Jão retoma carreira em álbum no qual enfrenta o luto pela perda do pai: 'Lido dia após dia'
Em entrevista ao 'Estadão', cantor fala sobre o novo trabalho, as canções de Cazuza que recebeu de Lucinha Araújo e o seu retorno aos palcos
"Senti saudades". Foi assim que Jão, de 31 anos, anunciou que estaria retomando a carreira, pausada nos primeiros meses de 2025. Hoje, às 21h, chegou às plataformas de streaming Memórias Póstumas, quinto trabalho do cantor e compositor nascido em Américo Brasiliense, cidade a 285 quilômetros de distância de São Paulo e que se tornou um dos fenômenos do pop nacional. O lançamento foi precedido por uma audição para fãs, às 16h, no Vale do Anhangabaú.
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Memórias Póstumas nasceu depois de uma tragédia pessoal de Jão. No dia 3 de junho de 2025, Carlos Alberto Balbino, pai do cantor, morreu de causas não reveladas (na entrevista, o cantor fala que Carlos sofreu uma arritmia). O popstar, que estava dando uma pausa estratégica na carreira, passou por um período maior de reclusão.
A importância do pai e a falta que ele faz na vida de Jão constituem o arco narrativo do novo disco. As canções Catedral e a faixa-título, que abrem e encerram o trabalho, constroem uma espécie de arco narrativo - em Memórias Póstumas e No Começo de um Amor, inclusive, escuta-se a voz de Carlos, numa gravação para o filho pouco depois de uma de suas performances. O "recheio" do álbum, por assim dizer, traz canções compostas por Jão e seu companheiro, Pedro Tófani, e fazem referência ao dia a dia do cantor e do casal. A dupla assina treze das quatorze composições de Memórias - a exceção é João, declaração de amor composta só por Tófani.
Jão é um dos produtores do trabalho, que contou ainda com Zebu, habitual colaborador do cantor, a dupla Janluska e Gabriel Duarte (que trazem no currículo uma parceria com a cantora Marina Sena) e o veterano Marco Mazzola, produtor de algumas das principais cantoras da história da MPB. Há diversas sonoridades no álbum: desde influência da música asiática (O Amor) até o rock e a sonoridade eletrônica dos anos 1980 (Jabuticabeira e Passeios Noturnos) até suavizada versão do funk carioca, expressa na canção Aurora. "Eu trago pessoas muito talentosas junto comigo que me ajudam a fazer o álbum nascer, mas eu faço muita questão de que eu seja o pai f*** dos meus filhos", diz o cantor, em entrevista ao Estadão. "Tem muita coisa do que escutei dos anos 1990, da virada para os 2000, de Marisa Monte…", enumera.
Memórias Póstumas provavelmente será acompanhado de uma megaturnê, mas por enquanto Jão tem apenas uma data confirmada: dia 25 de setembro ele retorna ao Nubank Parque (ex-Allianz Parque), onde celebrou um dos momentos mais importantes de sua carreira - a Superturnê, que passou por 16 lugares diferentes (a maioria em estádios) e atraiu um público estimado em 500 mil pessoas.
Leia abaixo a entrevista com o cantor.
Em janeiro de 2025, você anunciou que daria uma pausa na sua carreira. Por que decidiu por essa parada e como foi que se animou a retomar os trabalhos artísticos?
Fazia pelo menos uns quatro, cinco meses que eu planejava parar. Porque eu vinha trabalhando intensamente desde 2018. Com isso, fui perdendo muitas coisas - minhas avós se foram, meus pais envelheceram, minha família cresceu… Essa questão da finitude das coisas criou um conflito dentro de mim, eu estava me sentindo egoísta.
Sou uma pessoa muito generosa com coisas materiais e tudo, mas eu sou muito egoísta com os meus objetivos. E ali achei que estava sendo egoísta ao focar apenas nos meus trabalhos. Me sentia cansado, maltratado. A decisão de parar, nesse caso, foi humana e também por conta do trabalho, de exaurir ali o que eu tinha para dizer e ficar uma coisa chata. A volta foi a maior necessidade também de me movimentar e honrar assim a vida das pessoas que eu perdi.
Lembro que você mal conseguiu chegar a tempo para o velório da tua avó, como se sentiu em relação a isso?
Cheguei bem no finalzinho e eu tive que ir antes do enterro dela porque eu tinha show. Que absurdo, né? Uma coisa meio idiota. Mas, por incrível que pareça, na hora eu fiquei grato. Porque eu não ia aguentar ficar ali, não ia querer aquilo. Eu acho que eu não tinha idade, eu não tinha maturidade. Acho que a gente nunca tem essa maturidade, né? Mas ali muito menos. Acho que ia me quebrar de uma forma maior do que me quebrou. Então eu fiquei muito grato que eu tinha que voltar assim.
