Rock in Rio Tem Maroon 5, Demi, João Gomes e Grandes Encontros
Sexto dia teve ainda J Balvin, Mumford & Sons, Gilsons com Daniela Mercury e Olodum, Priscila Senna, Timbalada e Alok madrugada adentro
O sexto dia do Rock in Rio 2026 destacou a força da música brasileira em meio a astros globais. Enquanto Maroon 5 fechou a noite com sucessos previsíveis e Mumford & Sons apostou na intimidade, atrações internacionais como Demi Lovato e J Balvin ganharam novo fôlego ao receber ícones locais, como Pabllo Vittar e Pedro Sampaio. Já apresentações marcantes de João Gomes, Gilsons, Daniela Mercury e Timbalada provaram que os momentos mais potentes e singulares do sábado nasceram da celebração da cultura nacional.
Rock in Rio 2026 chegou ao sexto dia, sábado, 12 de setembro, com uma programação que parecia construída sobre contrastes. Maroon 5, Demi Lovato e J Balvin ocupavam três dos quatro horários do Palco Mundo, enquanto o restante da Cidade do Rock espalhava forró, brega, samba-reggae, rap, jazz, música instrumental, folk e eletrônico por estruturas de tamanhos muito diferentes. O que poderia virar um sábado de hits internacionais terminou mostrando justamente o contrário: boa parte das imagens mais fortes nasceu quando a música brasileira tomou espaço, puxou cortejos, convocou convidados e transformou shows em encontros.
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O público também se comportou de outra maneira depois da intensidade quase concentrada do dia de K-pop. Na sexta, milhares de pessoas passaram horas diante do Mundo esperando Stray Kids. No sábado, a circulação voltou a ser parte importante da experiência. Havia motivos para percorrer a Cidade do Rock, e alguns deles estavam longe dos maiores telões. Priscila Senna encheu o Favela com sofrência pernambucana, Milo J estreou no Brasil diante de fãs que conheciam suas músicas, Timbalada fez Carnaval fora de época e o Sunset passou o dia conectando São Paulo, Cabo Verde, Bahia, Pernambuco e Inglaterra.
O sexto dia também teve algo que esta edição vem repetindo com frequência: artistas brasileiros utilizando seus horários como oportunidade para criar apresentações que só fariam sentido ali. Enquanto parte dos estrangeiros chegou com versões bastante próximas de suas turnês regulares, nomes como Pedro Sampaio, João Gomes e Gilsons construíram momentos ligados diretamente ao tamanho e ao simbolismo do Rock in Rio. A diferença ficou visível na resposta da plateia.
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Pedro Sampaio Abriu o Mundo Como Quem Abre um Baile
Às 16h40, Pedro Sampaio recebeu o primeiro horário do Palco Mundo e não tentou suavizar o funk para caber nele. "Sequência Feiticeira", "PocPoc", "No Chão Novinha", "Galopa", "Joga pra Lua", "Perversa" e outras faixas apareceram dentro de um set rápido, apoiado por LEDs, dança e uma quantidade enorme de leques se movimentando diante do palco. O público ainda estava chegando, mas quem já havia entrado encontrou um show disposto a transformar a abertura da tarde em pista.
O momento que melhor resumiu essa proposta veio com "Cavalinho". Pedro comandou a plateia para correr de um lado para o outro seguindo a coreografia e produziu uma cena difícil de criar em qualquer espaço menor. A graça estava justamente em utilizar o tamanho do Mundo para uma brincadeira que depende de milhares de corpos respondendo ao mesmo comando. O DJ também passou por "Aquele Abraço", de Gilberto Gil, e recebeu Irmãs de Pau, Tasha Kaiala e Clementaum em "Sequência Cunt", aproximando diferentes recortes da música e da cultura queer brasileira dentro de um horário tradicionalmente ingrato.
Nem tudo teve o mesmo impacto. A quantidade de músicas, samples e trechos faz algumas passagens parecerem apressadas, e o show trabalha mais pela acumulação do que pelo desenvolvimento de cada faixa. Em compensação, Pedro entende muito bem quando precisa interromper a sequência para criar uma imagem coletiva. O resultado foi uma abertura que estabeleceu desde cedo uma regra para o sábado: o público não precisaria esperar a noite para encontrar um grande momento.
