Fcukers revelam à Rolling Stone Brasil bastidores do show com Harry Styles, primeira vez no Brasil e inspirações
Dupla nova-iorquina fala em entrevista exclusiva nos estúdios da Rolling Stone Brasil sobre começar sem aspirações e descobrir um álbum em duas semanas
Depois de três shows lotados no MorumBIS, abrindo para Harry Styles, a simpática Shanny Wise e cool Jackson Walker Lewis passaram pelos estúdios da Rolling Stone Brasil para falar sobre a recente ascensão meteórica. A dupla do Fcukers acabou de viver uma das maiores experiências da carreira, e tudo começou com um e-mail misterioso.
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Em 2022, quando Shanny e Jackson se conheceram, fizeram uma escolha radical: fazer música apenas por diversão, sem qualquer ambição comercial. Ela vinha de The Shacks; ele, de Spud Cannon, e, em ambas as bandas, havia pressão por sucesso e reconhecimento. Ali, porém, entre eles, era diferente. Faziam música só para si, sem se preocupar com crítica, público ou contratos com gravadoras. "A gente não tinha aspirações", confessariam depois. E é justamente nesse lugar — quando você abandona a pressa pelo sucesso — que as melhores coisas começam a acontecer.
O crescimento foi tão rápido que, ainda hoje, eles parecem não acreditar. De um primeiro show no Baby's All Right, em Brooklyn, para 200 pessoas, passaram a 2 mil em uma única noite em Nova York. Coachella. Glastonbury. Primavera Sound. Aberturas para Tame Impala, LCD Soundsystem, HAIM, no Madison Square Garden. E tudo isso enquanto gravavam um álbum em duas semanas com Kenny Beats, produtor que conheceram para tomar um café. Mas, antes de tudo isso, antes de qualquer coisa, veio o e-mail. O e-mail misterioso.
Eles estavam em turnê com Tame Impala na época, acreditando que aquela seria a maior coisa que fariam na vida. Então descobriram que era Harry Styles. Um dos maiores artistas pop do planeta. E, sim, ele os queria. Sem entender muito bem como, o Fcukers se viu catapultado da enigmática Berghain direto para estádios. Agora, estão no Brasil, ainda processando tudo isso.
Confira a entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=rpG5BVuXYbs&t=1s
Eu queria começar perguntando: vocês receberam um e-mail misterioso — um e-mail que não explicava muita coisa — e, quando vocês descobriram que era do Harry Styles… como foi esse momento? Vocês ficaram muito surpresos?
Shanny: Muito surpresos. Sim.
Jackson: Foi louco, porque a gente estava em turnê com o Tame Impala quando recebeu o e-mail e, naquela hora, achou que aquela seria a maior turnê que a gente faria. Então, quando chegou o e-mail, a gente pensou: "Caramba, isso é insano".
E vocês já ouviam Harry Styles antes? Quer dizer, como não conhecer, né?
Jackson: Sim, claro. One Direction… ele é bem onipresente, especialmente com os hits, sabe? É impossível escapar.
E nessa semana vocês tiveram contato com ele? Como foi?
Shanny: A gente se encontrou com ele no primeiro dia. Ele veio cumprimentar, foi muito simpático.
E o que muda na preparação do show quando vocês vão abrir para um artista desse tamanho?
Fcukers: Acho que, em geral, a gente não muda tanto o nosso set, dependendo de para quem a gente abre. A gente sempre tenta levar a nossa vibe, a mesma vibe.
A única coisa que eu diria que muda é a parte técnica. Porque, sabe, num clube pequeno, se alguma coisa estiver chiando, dá para "deixar passar". Mas, num estádio, se alguma coisa estiver chiando, aí não fica legal. Você tem que subir o nível, elevar a barra.
E como vocês descrevem a relação entre o universo sonoro do Fcukers e o Harry Styles? Faz sentido vocês estarem na mesma turnê?
Jackson: Essa é uma boa pergunta para ele. Faz sentido? Não sei, mas eu estou feliz de estar aqui.
Eu acho que faz sentido. Ele está experimentando com música dançante no álbum novo. E, se você olha para os shows de abertura dele — Jamie xx e outros — dá para ver que ele está mostrando o gosto dele por dance music. Ter a gente aqui talvez seja uma forma de mostrar algo que ele curte.
E o que vocês aprenderam com essa experiência de abrir shows em estádio?
Shanny: É louco. É bem diferente. Eu estou aprendendo a performar num palco maior e a me movimentar mais. Eu nunca tinha feito nada assim. Então é legal, é novo.
Jackson: E eu acho que aprendi que, provavelmente, você precisa de um cabo mais comprido.
Agora, falando dos shows em si: como foram? O que vocês acharam?
Shanny: Foram muito divertidos. Foi super surreal.
E o que vocês sabiam sobre o público brasileiro?
Shanny: Eles são famosos por serem o melhor público.
E eles foram?
Fcukers: Foram.
Qual foi o momento específico no palco que marcou vocês nessas noites aqui em São Paulo?