'Memórias Póstumas' começa com 'Catedral', canção na qual você fala do teu pai (morto em junho de 2025) e termina com a faixa-título, que também faz referências a ele. Como se deu a construção desse arco narrativo?
Ironicamente, Memórias Póstumas foi a primeira música que eu escrevi para esse disco em 2024, que foi muito antes de tudo acontecer. Ela fala sobre a importância que as coisas tinham para mim, como elas eram tão facilmente tiradas de mim. Então, nasceu como uma reflexão em relação ao que estava se passando com a minha vida. Foi muito natural, portanto, ela entrar no repertório do disco seguinte.
De quem são as risadas e os comentários que escutamos ao final de 'Memórias Póstumas'?
São do meu pai. Elas estão presentes no início de No Começo de um Amor, que foi algo que ele me disse após a apresentação no Rock in Rio ou no Nubank Parque, não me lembro muito bem. O que você escuta na canção Memórias Póstumas é a continuação desse áudio. Sabe, eu nunca mais vou ouvir essas músicas. O que me soou e é engraçado porque quando eu decidi colocar esses áudios instaurou-se um clima na produção do disco. Sempre que a gente ia mexer nessa música todo mundo falava: "Ó, fica tranquilo, a gente tirou os áudios para mexer na música, mas depois vamos recolocá-los. Porque não era exatamente muito saudável escutar a voz do meu pai. Ele era meu maior fã e maior incentivador, me ensinou muito a amar as coisas. Foi uma maneira que encontrei para honrar ele. Certamente acharia muito f*** escutar a voz dele num disco meu.
Certos letristas usam o eu lírico, outros falam através de metáforas. Mas você optou por um estilo onde compartilha o teu cotidiano com os fãs e ouvintes. Como optou por seguir essa linha de criar letras?
É natural, vai ao encontro das pessoas e das letras que eu admiro. Acho mais beleza no detalhe, no cotidiano, no dia a dia das coisas. Se estou comendo pão, falo sobre o pão, se estou bebendo leite, falo sobre o leite. Porque isso já é bonito por si só. A palavra 'pão' é bonita, a palavra 'padaria' é bonita, a palavra 'casamento' é bonita, a palavra 'nariz' é bonita. Eu não tenho o que dizer nariz falando os orifícios do meu rosto que cheiram. Amo fazer isso também, amo encontrar novas formas de falar sobre coisas cotidianas.
Mas neste álbum, especificamente, eu estava obcecado em falar as coisas como elas realmente são. O que refletiu bastante nas letras. Era um compromisso meu de poder ser honesto e cru nas letras que eu sempre deixei claro para meus fãs que eu seria e que essa seria a minha forma de me expor. Acabou acontecendo e eu respeitei que isso acontecesse.
As canções do disco foram compostas com o Pedro Tófani, teu companheiro de arte e de vida. Como isso se reflete nas letras do álbum?
O disco traz muito da nossa vida, nasceu para ser um registro da nossa vida. Não tinha como qualquer outra pessoa escrever junto com a gente, sabe? Talvez eu esteja aberto a isso no futuro, eu já colaborei com pessoas de coisas que não saíram, mas eu eu gosto do exercício de poder escrever fora dos meus álbuns, mas nesse álbum não tinha muito esse espaço. Eu então deixei que o Pedro entrasse num espaço do disco que eu não deixaria mais absolutamente ninguém permanecer. Pela nossa confiança, história, pelo quanto eu sou grato ao nosso trabalho juntos e quanto a gente se entende e quanto o que nós temos é muito raro assim.
Pedro Tófani assina sozinho 'João', que é uma canção de amor. Qual foi tua reação ao escutar a letra?
Ela foi mostrada num pedaço de papel e o que você escuta no disco sou eu tentando criar uma melodia que se encaixasse na letra. E foi isso. Nunca mais nos falamos sobre essa música. É um quase um combinado não verbal nosso de o que está ali na música, a gente conversa na música. Depois a gente não se pergunta nada sobre que eu acho que é uma maneira de preservar os nossos outros assuntos.
'Memórias Póstumas' tem sonoridades e instrumentação diferentes: de canções inspiradas na música do Oriente Médio ao mellotron, usado no rock progressivo. Como foi o processo de execução e produção e por que tantas referências?
