Os Garotin e Duquesa Fazem Baile de Gala no Rock in Rio 2026
Trio levou sucessos de diferentes fases ao Sunset e recebeu Duquesa para "Big D", "Voo 1360" e "Queda Livre"
No Rock in Rio 2026, o trio fluminense Os Garotin transformou o Palco Sunset em um vibrante baile de gala, mesclando soul, funk, R&B e MPB com estética refinada. Acompanhados por dez músicos e com forte presença cênica, superaram oscilações iniciais de som e empolgaram o público com sucessos próprios. O show ganhou ainda mais força com a participação precisa da rapper Duquesa, coroando a apresentação que foi eleita pelos leitores da Billboard Brasil como a melhor do palco naquele dia.
Os Garotin chegaram ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 às 17h50 de sexta-feira, 11 de setembro, num horário em que boa parte da Cidade do Rock ainda estava absorvida pela programação de K-pop no Palco Mundo. O trio de São Gonçalo precisava disputar atenção com um público jovem que passaria horas guardando posição para Hwasa, Alok e Stray Kids, mas respondeu montando um ambiente próprio. Anchietx, Cupertino e Léo Guima apareceram de óculos escuros e alfaiataria brilhante, diante de uma banda de dez músicos e de uma escadaria coberta por glitter prateado. Nos telões, estruturas douradas completavam uma composição que transformava o Sunset numa mistura de baile black, salão de gala e festa gonçalense.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @terrasonora
A escolha visual dizia bastante sobre o momento do trio. Os Garotin poderiam subir ao palco apenas sustentados pelo discurso da "nova música brasileira", rótulo que costuma servir para colocar artistas muito diferentes dentro do mesmo pacote. Preferiram mostrar com clareza de onde vêm musicalmente. Soul, funk, R&B, MPB e referências de baile conviviam desde a abertura com "Garota", seguida por "Hoje Eu Vou Me Dar Bem", "Fantástica", "Curva Escura" e "Estranha Vontade Louca". O figurino dava acabamento à festa sem engessar os três, que dançavam, trocavam posições e assumiam os vocais de acordo com a personalidade de cada faixa.
O começo teve um pequeno problema de equilíbrio entre vozes e instrumental. Num grupo formado por três cantores com timbres e maneiras muito próprias de frasear, perder parte dessa definição compromete justamente uma de suas melhores qualidades. O ajuste veio ainda na primeira parte e, quando o som assentou, ficou mais fácil perceber o trabalho vocal que sustenta Os Garotin para além do groove. A banda grande também passou a trabalhar a favor deles, acrescentando metais, baixo e bateria sem transformar os arranjos numa massa excessiva.
Ivete Sangalo | Raízes latinas e Trono Assegurado no Palco Mundo no Rock in Rio 2026
Rock in Rio 2026 | Pará faz História com Joelma e Viviane Batidão Incendiando o Palco Sunset
O Sunset Ganhou Cara de Baile Porque Os Garotin Souberam Dançar Dentro das Próprias Referências
O grande mérito da apresentação foi entender que tocar soul e R&B num festival exige mais do que reproduzir bons arranjos. Essas músicas pedem movimento, troca entre músicos e alguma sensação de festa acontecendo no instante. Os Garotin incorporaram esse princípio ao show inteiro. Em vez de apresentar uma faixa, parar, conversar e iniciar outra do zero, o trio manteve uma pulsação que fazia os diferentes momentos parecerem partes da mesma noite.
Esse comportamento aparece de maneira muito clara em "Calor do Momento", "Se Joga" e "Nossa Resenha". São músicas que ocupam regiões diferentes do repertório, mas funcionam ao vivo porque os três sabem alternar protagonismo. Quando um assume a frente, os outros continuam movimentando palco, backing vocals e respostas. Essa divisão evita que a apresentação dependa de uma única figura central e reforça o que torna o grupo tão bom ao vivo: Os Garotin funcionam como trio de verdade.
"Nossa Resenha" carrega ainda a memória da gravação com Caetano Veloso e uma forte relação com o Rio de Janeiro. A faixa fala de circulação pela cidade, Lapa, samba, funk e encontros, referências que ganham outra leitura quando cantadas por três artistas de São Gonçalo diante de um dos maiores festivais do país. O salto de escala não exige que eles apaguem a origem suburbana para parecer maiores. O Sunset fica grande justamente porque aquela identidade chega intacta.
O palco também recebeu um tratamento muito diferente da informalidade que costuma acompanhar a ideia de "baile". A alfaiataria com brilho, os óculos escuros, a escada prateada e as projeções douradas conferiam solenidade sem eliminar o balanço. Era como se o trio tivesse levado a elegância dos antigos bailes black para um espaço de festival, mantendo no corpo a descontração que impede o conceito de virar fantasia de época.
