Tico Santa Cruz: 'Roqueiros envelheceram e agora repetem preconceitos que sofreram no passado'
Líder do Detonautas fala sobre o espaço no rock da atualidade, relação com bandas mais antigas do rock brasileiro e saúde mental. 'Saí do debate público porque estava me fazendo mal', diz ao 'Estadão'
Tico Santa Cruz fala com propriedade sobre rock. Escuta o gênero desde a infância - com músicas de grupos brasileiros, vale dizer - e, agora, pode dizer que é fundador de uma das bandas que moldaram o rock brasileiro, o Detonautas Roque Clube.
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Em 2026, o músico ainda tem mais uma conquista: tocar com quem lhe ensinou a gostar de rock. No dia 4 de setembro, o Detonautas divide o Palco Sunset do Rock in Rio com o Biquini. A data, comandada pelo Foo Fighters, é uma das dedicadas ao rock na edição do festival.
Recentemente, porém, o Detonautas foi beber de outras fontes além do gênero. O álbum Rádio Love Nacional, lançado em março, tem inspirações que vão do brega ao trap. É uma forma de se aproximar da nova geração, segundo ele.
Tico tem receio de que os mais jovens comecem a enxergar o rock como "coisa de tiozão". "O rock sempre foi libertário e contestador contra comportamentos conservadores. No entanto, muitos roqueiros envelheceram e se tornaram pessoas que apontam o dedo para a nova geração, repetindo os mesmos preconceitos que sofreram no passado", diz ele, em entrevista ao Estadão.
Rádio Love Nacional, como o penúltimo álbum do Detonautas, Esperança, também se afastou do tom político incisivo do Álbum Laranja, de 2021. Tico ficou marcado pelo debate sobre suas opiniões políticas, mas descobriu que o esforço, na verdade, estava prejudicando sua saúde mental.
"Recentemente, identifiquei pontos internos negligenciados porque eu estava focado em brigas na internet. Desfoquei da minha família, da banda e do meu trabalho", afirma o vocalista, que fala abertamente sobre seu tratamento contra a ansiedade, que inclui terapia, uso de canabidiol e a prática da Meditação Transcendental duas vezes por dia.
Para celebrar o Dia do Rock nesta segunda-feira, 13, o Estadão falou com Tico para entender o lugar e o futuro do gênero. A conversa também rendeu reflexões sobre as expectativas para o Rock in Rio e saúde mental. A entrevista foi editada e condensada para melhor compreensão.
O show do Detonautas no Rock in Rio será com o Biquini. Como vê essa relação entre bandas que moldaram o rock nacional à sua maneira, especialmente entre as mais antigas e as mais novas?
Particularmente - e o Detonautas também tem essa relação -, meu contato com o rock foi pelas bandas brasileiras. Minha infância nos anos 1980 foi permeada pela geração do rock brasileiro daquela década. Essas bandas moldaram minha visão de música e de mundo, me acompanhando até o Detonautas se tornar conhecido e passarmos a compartilhar palcos em festivais. É gratificante olhar para trás e ver que aquele menino que ouvia rock hoje faz parte de uma banda que divide o palco com quem ensinou a gostar do gênero. Ficamos entusiasmados em somar forças com eles. O universo do rock brasileiro é muito variado, e o Biquini é uma banda que merece todos os espaços que conquistou, se mantendo relevante até hoje.
Como honrar os dois repertórios?
A direção do show é do Zé Ricardo [curador do Rock in Rio]. O Detonautas já teve a oportunidade de dividir o palco no festival com o Pavilhão 9 e com o Vitor Kley, então estamos familiarizados com esse formato de show com convidados. Geralmente, começamos com o repertório do Detonautas, o convidado entra para tocar três ou quatro músicas e depois seguimos para encerrar. Como são 60 minutos de show, o foco são os hits, as músicas mais famosas para o público cantar e se divertir, sem tentar inventar a roda.
Para uma banda consagrada como o Detonautas, tocar em um festival como o Rock in Rio ainda faz diferença na carreira? Por quê?
