Martians foi essa pessoa para mim", conta. "Então é legal poder retribuir e ser essa pessoa para a nova geração".

Em 2022, enquanto "Bad Habit" atingia o auge da viralização, as casas de show começaram a flexibilizar as restrições da Covid, permitindo o tão aguardado retorno dos concertos. Durante a turnê de Gemini Rights, Lacy deixou de ser um artista relativamente desconhecido, com uma base fiel de fãs, para se tornar uma estrela do mainstream cercada por milhares de adolescentes gritando. Ele acabou envolvido em uma polêmica após quebrar uma câmera que um fã jogou no palco durante um show; o vídeo do momento viralizou. Lacy lembra que muitos veículos publicaram versões incorretas da história. "Foi quando entendi o que era fama", diz. "A história era que eu tinha quebrado o celular de um cara e encerrado o show. Pensei: 'Nossa. As pessoas simplesmente mentem'. Eu terminei o show. Só falei: 'Façam esse cara ser retirado daqui'. Porque por que diabos alguém jogaria alguma coisa em mim?".

Explodir na internet logo no início da turnê acabou sendo um grande aprendizado. "Foi um choque cultural para mim, porque eu estava acostumado a ser um artista de nicho, aquele cara legal obcecado por música", afirma. "Acho que fazer turnê depois da Covid e viralizar ao mesmo tempo atraiu muita gente barulhenta que estava indo ao primeiro show da vida. No começo, meu corpo rejeitou isso. Mas, no fim da turnê, eu já adorava toda aquela energia, porque pensava: 'Esse é o primeiro show dessas pessoas. Estou mostrando para elas como é estar em um concerto, então quero abraçar essa energia também'."

Depois da turnê, Lacy praticamente desapareceu dos holofotes, uma decisão incomum para alguém que acabara de conquistar um single número um e o maior sucesso de sua carreira. "Qualquer outra pessoa na minha posição pensaria: 'Vou surfar essa onda'. Mas eu sei que ainda vou estar aqui por um bom tempo. Não estou preocupado com isso", afirma. Ele vê a devoção dos fãs do the Internet como uma confirmação de que sua estratégia faz sentido: mesmo sete anos após o último álbum da banda, o público continua especulando sobre possíveis lançamentos. (Lacy diz que o grupo tem "passado um tempo junto" e que novas músicas devem chegar em breve.)

"O tempo é uma coisa louca. Ele realmente mostra tudo", diz. "E acho que é por isso que me sinto tão confiante nas minhas escolhas e no meu ritmo, porque tudo aconteceu de forma muito lenta e gradual. 'Dark Red' só ganhou disco de platina cinco ou seis anos depois. Então não me sinto pressionado nem acho que preciso dessa viralização imediata. Lembro que, quando assinei com a RCA, perguntaram: 'Então, o que você quer?'. E eu respondi: 'Cara, quero ser tão grande quanto eu deveria ser. Não quero ser maior do que preciso ser'."

Agora, depois de conquistar um single no topo das paradas e um álbum vencedor do Grammy, qual deveria ser o tamanho de Steve Lacy? Do lado de fora do desfile da YSL, o cantor e compositor Sombr, de 20 anos — nome artístico de Shane Michael Boose — se aproxima para dizer que Lacy é um de seus heróis. É possível dizer que Sombr faz parte da primeira geração de artistas diretamente influenciada pela música de Lacy. O jovem fenômeno do pop vive uma ascensão parecida com a dele: no último ano, emplacou dois singles no Top 40, impulsionado em parte pelo algoritmo hiperativo do TikTok. Já Lacy, às vezes, sente o peso da diferença de idade entre ele e parte de seus fãs. "Uma garota me disse: 'Cara, a gente precisa de música nova. Eu me formei no ensino médio desde a última vez que você lançou alguma coisa'", lembra. "E eu pensei: 'Por que você tinha que falar desse jeito?'".

"Meu ego estava completamente inflado. Eu precisava levar um choque de realidade. E isso me fez bem".