Duquesa Chegou sem Precisar se Adaptar ao Baile
Quando Duquesa apareceu, cerca de vinte minutos depois do começo, a apresentação ganhou outra força. A rapper entrou primeiro para "Big D!!!!!" e depois seguiu com "Voo 1360", ocupando o palco sem alterar completamente a banda ou forçar Os Garotin a assumir uma linguagem que não lhes pertence. A escolha foi inteligente porque permitiu que o show abrisse espaço para o universo dela em vez de colocar a convidada apenas cantando versos dentro de músicas do trio.
Duquesa trabalha com uma presença muito mais frontal. Enquanto Anchietx, Cupertino e Léo Guima distribuem o protagonismo e constroem boa parte do charme da apresentação pela troca entre os três, ela entra com uma postura concentrada, rima precisa e maior agressividade na emissão. Esse contraste altera o baile sem desmontá-lo. O público percebe a mudança imediatamente, e as duas músicas funcionam como um pequeno bloco dentro da apresentação.
A participação também deixa uma sensação de que poderia durar mais. Depois de "Voo 1360", Duquesa deixa o palco e Os Garotin chegam a avisar ao público que ela voltaria. O convite anunciado para o festival criava expectativa por uma presença mais extensa, sobretudo porque a combinação funcionou tão bem logo de saída. Em vez de prejudicar o show, a ausência cria uma promessa que só seria resolvida no encerramento.
O encontro ganha ainda uma camada geracional. Os Garotin se consolidaram rapidamente a partir de 2019 e chegaram ao Grammy Latino com o álbum "Os Garotin de São Gonçalo", enquanto Duquesa ocupa posição cada vez maior dentro do rap brasileiro contemporâneo. São artistas jovens, vindos de cenas diferentes e já capazes de movimentar públicos próprios. Colocá-los juntos faz sentido musicalmente antes de fazer sentido como estratégia de festival.
Zero a Cem Mostrou Que o Repertório Já Tem Memória Própria
Depois da primeira saída de Duquesa, o trio retomou o baile com "Calor do Momento", "Se Joga" e "Nossa Resenha" antes de abrir espaço para um dos momentos individuais mais bonitos do set. Léo Guima assumiu "Carinha de Neném", reduzindo temporariamente a movimentação coletiva e deixando a voz conduzir a música. A alternância funciona bem e isso acontece porque chega depois de uma sequência muito carregada de groove e devolve atenção para a qualidade vocal que sustenta os três integrantes.
Logo depois, "Zero a Cem" mostrou o quanto determinadas músicas já escaparam da fase de "aposta". O coro veio forte do público e criou um dos momentos em que o trio precisou trabalhar menos para conquistar resposta. Lançada no primeiro ciclo de Os Garotin, a faixa acompanhou o crescimento deles e hoje possui reconhecimento suficiente para mudar o comportamento de uma plateia grande poucos segundos depois da introdução.
Esse trecho ajuda a dimensionar como a carreira avançou rapidamente. Há poucos anos, Anchietx, Cupertino e Léo Guima ainda construíam seus trabalhos individuais e começavam a entender Os Garotin como grupo. Em 2024, o primeiro álbum levou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Dois anos depois, o Sunset recebia um show com produção própria, repertório suficiente para uma hora e uma plateia que já sabia cantar parte relevante dele.
A evolução fica ainda mais evidente porque a apresentação não depende apenas das músicas do primeiro disco. O material de "Força da Juventude", lançado em 2026, ocupa espaço real dentro do set e impede que a estreia naquele palco funcione como comemoração atrasada do Grammy. Há passado suficiente para produzir reconhecimento e presente suficiente para mostrar que o repertório continua crescendo.
Soul Brasileiro Resume Bem o Tipo de Música Que Eles Querem Fazer
"Soul Brasileiro" talvez seja a música que melhor traduz a proposta artística atual do trio. A gravação de estúdio conta com Lenine e Hamilton de Holanda e inclui uma citação a "Jack Soul Brasileiro", canção de Lenine que já brincava com a ideia de absorver referências estrangeiras sem apagar sotaque, ritmo e identidade locais. No Rock in Rio, a música acerta como declaração sem precisar interromper o baile para explicá-la.
Os Garotin conhecem profundamente soul e R&B, mas o interesse deles nunca parece ser reconstruir uma Motown brasileira ou provar fidelidade a modelos norte-americanos. O baixo pode vir dessa tradição, os metais podem apontar para funk e soul, enquanto melodias, violão, samba, MPB e maneiras brasileiras de cantar entram naturalmente no mesmo arranjo. Essa mistura fica muito mais clara ao vivo porque os instrumentos deixam expostas as costuras entre as referências.