Todos os festivais fazem diferença porque nos permitem contato com públicos que talvez não fossem assistir ao Detonautas em outra situação. O festival é uma oportunidade para todos os artistas apresentarem sua música para pessoas que, por vezes, têm algum preconceito ou dizem não conhecer o trabalho. Ao sentir a energia e a vibração do show ao vivo, muitos passam a gostar e acompanhar a banda. O Rock in Rio especificamente é um festival internacional que movimenta economia, imprensa e pessoas de todos os lugares. Em todas as edições que participamos, colhemos frutos positivos. Tivemos experiências incríveis, como o tributo ao Raul Seixas em 2013 e a nossa estreia no Palco Mundo em 2011, quando fomos a primeira banda independente a subir naquele palco.
O álbum 'Rádio Love Nacional', lançado recentemente, traz uma mistura de estilos. Por que o Detonautas escolheu lançar agora um trabalho que não é necessariamente de rock?
Lançamos o Acústico em 2023 e tivemos muito sucesso, o que nos abriu as portas dos teatros. Pensamos em fazer um álbum de regravações de artistas que admiramos para ter um show paralelo ao show "elétrico" de estrada. Gravamos versões de Chico Science, Frejat, Leandro & Leonardo e outros. Quando apresentamos o projeto ao Rafael Ramos, da Deck Disc, ele achou legal, mas disse que esperava algo original do Detonautas. Eu tinha uma música guardada chamada Potinho de Veneno, feita com o Pablo Bispo e o Ruxell [produtores]. O Rafael ficou entusiasmado e pediu mais músicas naquela linha. Como não tínhamos outras inéditas, entramos em estúdio buscando referências da música popular brasileira, como o brega funk do Pará, o tecnobrega e o brega clássico de artistas como Reginaldo Rossi e Waldick Soriano, transformando isso na nossa linguagem. O disco tem pop, trap com metal e baladas. O objetivo foi dialogar com a nova geração. Negligenciar o público jovem é ignorar a renovação. Tem funcionado muito bem. Muitas crianças e adolescentes têm aparecido nos shows, especialmente por causa da música Vampira, que tem um lado lúdico. O disco mantém o DNA do Detonautas, sendo um pop rock brasileiro muito bem feito.
E o que você escuta hoje em dia?
Escuto de tudo. Para fazer este disco, ouvi muitas bandas indie que eu não explorava tanto, como Alvvays e The War on Drugs. Busquei fugir do meu algoritmo, que costuma sugerir Queens of the Stone Age, Alice in Chains e System of a Down. Ouvi The Killers, Kings of Leon, Black Keys e Florence + The Machine. Bebi muito dessa fonte que eu meio que desprezei em outra fase da vida, o que ajudou a conectar com a linguagem do Rádio Love Nacional.
Esse desprezo vinha por ser algo 'pop demais' ou era outra coisa?
Eu sou da geração dos anos 1990, fui grunge e ouvia sons mais pesados. O Detonautas no início misturava um pouco de hardcore e referências diferentes, então eu não tinha tanto interesse no indie. Comecei a me abrir para esse universo quando fui ao Coachella anos atrás e vi o Kings of Leon e o Black Keys ao vivo. Tive uma certa dificuldade com o indie porque ele foge dos ícones e é mais introspectivo, focado apenas na música. Eu vim de uma geração de atitude no palco, de figuras icônicas como Kurt Cobain, Axl Rose ou Liam Gallagher. Minha falta de interesse talvez fosse por estar mais conectado ao comportamento do que propriamente à música na época. Quando juntei as duas coisas, funcionou bem para mim.
Hoje vemos que a postura política ficou mais forte em gêneros como o rap. Em 2021, você disse, em entrevista ao 'Estadão', que sentia o rock desconectado da realidade. Ainda sente o mesmo? Como vê o futuro do rock?
Vejo um movimento muito forte no midstream, com bandas femininas quebrando o paradigma de que o rock é um ambiente apenas masculino. Posso citar Crypta, Eskröta, Drenna e Canto Cego, da Maré. São mulheres ocupando o protagonismo. Também vejo bandas como Black Pantera com discursos sociais e políticos muito contundentes. Há uma diferença entre o rock como estilo e o roqueiro. O rock sempre foi libertário e contestador contra comportamentos conservadores. No entanto, muitos roqueiros envelheceram e se tornaram pessoas que apontam o dedo para a nova geração, repetindo os mesmos preconceitos que sofreram no passado. É contraditório ver bandas como Planet Hemp ou Titãs serem rechaçadas nas redes sociais pelos próprios roqueiros por terem opiniões sobre algum tema polêmico. Tenho receio de que isso faça os jovens verem o rock como "coisa de tiozão". Precisamos validar a nova geração, caso contrário o rock ficará restrito a ambientes pequenos e elitistas, como aconteceu com o blues e o jazz.