Shanny: Acho que na primeira noite, quando a gente entrou, foi simplesmente insano… pisar naquele palco.
E como é tocar para um público que, em grande parte, talvez ainda não conheça o Fcukers?
Jackson: Acho que tem um lado legal em tocar num lugar tão grande, em que você não consegue ver ninguém de perto. Ao mesmo tempo, isso cria um pouco de desconexão, de certa forma.
Mas, olha: o fato de que, no Brasil, as pessoas chegam cedo porque existe fandom e porque brasileiras e brasileiros amam música… isso é muito inspirador.
A gente já tinha falado isso antes, mas não só a gente estava muito animado para abrir para o Harry Styles: a gente estava quase ainda mais animado para abrir para ele no Brasil. Se dessem para a gente a opção de escolher qualquer show, a gente teria escolhido o Brasil.
Então tem sido uma experiência incrível, e você só tem que ser grato por estar aqui e fazer o seu trabalho.
E, além do show, o que vocês queriam fazer em São Paulo, fora do palco? O Jackson tinha mencionado que queria… O Kai, você já tentou?
Jackson: Eu já tentei isso várias vezes. Já fui. Acho que ainda estou tentando.
E você?
Shanny: Eu não sei… o que eu deveria fazer?
Tem que provar brigadeiro. O básico: coxinha, pão de queijo. Você precisa experimentar.
Você disse que vai para o Rio: vai ver a estátua?
Shanny: Sim, com certeza.
E, Shanny, você mencionou que conhece Tropicália, Os Mutantes, Gal Costa. Eu queria saber como você descobriu essas referências brasileiras — e se elas inspiram o Fcukers de alguma forma.
Shanny: Eu descobri quando era adolescente. Eu comprei um disco em vinil… acho que o primeiro foi do Santana. E, sinceramente, acho que o jeito como essas músicas funcionam, meio como uma colagem, com seções diferentes e tempos diferentes, é algo que me inspirou por muito tempo.
Agora, falando sobre a trajetória de vocês: você disse que, quando começaram, nem imaginavam lançar uma música — que tudo começou só por diversão, no quarto. Agora vocês estão abrindo show para o Harry Styles. Como vocês olham para "vocês de 2022", antes de tudo isso acontecer?
Shanny: É louco. Eu não consigo acreditar. A gente já caminhou muito. De verdade.
Quando eu olho para trás, eu penso que tem algo muito importante em fazer arte genuinamente para você mesmo. Foi uma das primeiras vezes na minha vida em que a gente estava fazendo música só para a gente, sem pensar em como seria recebida, ou "ah, conseguir um selo", ou "ah, conseguir isso". A gente não tinha aspirações.
Sério, a gente não tinha aspirações. E a recepção tem sido incrível.
Se vocês pudessem ver o Fcukers do passado, o que diriam?
Jackson: Continua.
E você mencionou Coachella como o primeiro grande "uau" da carreira. Hoje, onde estaria esse "uau"?
Shanny: Esses shows, sinceramente.
Vocês passaram de um grupo de amigos para after parties com Charli XCX, depois Coachella e agora shows internacionais. Como é viver esse tipo de crescimento?
Jakcsln: Tem sido insano. Tipo… na semana passada, a gente fez um set numa festa com a Madonna, em Nova York. Dois dias depois, a gente estava no estúdio com Beck e Roger. E, poucos dias depois, a gente estava no Brasil tocando com Harry Styles.
É tão louco que, às vezes, você nem consegue processar. Eu odeio dizer que vira normal porque não é normal… mas você tem que parar e se beliscar.
E a jornada tem sido cheia de elogios: Tame Impala, Billie Eilish, Beck… Como é sentir que vocês estão no caminho certo?
Jackson: É louco. Eu não sei… é estranho. Mas te deixa muito grato e com a sensação de sorte por estar na sala.
E também, quando você recebe elogios de artistas que você admira… para mim, isso é uma das coisas mais significativas. Review é legal, mas, quando um artista de que você gosta diz que curtiu sua música, isso é muito inspirador.
Agora, falando do álbum: ele saiu no fim de março. Já se passaram alguns meses. Como tem sido esse período pós-lançamento?
Shanny: Tem sido muito divertido.
E eu sempre gosto de perguntar: como é lançar um álbum? Que sentimentos aparecem? Ansiedade, alívio, uma mistura dos dois?
Shanny: É muito bom colocar um corpo de trabalho no mundo, uma coleção de músicas. É como fechar a porta daquele período: você não está mais trabalhando naquilo, você lança e vai para a próxima coisa.
Jackson: É tipo estar grávido e depois ter um filho. E foi bom "parir" o bebê.
E como esse é o primeiro álbum de vocês, o debut… existe uma pressão específica? Como vocês descreveriam?
Jackson: Total. Eu estava surtando. Por um tempo, eu lembrava disso o tempo todo.
E a gente estava numa posição interessante porque o EP Baggy foi mais bem-sucedido do que a gente imaginava — e a gente não achava que ia rodar o mundo com um EP.