J Balvin Trouxe o Reggaeton, Mas Foi o Brasil Que Deu Outra Cara ao Show
J Balvin entrou às 19h com "Mi Gente", escolha que resolve rapidamente qualquer dúvida sobre reconhecimento. Depois vieram faixas como "Bola Rebola", "Loco Contigo" e "Con Altura", além de um bloco voltado à história do reggaeton. O colombiano trabalha naturalmente com grandes refrões e batidas que funcionam em festivais, mas a apresentação ganhou personalidade justamente quando deixou de parecer uma coleção internacional de sucessos e começou a dialogar diretamente com quem estava na frente dele.
Pedro Sampaio voltou ao Mundo para "Perversa", agora como convidado, poucas horas depois de abrir o palco. Mais tarde, Melody surgiu de surpresa para "Jetski". Os bailarinos ainda utilizaram cores brasileiras e o funk apareceu como referência recorrente dentro de um show que aproximava Medellín e Rio sem tentar apagar as diferenças entre os dois universos. As participações fizeram bem porque quebraram trechos em que o excesso de playback e algumas homenagens ao reggaeton antigo deixavam a apresentação mais distante da plateia.
J Balvin sabe envolver multidões, mas aquele show cresceu quando ganhou interlocutores. O público respondia aos sucessos internacionais, porém reagia de outra forma quando reconhecia artistas e ritmos locais. Essa diferença diz bastante sobre um dia em que os melhores encontros não foram simples participações promocionais: eles mudaram a temperatura das apresentações.
O Sunset Saiu de São Paulo, Passou pela Bahia e Terminou em Pernambuco Antes de Chegar à Inglaterra
A programação do Palco Sunset talvez tenha produzido a narrativa musical mais rica do sábado. Criolo abriu o espaço ao lado de Amaro Freitas e Dino D'Santiago, unindo rap, jazz, música cabo-verdiana e uma leitura ampla da diáspora africana. "Não Existe Amor em SP" apareceu dentro de uma apresentação que carregava também referências a Milton Nascimento, frevo e diferentes tradições negras, estabelecendo desde cedo uma identidade que o palco desenvolveria pelo restante do dia.
Pouco depois, Gilsons recebeu Daniela Mercury e Olodum. José, Francisco e João Gil começaram com material próprio, em um trecho mais contido, até os tambores do Olodum modificarem completamente o ambiente. "Nossa Gente (Avisa Lá)" abriu espaço para uma sequência em que Daniela entrou com "Nobre Vagabundo", passou por "Swing da Cor", "Devagarinho", "A Cor da Cidade" e dividiu "Faraó" com os anfitriões. A partir da entrada dela, o show cresceu em dimensão e assumiu definitivamente a lógica de trio elétrico.
O encontro ainda teve uma homenagem a Preta Gil em "Minha Flor" e uma intervenção visual em defesa da democracia, com um cavalo negro percorrendo o palco enquanto notas cenográficas eram distribuídas. O conceito deu muito porque estava inserido numa apresentação já comprometida com ancestralidade, samba-reggae e cultura baiana, embora a força de Daniela em alguns trechos tenha colocado Gilsons quase na posição de convidados do próprio show. Esse desequilíbrio não diminuiu o impacto, mas mostrou o quanto é difícil dividir espaço com alguém que domina um palco desse tamanho há mais de três décadas.
Se aquele bloco levou Salvador ao Sunset, João Gomes trouxe Pernambuco inteiro.
João Gomes Não Esperou o Show Começar para Tomar a Cidade do Rock
Antes mesmo das 20h10, João Gomes já estava trabalhando fora do palco. Enquanto J Balvin ainda tocava no Mundo, um cortejo inspirado no Carnaval pernambucano passou pela Cidade do Rock com frevo, maracatu, estandartes, pernas de pau e bonecos gigantes representando nomes como Luiz Gonzaga e Chico Science, além de figuras tradicionais como o Homem da Meia-Noite. A ideia projetava o Galo da Madrugada para dentro do festival e fazia do deslocamento do público parte do espetáculo.
Quando João finalmente chegou ao Sunset, "Eu Tenho a Senha" ganhou uma abertura com guitarra e uma formação ampliada pela Orquestra Brasileira, misturando violinos, violas, flautas e violoncelos a pífanos, percussão e outras referências nordestinas. "Dengo" e "Deusa de Itamaracá" apareceram dentro de uma apresentação espetacular que não tratava tradição como um simples cenário. O repertório e os arranjos colocavam forró, piseiro, frevo e maracatu dentro do mesmo desenho.