Um dos motivos pelos quais Lacy queria participar do desfile da YSL, além do amor pelas roupas da marca, era apresentar oficialmente seu novo corte de cabelo: um degradê limpo e preciso que, segundo ele, marca o início de sua nova fase. Durante anos, usou tranças de comprimento médio. "Sempre mudo o cabelo quando termino um ciclo", explica. "Eu não conseguia imaginar mais nada que pudesse fazer com aquelas tranças". Lacy frequenta o mesmo barbeiro de Tyler, the Creator, e encontrou o rapper em uma das festas de audição de seus discos, em Los Angeles, no ano passado, depois de passar vários dias pensando na mudança. Interpretou o encontro como um sinal e decidiu cortar o cabelo, embora a experiência tenha sido intensa. "Foi muito emocionante. Chorei no caminho", conta.

Lacy transmite aquela tranquilidade ensolarada típica da Califórnia. Mesmo impecavelmente vestido, carrega uma elegância natural e confortável, quase como um dançarino. O novo corte deixa seu rosto totalmente à mostra, revelando traços marcantes e juvenis que lembram um jovem Michael Jackson. Antes de seguir para a festa após o desfile, paramos para tomar uma bebida em um restaurante próximo, onde Lacy explica que deixou de fumar há alguns anos para preservar a voz. Maconheiro de coração, ele passou a preferir comestíveis. Tudo isso faz parte de uma postura mais intencional que passou a adotar desde o lançamento de Gemini Rights. Segundo ele, neste novo álbum, "entende a energia muito mais do que entendia no anterior".

Um dos temas que mais se destacam no disco é o romance — ou a ausência dele. As novas músicas preservam o humor irônico de Lacy, mas agora acompanhadas de uma melancolia escancarada que leva suas composições a novos níveis emocionais. "Lembro que toquei as músicas para a gravadora alguns meses atrás", conta. "Eles disseram: 'Tá bom, agora toca umas mais felizes'. E eu pensei: 'Merda'." Ele atribui boa parte desse clima sombrio ao fim de um relacionamento no outono passado, que o fez repensar, por algum tempo, sua relação com o amor.

Para a felicidade de Lacy — e da gravadora —, ele também tem escrito músicas mais leves. Na verdade, atualmente se sente muito romântico. Algumas semanas antes de viajar para Paris, conheceu alguém. Eles se conheceram "do jeito que os jovens se conhecem", diz, em tom enigmático — ou seja, pela internet.

"No nosso terceiro encontro, era aniversário dele, e ele queria me ver. Estava com todos os amigos, um grupo enorme, umas oito ou nove pessoas", lembra Lacy. "Já parei de sair com pessoas porque queriam que eu conhecesse os amigos delas. Mas com ele foi diferente. Conheci todo mundo e ainda organizei a festa depois. Foi aí que percebi que estava realmente apaixonado, porque não faço esse tipo de coisa por qualquer pessoa". O ex-namorado de Lacy, inclusive, estava sentado perto dele no desfile da YSL, mas desta vez ele estava emocionalmente preparado, ao contrário do ano anterior, quando encontrar o ex no mesmo evento foi como um "susto de filme de terror". Ele atribui parte da tranquilidade atual a esse novo romance.

Lacy também reencontrou o entusiasmo pela música. Em uma de suas viagens a Paris neste ano, encontrou uma guitarra que reacendeu sua paixão pelo instrumento. Até então, sentia que o som da guitarra estava se tornando um clichê. "Fui a Paris e comprei uma Gibson de 1990, e ela me fez voltar a tocar guitarra. Isso é muito empolgante", conta. "Durante um tempo eu estava focado só nos sintetizadores e no baixo, mas agora me sinto novamente uma estrela do rock. Uma estrela do rock com guitarra".

LACY NASCEU em Compton, cidade da Califórnia que ele descreve como igualmente mágica e incompreendida. "Não preciso me preocupar em colocar Compton no mapa", afirma, citando a tradição da cidade em revelar artistas lendários. "Existe muita coisa negativa, mas também muita coisa positiva que saiu de lá".