Então, quando a gente foi fazer o álbum de estreia, tinham dois problemas: a pressão de ser um disco de estreia e precisar ser bom, mas, ao mesmo tempo, parecia o nosso segundo álbum, porque Baggy funcionou como um primeiro álbum (mesmo não sendo um álbum). As pessoas já conheciam nosso som.
Então também tinha a pergunta: "para onde a gente leva essa direção agora?"
Teve muita pressão, mas, quando a gente conheceu o Kenny, depois de meses se sentindo travado, tudo fluiu.
E, para você: qual a diferença entre lançar um álbum inteiro e lançar um EP ou singles? O que muda na relação com o público e com a música?
Jackson: Quando você lança um grupo de músicas juntas, elas são apresentadas como uma unidade. Talvez as pessoas tenham uma percepção diferente de certas faixas quando elas estão num álbum, em vez de serem um single isolado.
E álbuns são mundos próprios. Para fandom, é mais fácil se conectar com um artista quando existe um "corpo" completo.
Mas a diferença principal é que álbum é muito mais difícil de fazer do que um single. É como… vários singles. Leva tempo.
Tem algo que vocês queriam dizer ou provar com o álbum que não caberia num single ou num EP?
Shanny: A gente queria continuar avançando e fazer algo um pouco diferente. Não queria fazer o EP de novo.
E a forma como o álbum aconteceu foi bem sem planejamento: a gente encontrou o Kenny achando que ia só tomar um café e dizer oi… e acabou ficando duas semanas e fez um álbum.
Então, a gente simplesmente entrou, fez muita coisa, e foi um bom fluxo. Eu não diria que a gente tinha um grande plano tipo "isso é o que vamos fazer". Foi mais "isso foi o que a gente fez".
A gente também queria mostrar variedade: entre o EP e o álbum, a gente queria mostrar amplitude — de gêneros, de estilos.
E tudo foi gravado em duas semanas. Logo depois, vocês tinham prazos com o selo porque nada estava pronto. Como foi entrar num estúdio depois de um bloqueio criativo e sair com um álbum inteiro?
Jackson: Foi incrível. A melhor sensação.
E o que teve de diferente nessas duas semanas em comparação com o processo normal?
Jackson: A gente estava num lugar e num estado mental diferentes. Muitas vezes, para a criatividade, mudar de lugar — estar em algum lugar novo — pode inspirar de maneiras novas.
Parecia que, naquelas duas semanas, a gente estava num ponto crucial: um ponto de virada por vários motivos, inclusive na nossa vida pessoal. Era como se a gente finalmente tivesse chegado à borda da piscina.
A gente tinha ficado um tempo "pisando" no trampolim… e, quando finalmente fez o álbum com o Kenny, foi como olhar para o fim da prancha e pular.
Eu sempre digo: se a gente fizesse cem sessões de duas semanas com o Kenny, eu não sei se teria de novo aquela janela específica de duas semanas que a gente teve. Foi muito especial.
O álbum foi descrito como um tributo à música de club dos anos 2000. O que vocês estavam ouvindo durante a produção? Quais eram as referências e inspirações?
Shanny: Muita coisa disso. A gente ouviu muito club music da nossa juventude — de Nelly ("Hot in Herre") até Lily Allen do começo, coisas de drum and bass, rap do Reino Unido… de tudo um pouco.
Jackson: Eu lembro que a gente viu Chase & Status numa das noites antes de entrar no estúdio, em Coachella. E é engraçado: era muita música que a gente não vinha ouvindo havia meses, mas acabou coincidindo com aquelas duas semanas. A gente ouvia OutKast também, e eu lembro de ficar dirigindo no meu carro ouvindo isso.
Chegando à parte final: vocês receberam indicações no Independent Music Awards de 2026, em três categorias. O que esse tipo de reconhecimento da indústria independente significa para vocês?
Jackson: É uma honra enorme ser reconhecido por qualquer coisa. Sai muita música todos os dias — provavelmente milhares de músicas por dia.
Então, ser indicado para qualquer coisa hoje em dia, especialmente como artista independente, é algo pelo qual você só pode ser grato — e a gente é.
É incrível. E a gente faz música há muito tempo, mesmo que a banda tenha começado agora — então nada disso passa batido. A gente lutou por muitos anos, então a gente valoriza muito isso.
E, falando do futuro: vocês conseguem imaginar o Fcukers daqui a cinco anos? Como seria?
Jackson: Maior, melhor, mais rápido, mais forte, mais pesado.
E o Fcukers começou por diversão e agora cresceu muito. Como vocês mantêm a leveza e a energia original vivas?
Jackson: Não tem mais diversão. Miserável. (Risos.)
Shanny: Brincadeira, é divertido.
E, para encerrar: depois desse tempo no Brasil, tem alguma impressão, música, experiência que vocês vão levar de volta para Nova York?
Shanny: Assistir à Copa ontem na rua foi algo que eu sempre vou lembrar.
Jackson: E eu posso estar pronunciando errado, mas… é "cassaça"?
Sim, cachaça.
Jackson: Eu quero começar a importar isso para casa.
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