Mestrinho surgiu como uma das participações mais afetivas da noite e encontrou João visivelmente emocionado. O sanfoneiro funciona como ligação direta com uma tradição que o cantor pernambucano vem carregando para públicos cada vez maiores, e sua presença reforçou o que já estava acontecendo desde o cortejo: aquele show queria colocar Pernambuco no centro da Cidade do Rock, sem reduzir a cultura local a meia dúzia de símbolos decorativos.
Foi um dos grandes shows do sexto dia porque trabalhou escala sem perder origem. João Gomes já havia passado pelo Rock in Rio em outra posição, mas em 2026 encontrou um Sunset capaz de receber um projeto maior e respondeu com uma apresentação construída para aquele espaço. Se houver uma discussão futura sobre artistas brasileiros que já comportam estruturas ainda maiores, seu nome entra facilmente nela.
Priscila Senna e Timbalada Mostraram Que o Favela Também Tinha Seu Próprio Brasil
Quem percorreu o festival até o Espaço Favela encontrou outra rota musical. Priscila Senna levou o brega pernambucano para um horário das 16h50 e transformou sofrência em dança de casal. "Não Me Faça Chorar", adaptação de "When I Was Your Man", de Bruno Mars, apareceu ao lado de "Novo Namorado", "Alvejante" e "Cachorro Combina com Cadela", enquanto bandeiras de Pernambuco surgiam diante do palco.
A cantora também recuperou referências que ajudaram a construir o gênero, passando por "Doce Mel", da Banda Calypso, e por um bloco dedicado a Reginaldo Rossi, com "Leviana" e "Garçom". A escolha mostrou por que aquele show ia além de uma estreia individual. Priscila estava colocando dentro do Rock in Rio uma linhagem de música popular que durante décadas foi tratada com condescendência por parte da indústria e hoje reúne multidões sem precisar da validação de outros gêneros.
Mais tarde, Timbalada levou o mesmo espaço para a Bahia com timbaus, capoeira e clima de Carnaval. "Beija-Flor", "Água Mineral" e "Na Ilha Grande" dividiram o set com homenagens a Carlinhos Brown e versões que iam de Seu Jorge a Queen e Guns N' Roses. A versão percussiva de "Sweet Child O' Mine" era quase uma piada perfeita para o Rock in Rio: um clássico do hard rock transformado pela percussão baiana dentro do palco que talvez melhor represente a diversidade musical da cidade real.
Demi Lovato Encontrou Uma das Plateias Mais Cheias da Edição e Guardou Pabllo para o Final
Às 21h20, Demi Lovato entrou diante de uma área do Mundo completamente tomada. Sua terceira passagem pelo Rock in Rio chegou com a turnê "It's Not That Deep" e um repertório capaz de saltar entre fases diferentes sem perder a plateia. "Heart Attack", "Confident", "Sorry Not Sorry" e outros sucessos receberam coros enormes, enquanto a cantora voltou a mostrar uma voz muito mais forte do que a produção relativamente simples ao redor dela fazia supor.
Demi não levou banda para o palco, decisão que deixa parte do show dependente de bases e reduz algumas possibilidades instrumentais. Em compensação, trabalhou corpo, dança e voz com bastante segurança, ocupando passarela e diferentes áreas sem permitir que o tamanho do Mundo a engolisse. O espetáculo tinha menos cenografia do que vários shows anteriores da edição, e talvez justamente por isso a voz ganhasse tanta evidência.
O grande momento veio no encerramento. Pabllo Vittar apareceu para dividir a canção "Cool for the Summer", colocando uma artista brasileira dentro de um dos maiores hits da carreira de Demi. A combinação foi perfeita. A voz e presença de Pabllo mudaram a energia da música e fizeram a última faixa soar como um encerramento específico do Rio, em vez de repetição da turnê.
Foi também um dos melhores exemplos do tema que marcou todo o sábado. Outra estrela internacional havia chegado com seu repertório próprio e encontrado no Brasil a participação que transformaria o trecho mais lembrado do show.
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Mumford & Sons Escolheu a Intimidade Enquanto o Público Começava a Caminhar para o Mundo
No Sunset, Mumford & Sons apareceu às 22h45 em uma situação ingrata. Demi já havia terminado, o Maroon 5 começaria à 0h05 e parte do público iniciava lentamente o deslocamento para o Mundo. Ainda assim, uma plateia fiel permaneceu sob chuva fina para ouvir um show que funcionava pela dinâmica oposta à maior parte do sábado. Banjo, violão, piano, violoncelo e a voz de Marcus Mumford substituíram pirotecnia por construção gradual.