A sequência com "Soul Brasileiro", "Força da Juventude" e "Pouco a Pouco" dá ao fim do show uma identidade particularmente forte. O novo álbum deixa de ser apenas obrigação promocional e passa a oferecer algumas das músicas que melhor conversam com a escala daquele palco. O trio também consegue mostrar crescimento sem abandonar a leveza das primeiras gravações, qualidade difícil quando uma banda começa a receber estruturas maiores e mais músicos.
Existe alguma ironia boa na maneira como tudo isso aparece visualmente. Três artistas de São Gonçalo vestidos como estrelas de um grande baile, cercados por glitter, metais e luz dourada, tocando músicas que falam diretamente de juventude e de uma identidade brasileira. Não há tentativa de diminuir a ambição para preservar uma suposta autenticidade. A ambição faz parte da graça.
Alok no Rock In Rio 2026 | O Céu Também Virou Palco
Rock in Rio 2026 | O Manifesto Cultural de Gilsons, Daniela Mercury e Olodum
Queda Livre Trouxe Duquesa de Volta para Fechar a Festa
A promessa feita anteriormente se cumpre em "Queda Livre". Duquesa retorna ao Sunset para a última música e, dessa vez, sua presença já encontra o show completamente aquecido. Depois de uma hora em que Os Garotin estabeleceram a própria linguagem, a rapper volta sem necessidade de apresentação e se encaixa na parte final como alguém que já pertence àquela festa.
A escolha é melhor do que concentrar toda a participação dela num único bloco. O retorno cria uma pequena narrativa: Duquesa chega, apresenta duas faixas próprias, sai enquanto o trio assume novamente o centro e reaparece no encerramento para dividir a despedida. Isso dá destaque real à convidada e evita aquela sensação comum em festivais de alguém entrar, cumprir uma música e desaparecer da história da apresentação.
Ainda assim, havia espaço para um encontro musical mais desenvolvido. Três músicas deixam evidente a química entre eles, mas também abrem possibilidades que a hora de festival não permite explorar. Um rearranjo de outra faixa de Os Garotin com Duquesa ou uma presença dela em um trecho maior poderia aprofundar a mistura entre rap e o baile black que o trio vinha construindo.
O que existe funciona muito bem. "Queda Livre" fecha o show com os quatro artistas mais próximos do público e preserva a mesma sensação de festa que havia sido estabelecida desde "Garota". Em vez de buscar uma balada emocional ou uma grande explosão artificial para produzir um final "de festival", eles terminam dentro da própria linguagem.
Um Baile de São Gonçalo Que Cabia Perfeitamente no Rock in Rio
A estreia de Os Garotin comandando um show no Palco Sunset mostra uma banda que já entende a diferença entre tocar músicas e construir uma apresentação. Figurino, cenário, formação instrumental e repertório apontavam para o mesmo ambiente, e essa coerência permitiu que o baile sobrevivesse às mudanças de ritmo e à chegada de Duquesa.
Os pequenos problemas também ficam claros. O som demorou alguns minutos para equilibrar adequadamente os vocais, e a participação de Duquesa poderia ocupar uma parcela maior do repertório. Há momentos em que a banda de dez músicos cria tanta informação que as três vozes precisam lutar um pouco mais para permanecer à frente dos arranjos. Nada disso desestrutura a apresentação, mas são pontos que podem tornar um show já muito bom ainda mais preciso.
O público respondeu especialmente bem quando "Zero a Cem", "Se Joga", "Nossa Resenha" e "Soul Brasileiro" apareceram, confirmando que Os Garotin já possuem músicas capazes de sustentar espaços maiores. A votação realizada depois do quinto dia pela Billboard Brasil colocou o encontro com Duquesa como o favorito do público entre as apresentações do Sunset, com 41% dos votos, à frente de Jamiroquai, Jota.pê e PJ Morton.
O melhor resultado, contudo, estava diante do palco. Os Garotin conseguiram levar São Gonçalo para a Cidade do Rock sem transformar a origem em slogan repetido entre músicas. Ela estava no jeito de cantar, no balanço, na mistura de referências e na informalidade que sobrevivia por baixo da roupa de gala.
Duquesa trouxe a Bahia e o rap para dentro desse baile. O Sunset ficou pequeno o bastante para parecer íntimo e grande o bastante para mostrar até onde eles já chegaram.
Os Garotin & Duquesa | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Shourico)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.