O Detonautas nunca fugiu dessas questões políticas, como no 'Álbum Laranja', mas nos trabalhos recentes as letras estão mais leves politicamente. Foi uma escolha proposital?
Entendemos que já havíamos falado bastante sobre o assunto e nosso posicionamento estava claro. Além disso, agora há outros artistas dialogando sobre esses temas. Por uma questão de saúde mental, saí do debate público porque estava me fazendo mal. O debate atual tornou-se tóxico. Não é um diálogo, é uma guerra onde todos gritam e ninguém se ouve. Saí desse lugar por sanidade, o que abriu espaço para criar o Rádio Love Nacional. Passei por fases complicadas de ansiedade. Todo mundo já sabe o que penso, então me dei o direito de explorar outros universos. Isso também permite que as pessoas voltem a escutar a banda, já que muitas haviam parado por causa das minhas opiniões particulares. Fizemos um álbum mais leve porque estamos mais leves internamente.
Por que você acha que houve esse afastamento de parte do público?
Acredito que foi uma questão de algoritmo, que joga as pessoas em mundos que não dialogam. Muitas pessoas cansaram desse confronto de polarização extrema. O algoritmo constrói uma realidade paralela, alimentando o indivíduo apenas com o que ele acredita e afastando-o do contraditório. Isso cria um ambiente desconexo e doentio. Eu também estava adoecido de alguma maneira. Afastar-se um pouco dá a chance de refletir e rever a forma de comunicação. Atualmente, há muita gente machucada e adoecida por causa de brigas em redes sociais com amigos e familiares.
Aproveitando o gancho da saúde mental, você postou recentemente que estava passando por um momento complicado. Como você está e o que tem feito para se curar?
Faço terapia há muitos anos, o que me ajudou a não surtar. Recentemente, identifiquei pontos internos negligenciados porque eu estava focado em brigas na internet. Desfoquei da minha família, da banda e do meu trabalho. Quando percebi, vi que minha "casa interna" estava cheia de vazamentos e buracos. Tentar consertar tudo de uma vez me sobrecarregou e comecei a ter crises de ansiedade severas, com sintomas como dormência na língua, palpitação e falta de ar, inclusive antes de entrar no palco. Procurei alternativas para me tratar: aumentei a frequência da psicanálise, aprendi a técnica da Meditação Transcendental e a pratico duas vezes ao dia. Também busco tratamentos com canabidiol e outras substâncias da medicina alternativa com acompanhamento médico. Meu psiquiatra explicou que, por anos, cuidei apenas dos sintomas, mas que agora preciso curar a doença, que é o transtorno de ansiedade. Quando voltei a olhar para dentro e consertar o que estava errado, as coisas voltaram a acontecer positivamente para o Detonautas.
É difícil ver homens, especialmente no rock, falando abertamente sobre saúde mental. Por que você decidiu falar sobre isso? Foi difícil no começo?
Eu faço terapia desde os 23 anos e hoje tenho 48, então o ambiente terapêutico sempre foi natural para mim. Fiquei surpreso ao perceber que, para muitos homens, falar sobre saúde mental ainda é um tabu. Muitos não percebem que o processo terapêutico é fundamental para nos entendermos como seres vulneráveis e lidarmos com disfuncionalidades familiares e domésticas. É assustador sugerir terapia para alguns homens e ver que eles nunca sequer pensaram nisso. O Detonautas sempre tocou nesse assunto. Em 2017 lançamos Ilumina o Mundo em parceria com o CVV [Centro de Valorização da Vida]. A saúde mental tornou-se uma pandemia e o assunto é fundamental. Muitos homens me param após os shows dizendo que minhas falas os ajudaram a buscar terapia. Não sou um missionário, apenas compartilho minhas experiências pessoais. Se eu não falar claramente sobre meus sintomas de ansiedade, as pessoas podem estar doentes sem perceber. Compartilhar experiências é mais eficiente do que dizer o que os outros devem fazer.
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