"Little Lion Man", "White Blank Page", "Rushmere" e "I Will Wait" encontraram os maiores coros, especialmente entre casais e fãs que acompanhavam a banda há mais de uma década. O público não era dos maiores do dia e foi diminuindo na reta final à medida que Maroon 5 se aproximava, mas isso acabou combinando com uma apresentação que parecia mais confortável quando podia trabalhar silêncio e crescimento instrumental.
É um bom exemplo de como qualidade e quantidade de público continuam sendo coisas diferentes dentro de um festival. O show estava longe de vazio, porém nunca teve a massa reunida por João Gomes horas antes no mesmo palco. Mumford & Sons entregou uma apresentação sólida; apenas caiu num horário em que precisava disputar diretamente com um dos headliners mais populares da edição.
Maroon 5 Fechou a Noite sem Inventar Nada e Quase Ninguém Parecia se Importar
À 0h05, Maroon 5 assumiu o Mundo para seu 28º show no Brasil. Adam Levine e companhia não chegaram ao Rock in Rio carregando alguma transformação radical de repertório ou uma produção desenhada especificamente para a Cidade do Rock. O set estava muito próximo daquele apresentado nas outras datas brasileiras da turnê e privilegiava justamente o catálogo que tornou a banda uma presença constante nas rádios desde o começo dos anos 2000.
"This Love", "She Will Be Loved", "Sugar" e "Moves Like Jagger" pertencem a fases diferentes do grupo, mas compartilham uma característica decisiva num festival: milhares de pessoas sabem cantar. O show trabalha essa memória quase sem resistência. Adam aponta o microfone, o público completa; a guitarra começa uma introdução, a reação vem antes da primeira frase; uma música termina e outra conhecida começa poucos segundos depois.
Esse mecanismo também revela a principal limitação da apresentação. Há pouco risco. O álbum mais recente, "Love Is Like", apareceu discretamente, enquanto os arranjos e a estrutura visual pouco se afastavam do que a banda já vinha fazendo. Num festival em que vários artistas brasileiros criaram shows pensados especificamente para aquela data, Maroon 5 fechou a noite fazendo exatamente aquilo que sempre faz.
Só que essa previsibilidade possui outro lado. Depois de quase dez horas de programação, existe um prazer específico em ouvir uma sequência de músicas que dispensam descoberta. A banda parece conhecer muito bem sua relação com o Brasil e não luta contra ela. Adam Levine falou sobre o carinho pelo país, brincou com a plateia e deixou os grandes refrões carregarem boa parte dos 1h45 de apresentação.
O Maroon 5 não entregou o show mais inventivo do sábado, mas apresentou um dos mais fáceis de cantar. Naquele horário, para boa parte da Cidade do Rock, isso bastava.
Os Outros Palcos Continuaram Produzindo Histórias Enquanto Todo Mundo Olhava para o Mundo
O Supernova também teve uma das estreias internacionais mais curiosas do dia. Aos 19 anos, o argentino Milo J começou diante de uma plateia pequena e viu o espaço crescer ao longo do show. "Bajo de la Piel", "Hmmm", "Luciérnagas" e "Rara Vez" mostraram um artista que cruza trap com elementos da música tradicional argentina e conseguiu transformar sua primeira apresentação brasileira num encontro com fãs que já conheciam cada verso.
No Global Village, Badi Assad, Hamilton de Holanda e Mestrinho mantiveram outra frente de música brasileira baseada muito mais no instrumento do que no gigantismo visual. Depois que Maroon 5 terminou, o New Dance Order ainda guardava uma segunda versão de Alok para o festival. O projeto "Rave The World" assumiu uma lógica bastante diferente do "Keep Art Human" apresentado no Mundo na noite anterior: menos roteiro visual, maior liberdade para alterar a seleção e um set construído em resposta à pista.
Esse tipo de simultaneidade talvez seja o que melhor define o sábado. Enquanto dezenas de milhares de pessoas cantavam hits globais no Mundo, outras estavam vendo um argentino de 19 anos estrear no Brasil, ouvindo sanfona, entrando numa roda de percussão baiana ou dançando eletrônico depois da 1h. O sexto dia reuniu várias identidades disputando espaço, e isso funcionou a seu favor.
Gilsons, Daniela Mercury & Olodum | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DiegoPadilha)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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