Sinto muito prazer em fazer música: escolher o som da caixa, do mellotron... Eu gosto de desafios. Odeio produtor que fala: "Isso funciona." Janlusca e o Gabriel Duarte, entre os vários produtores que trabalharam no álbum, são zero isso. Eles super querem ir até o fim, mesmo que tenhamos feito algo mais de 200 vezes. Eu podia chegar lá e falar: "Acho que não é aqui, vamos fazer de outro jeito." E eles iam. Odeio a frase: "Ah, não, mas isso aqui funciona." Funciona, sim. Quando estiver muito bom, funciona. Tenho a sorte de trabalhar com essas pessoas que se importam absolutamente muito com tudo. Senão eu enlouqueceria.
Você tem letras inéditas de Cazuza, cedidas pela Lucinha Araújo, mãe do cantor e compositor carioca. Por que não pensou em usá-las em 'Memórias Póstumas'? Pelo fato de ser um disco muito pessoal?
Sim, com certeza foi isso. Lucinha virou uma amiga muito próxima e tenho muita sorte em ganhar essas letras. Mas eu quero fazer isso da maneira menos egóica possível. Não quero que seja um projeto que as pessoas saiam falando: "Nossa, que cantor sério, ele está cantando uma letra do Cazuza!" Cazuza criou a história dele, estou criando a minha. Se puder homenageá-lo em algum momento que a mãe dele aprove, que a família dele aprove, que seja algo no qual eu esteja 100% dentro do projeto. Mas se for algo que eu sinta que é somente para mim, já não estou tão dentro assim.
Não faria muito sentido ter um uma letra do Cazuza num álbum como esse, nem outro álbum. Mas nunca diga nunca. Só acho que no meu álbum não faz muito sentido porque são as minhas histórias e ele viveu as histórias dele. Mas se um dia isso for acontecer, eu quero que aconteça de uma maneira certa, correta e respeitosa.
Como recebeu a notícia da morte de teu pai (Carlos Alberto Balbino, que se foi no dia 4 de junho de 2025)?
Foi num dia idiota, uma terça-feira meio dia, de sol, sem nenhum sinal, nenhum aviso. Nem o café estava amargo. Simplesmente aconteceu. Meu irmão me ligou e até hoje estou lidando com esse rasgo, essa ruptura. Meu pai teve uma arritmia e… é bem complicado porque a gente não sabe tudo. É um assunto muito delicado para todos nós.
Como está lidando com isso?
Estou lidando dia após dia, é um trato que fiz comigo. Quando comecei a pensar no que ia ter adiante - minha casa ficar pronta, eu ter filhos, fazer o show de 30 anos da minha carreira, isso tudo começou a me destruir assim. Porque ele não estaria aqui para presenciar isso. Então eu comecei a lidar com o dia. E acho que esse álbum foi muito importante para mim nesse sentido, assim, eu tinha o meu álbum para fazer e criava uma rotina para mim.
Por outro lado, tenho uma sensação de isolamento. Eu não consigo ajudar minha mãe, porque ela perdeu o marido dela e o melhor amigo dela. E ela não consegue me ajudar, porque eu perdi meu pai. É bastante confuso. Comecei a lidar mais intencionalmente com o que eu estava sentindo bem tarde. fui ajudar minha mãe com as coisas burocráticas e da casa, algo que nunca tinha feito. Estou meio reorganizando ainda de quem eu sou nesse lugar.
Durante o teu período de recolhimento, você foi fotografado barbudo, sem se preocupar muito com o que estava vestindo. Se sentiu invadido?
Eu acho que a coisa que eu mais senti foi que sentiram pena de mim. Não gosto que sintam dó de mim, tenho pavor disso. Sei lá, deve ser algum lugar da infância que eu tive que provar minha coragem, que eu conseguia fazer as coisas, então odeio que tenham pena de mim. E quando essas fotos saíram, eu evitei ler qualquer coisa sobre isso, ou sobre as pessoas falando: "Tadinho!" Foi extremamente desagradável. E tinha mais coisas para me preocupar do que com meu cabelo.
Em 'João', a letra de Pedro Tófani fala em filhos. Você pensa em ser pai?
Não, não. Por um tempo eu fiquei obcecado com isso, de continuar meu legado. Mas seria injusto ter um filho por por essas razões assim. Engraçado porque desde a adolescência fui obcecado em ser pai. O que é uma ideia muito estúpida porque eu não tinha recurso algum para ter um filho, ainda mais sendo jovem como eu era. Hoje tenho menos vontade.
Você avisou aos teus fãs, em doses homeopáticas, que estaria voltando. 'Memórias Póstumas' sai hoje, mas quando você mata as saudades do palco?
Dia 25 de setembro no Nubank Parque, em São Paulo. Teremos um palco de 360 graus no meio do estádio, que era uma coisa que eu queria muito fazer desde a turnê passada. É um novo desafio para mim. Queria me sentir desafiado pelo show e entregar ele de uma forma diferente do que a gente tinha feito antes. Então, estou me esforçando para isso.
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