A mãe de Lacy é negra, enquanto seu pai era filipino. Os dois se conheceram no trabalho — ela era enfermeira e ele atuava como faz-tudo no hospital onde ela trabalhava — antes de se casarem e terem dois filhos: Steve e sua irmã mais nova. (A mãe de Lacy também tinha duas filhas de um casamento anterior.) Os pais se separaram quando ele ainda era criança e, aos 10 anos, seu pai morreu de câncer de pulmão. Lacy diz que nunca teve a oportunidade de se conectar profundamente com o lado filipino de sua identidade. "Isso escapou de mim", afirma. "Hoje dependo das histórias dos meus familiares para saber mais sobre essa parte de quem eu sou".

"Cresci cercado pela morte. Isso afeta a forma como eu trato a vida".

Crescendo em Compton e tendo traços visivelmente negros, Lacy lembra que os amigos perguntavam quem era seu pai. "Quando eu era mais novo, eu simplesmente parecia negro", conta. "Minhas características filipinas apareceram conforme fui ficando mais velho. Então eu pensava: 'Alguém está mentindo para mim. Quem diabos é esse homem que vem buscar minha irmã e eu?'".

Lacy via o pai apenas esporadicamente durante a infância, então, quando ele morreu, não sabia exatamente como deveria se sentir. Ele se lembra de ter chorado uma vez. "Era tudo muito abstrato para mim. Eu me perguntava até que ponto eu podia ficar triste por alguém que aparecia tão de vez em quando", diz. "Depois, quando cresci, entendi que existem coisas que você aprende com seu pai e que eu simplesmente não tive. Acho que a parte mais triste é descobrir sozinho quais são essas coisas. Mas ele ainda está por perto. Eu tenho uma relação com os mortos. Às vezes sinto a presença dele".

Ter familiares morando no exterior ensinou Lacy sobre os diferentes níveis de pobreza ao redor do mundo. Mesmo depois da morte do pai, sua mãe continuou enviando dinheiro para a família dele nas Filipinas. "Nós crescemos em uma casa de três quartos com apenas um banheiro, e deixávamos de ir ao McDonald's", explica. "Ela continuava falando com a família dele pelo Facebook e mandando uns 50 dólares pelo MoneyGram. Ela dizia: 'Nas Filipinas, você seria rico, então nunca esqueça disso'". Lacy comenta que nunca viu os pais demonstrarem afeto um pelo outro. Hoje, encara seus relacionamentos como uma tentativa de "corrigir, de certa forma, os erros deles. Acho que só quero provar para mim mesmo que não sou igual a eles".

Lacy vem de uma família musical. Sua mãe já sonhou em ser cantora e gravou vocais de apoio em músicas dele, assim como suas irmãs. Quando tinha cerca de 10 anos, começou a tocar guitarra depois de assistir à banda da igreja onde frequentava. "No fim do culto, eles simplesmente começavam a solar, e eu ficava sentado olhando, de boca aberta, sem me mexer", lembra. Nessa época, ele já era apaixonado pelo instrumento graças às horas jogando Guitar Hero. "Quando eu tinha 10 anos, era obcecado pela guitarra. Queria tocar nela. Queria estar perto dela. Queria ouvi-la", diz. Pouco tempo depois, começou a ter aulas.

Quando estava no ensino médio, sua mãe o incentivou a entrar para a banda de jazz da escola, e ele aceitou. Por volta de 2012, seu amigo e colega de classe Jameel Bruner (irmão mais novo de Thundercat) o apresentou a Matt Martians e aos integrantes do the Internet, justamente quando o Odd Future começava a ganhar notoriedade. Lacy passou a frequentar os ensaios da banda, cujos integrantes eram todos bem mais velhos que ele. "Foi meio que a primeira liberdade que tive na adolescência, porque cresci muito protegido. Mas minha mãe começou a me deixar sair um pouco mais. Eu ia até lá só para observar. E era muito quieto. Eles me chamavam de Lil Steve". ("Na verdade, só troquei o contato dele no meu celular de 'Lil Steve' há alguns meses", conta Syd.)

Martians queria garantir que Lacy estivesse bem preparado para construir sua própria carreira. "Comecei a dizer para ele: 'Olha, precisamos montar um álbum. Não precisa ser longo nem super complexo, mas o mundo precisa conhecer você sozinho'. Foi por isso que, em Ego Death, ele faz parte da banda, mas escolhi colocá-lo como participação em 'Palace/Curse'. Eu queria preparar essa transição para que ele fosse conhecido como um artista independente".

Em 2017, pouco antes de completar 19 anos, lançou Steve Lacy's Demo, gravado quase inteiramente no GarageBand de um iPhone velho e bastante desgastado. Mesmo no início da carreira, seu talento como compositor já chamava atenção. Demo inclui o sucesso cult "Dark Red", uma faixa extremamente cativante que, até hoje, acumula quase 2 bilhões de reproduções apenas no Spotify e soa quase como uma antecessora da igualmente viciante "Bad Habit".

John Troutman, diretor da divisão de Cultura e Artes do Smithsonian, soube da forma como Lacy gravou o EP depois de ler uma reportagem sobre isso na Wired. "Parecia uma daquelas histórias inacreditáveis em tantos níveis diferentes, porque refletia seu talento extraordinário, tanto como músico quanto como produtor, em uma idade tão jovem", afirma.

Troutman e sua equipe estavam organizando uma exposição chamada Entertainment Nation e entraram em contato com Lacy em 2017 para adquirir o lendário iPhone usado nas gravações. A mostra foi inaugurada em 2022. "Abrimos justamente quando 'Bad Habit' estava no topo das paradas, então os jovens que visitavam a exposição sabiam exatamente quem ele era e ficavam surpresos e encantados ao ver o iPhone", conta Krystal Klingenberg, curadora do Smithsonian.

"Já vimos adolescentes se ajoelhando diante do celular dele", acrescenta Troutman.

Em 2019, Lacy falou sobre sua identidade queer pela primeira vez em seu álbum de estreia, Apollo XXI. Na faixa "Like Me", ele começa com uma espécie de introdução: "This is about me and what I am / I didn't wanna make it a big deal / But I did wanna make a song" ("Isso é sobre mim e sobre quem eu sou / Eu não queria fazer disso um grande assunto / Mas queria fazer uma música").

Lacy diz que "esperou um pouco" antes de assumir publicamente sua sexualidade. "Eu escondia tudo até começar a fazer as coisas", conta. "Por exemplo, eu amo dança — todos os estilos: contemporânea, sapateado, hip-hop. Amo dança moderna. Mas, crescendo, nunca pude explorar isso porque não queria que ninguém me chamasse de gay antes de eu mesmo dizer quem eu era, gay ou qualquer outra coisa, sabe? Talvez fosse mais fácil se fosse simplesmente: 'Sou gay'. Mas eu não sou só isso. É fluido, e ser queer é muito mais difícil de explicar do que simplesmente ser um homem gay".

"Durante um tempo eu só queria saber de sintetizadores e baixo, mas agora me sinto uma estrela do rock novamente. Uma estrela do rock com guitarra".

Lacy mantém uma relação travessa com as redes sociais. Publica bastante em seu feed principal no Instagram e, de vez em quando, aparece no TikTok fazendo vídeos com tendências do momento ou ao lado de criadores populares. E, embora tenha diminuído isso recentemente, também ficou conhecido por responder comentários de forma afiada. Antes mesmo de assumir publicamente sua sexualidade, fãs no Tumblr e no Twitter já haviam percebido que ele era queer. Depois de um tuíte — hoje apagado — sobre preferências raciais em relacionamentos, uma onda de ataques tomou conta das redes. Lacy diz que aprendeu com a experiência. "Hoje eu valorizo isso, entendo de onde vem e consigo ter empatia", afirma. "Mas lembro que, na época, foi muito difícil ouvir tudo aquilo".

"Eu tinha só 18 anos, foi assim que saí do armário, cara", diz. "As pessoas descobriram que eu beijava meninos e meninas porque tentaram me cancelar. Mas eu precisava passar por aquilo, porque minha vida estava perfeita demais. Meu ego estava completamente inflado. Então eu precisava levar um choque de realidade. E isso me fez bem". Como um artista negro e queer, Lacy evita se colocar como porta-voz de qualquer grupo. Para ele, o mais importante é que todas as experiências humanas possam existir e ser representadas. "Sinto que minha missão é humanizar as pessoas negras", afirma. "Nós temos um espectro enorme de emoções. Acho muito limitado aquilo que nos permitem assistir e consumir".

Essa ideia faz parte do que tornou o show Pop Out, de Kendrick Lamar, tão especial para Lacy, que subiu ao palco ao lado de diversos rappers da Costa Oeste. "Aquilo foi muito bonito e profundo porque, em Compton, você só ouve um tipo de música tocando por todos os lados. Então eu nunca imaginei que o que eu fazia seria respeitado ou faria parte da conversa sobre o que é Compton", diz. "Estar ali, sentir aquele carinho e dividir o palco com outros artistas da cidade, que também representam Compton, foi muito especial".

Embora sua participação no evento aparentemente tenha irritado Drake — que o chamou de "fragile opp" (algo como um inimigo frágil) durante uma transmissão com xQc no ano passado —, Lacy diz que achou o comentário divertido: "Eu adoro o Drake. Cresci ouvindo Drake e tudo mais".

Uma palavra que aparece o tempo todo em nossa conversa é "fluidez". Tenho a impressão de que quase nada permanece fixo na vida de Lacy. "Adoro como essa fluidez aparece naturalmente na minha música", diz. "Acho que muita gente usa o fato de ser gay como estratégia de marketing. Eu nunca fiz isso". A música permite que ele expresse todas as suas diferentes facetas. "Ela me ajuda a formar uma identidade de alguma forma. É como se a história se escrevesse sozinha, sabe?". Ele diz que sua música favorita é "Static", de Gemini Rights, "porque foi muito honesta". Na faixa, Lacy fala sem filtros sobre suas frustrações amorosas. "Lookin' for a bitch, 'cause I'm over boys", canta.

"Eu estava muito puto quando escrevi aquela música, e lembro de ouvi-la depois e pensar que parecia aquela sensação de estar tão bravo que dá vontade de chorar". Segundo ele, suas músicas novas seguem o mesmo nível de sinceridade, "só que ainda mais". "Agora eu quero mais emoção, emoção crua. E quero simplesmente dizer isso diretamente para você".

"Acho que ele sempre foi muito aberto", diz Syd. "Essa é uma das maiores qualidades dele. A capacidade de ser ele mesmo, independentemente do que qualquer outra pessoa pense".

Parte dessa franqueza vem da relação que Lacy desenvolveu com a morte. "Cresci cercado pela morte", afirma, referindo-se não apenas ao pai, mas também à violência do bairro onde cresceu. "Acho que isso afeta a forma como trato a vida e as pessoas. Não sinto que tenho direito ao tempo de ninguém. Só quero aproveitar ao máximo enquanto ele existe".

Depois que Lacy segue para a festa da YSL (para a qual eu não fui convidado), encontro um amigo que também está em Paris e vamos juntos a uma festa organizada por uma galeria local. Por coincidência, encontro Lacy novamente por lá. Ele comenta que a festa oficial foi entediante e parece estar se divertindo muito mais naquele evento menor e mais descontraído. Conta também que já encontrou dois ex-namorados durante essa viagem a Paris — o do relacionamento do outono passado e o primeiro namorado, de quando tinha 19 anos. Não bastasse isso, os dois aparentemente ficaram amigos. (Mais tarde, ele brinca dizendo que "colocou aquele pau no mapa".) É o tipo de situação que me faria correr direto para o rio Sena, mas que parece não incomodá-lo nem um pouco, já que conversa amigavelmente com ambos.

"Adoro como minha fluidez simplesmente transparece através da música. Sinto que muita gente usa a questão de ser gay para promover o próprio trabalho. E eu nunca fiz isso".

Já passa um pouco da meia-noite, e a festa migrou da pista de dança abafada para a calçada, onde cigarros e outros agrados típicos de festas circulam discretamente de mão em mão. Lacy me cumprimenta com um abraço, embora eu perceba que ele toma cuidado para não se soltar demais na frente de um jornalista. "Você vai fazer parte desse momento, sabe?", ele me diz. Brinco com ele sobre a letra da nova música: "Se existisse um momento para colocar tudo para fora, seria agora". Ele canta os versos ainda inéditos com uma afinação impressionante, antes que alguém toque em seu ombro para conversar.

No dia seguinte, estamos novamente presos no trânsito de Paris, desta vez a caminho da L'art de L'automobile, uma garagem particular que mais parece um santuário de concreto dedicado a carros esportivos clássicos. O espaço pertence ao amigo de Lacy, Arthur Karakoumouchian, conhecido entre artistas por negociar alguns dos esportivos europeus mais raros e desejados. Os dois tinham em comum o falecido designer Virgil Abloh, que Lacy conheceu em um evento da Apple antes de desfilar no primeiro desfile da Louis Vuitton comandado por Abloh. ("Tive uma realização triste outro dia", ele lembra. "O único presente que o Virgil me deu foi um relógio que andava para trás".)

Embora não se considere exatamente um apaixonado por carros, Lacy tem uma afinidade especial por Porsches e relembra que dirigia um Tesla quando sofreu um acidente, em 2020. Morando em Topanga na época, ele fazia uma curva quando um motorista embriagado bateu de frente em seu carro. "O cara entrou na minha faixa, porra", recorda. "Na hora eu pensei: 'Cara, a gente deposita confiança demais nessas linhas pintadas no meio da estrada'". Felizmente, Lacy não se machucou, mas diz que "viu um clarão preto". "Foi intenso, e minha cabeça foi para muitos lugares diferentes. Depois fiquei pensando: 'Se eu tivesse morrido naquele momento, estaria satisfeito com tudo'?". E percebi que a única coisa que eu mudaria seria ser mais transparente. Essa foi a única observação que fiz para mim mesmo".

Isso me lembra algo que ele havia contado mais cedo naquele dia, sobre quando conheceu Jay-Z, não muito tempo atrás. Eles estavam nos bastidores de um evento, e Jay observava um de seus filhos, prestando apenas metade da atenção às pessoas ao redor. "Tenho sobrinhos, então sei como é quando você se cansa dos adultos e passa a prestar atenção na criança, sabe? Ele estava meio assim, olhando para a criança, sentado, e ninguém falava com ele. Aí pensei: 'Vou lá sentar e conversar com o Jay-Z'".

Jay-Z sabe quem é Steve Lacy?

"Não sei. Acho que não sabia. Então comecei a conversar: "Como você tá, cara?". Ele respondeu: "Tô bem, de boa". Eu falei: "Curti seu look. Que jaqueta é essa?". Ele disse: "The Row". Eu respondi: "Caralho". E mostrei que eu também estava usando The Row. Eu também estava chapado, mas daqueles comestíveis que me deixam falante".

Como qualquer pessoa chapada faria diante de uma lenda do hip hop, Lacy resolveu quebrar o gelo com uma piada. "Falei: 'Cara, foi vacilo você não ter colocado Lil Wayne para tocar em Nova Orleans no Super Bowl'". Ele respondeu: "Não, estava tudo ali. Seria loucura não colocar Kendrick, sabe". E eu disse: "Não, eu sei. Só tô zoando você".

Até aí, tudo bem.

Sentindo-se mais confiante, Lacy comentou sobre um de seus discos favoritos de Jay-Z. "Falei que adoro 4:44. Ele respondeu: 'Cara, fico feliz que você tenha mencionado esse álbum'. Aí eu disse: 'Você é um cara muito gente boa, mano'. Depois que saí de perto dele, pensei: "Por que diabos eu acabei de dizer para o Jay-Z que ele é um cara gente boa?"."

Esse é o tipo de transparência que Steve Lacy demonstra hoje em dia. Você pode ter certeza de que, seja o que for que ele diga, ele realmente acredita naquilo".

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra