Por que todo mundo está falando de Angine de Poitrine? Banda de anti-rock viraliza e desafia a IA
Duo canadense usa roupa de bolinhas, toca com instrumento inexistente e fala língua inventada; Brasil é o sexto país que mais escuta grupo no mundo
A grande novidade da música atual parece ter vindo de outro planeta ou de um sonho maluco. É o duo canadense Angine de Poitrine, que usa roupa e máscara de bolinhas, toca com um instrumento construído pelos próprios integrantes, fala em uma língua inventada e atraiu os ouvidos do mundo com músicas estranhas e fascinantes.
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A banda descreve tocar um "anti-rock-de-arena instrumental minimalista" e ser um "mantra do rock dadaísta pitagórico-cubista". O Angine de Poitrine existe desde 2023, mas explodiu apenas neste ano, quando uma apresentação deles na rádio KEXP, veiculada em fevereiro, viralizou. Atualmente, o vídeo da performance no YouTube já soma 12 milhões de visualizações.
Os comentários na publicação resumem bem a fascinação do público. "Estou feliz que os meus amigos imaginários da infância estão se saindo bem", brinca um. "Quando eles anunciarem uma turnê mundial, espero que eles especifiquem em qual mundo", escreve outro. "Comecei o vídeo confuso, fiquei feliz e agora estou 'triângulo'", diz outro, em referência ao "cumprimento" em formato de triângulo com as mãos que os integrantes fazem entre si.
Quem está por trás do Angine de Poitrine?
A resposta é que não se sabe. Os dois membros se escondem por trás das máscaras com nariz gigante e de pseudônimos: Klek de Poitrine, na bateria, e Khn de Poitrine, no estranho instrumento que une guitarra e baixo.
"Angine de Poitrine é um projeto artístico anônimo. Qualquer especulação sobre a identidade de seus membros não foi verificada, não é endossada pelo grupo e pode constituir uma invasão de privacidade", alerta o site oficial da banda. Ao pé da letra, o nome do grupo significa angina pectoris, que descreve uma dor no peito causada por uma redução do fluxo sanguíneo.
Brasil é o 6º país que mais ouve Angine de Poitrine
Os brasileiros abraçaram com força a estranheza do Angine de Poitrine. O Brasil é o sexto país que mais escuta músicas do grupo, com 1,1 milhão de streams nos primeiros meses deste ano, segundo a Luminate, empresa que é a base de dados do ranking da Billboard. Em 2025, apenas mil streams da banda vinham do País.
A Luminate também aponta um salto extraordinário das reproduções das músicas da banda na semana de lançamento do último disco do Angine de Poitrine, Vol. II, no início de abril. O grupo atingiu 11,2 milhões de streamings naquela semana mundialmente, o que representa 603,198% a mais do que as reproduções que a banda tinha no mesmo período do ano passado.
Agora, a banda coleciona elogios de astros do rock, como Dave Grohl, um aumento na demanda por vinis de Vol. II e ingressos (que chegaram a custar US$ 500) esgotados na próxima turnê do grupo na América do Norte e Europa, conforme a Billboard. Em entrevista à revista norte-americana Noize em fevereiro, os integrantes disseram que o sucesso não foi nem um pouco planejado.
"Estamos incrivelmente encantados com a recepção, mas, como pessoas que mantêm o foco constante, sabemos que nada é definitivo. Tudo pode ser passageiro. Para garantir que não seja, temos muito trabalho pela frente", disse Khn à época.
Por que tanto fascínio?
O instrumento tocado por Khn foi idealizado por Klek. O baixista e guitarrista toca em uma escala microtonal: é como se ele tocasse as notas entre as "rachaduras" de um piano, um intervalo não usado na escala ocidental. A inspiração veio da "música oriental" - é por isso que o som do grupo remete tanto às canções do Oriente Médio, da Índia ou do Japão.
"Adicionei mais trastes a uma guitarra com uma serra. Mas, como não sou guitarrista, não estava usando todo o potencial do instrumento. Então, mostrei para o Khn. Disse a ele: você tem que experimentar isso, não faz o menor sentido. Aí, assim que começamos a tocar, rimos por causa da fricção criada e da proximidade das notas", contou Klek sobre a construção do instrumento.
Mas a base da inspiração do Angine de Poitrine vem da música ocidental: os integrantes falam em inspirações no rock progressivo e no jazz e em nomes como Frank Zappa e King Gizzard & the Lizard Wizard.
É por isso que as canções da banda são tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhas. Cada nota tocada pelos integrantes é milimetricamente pensada e, em vídeo, não é só o visual de bolinhas que impressiona: é a velocidade com que Khn e Klek tocam seus instrumentos.
O fascínio, porém, pode ter a ver com um sintoma da música mundial: o esgotamento da fórmula dos hits atuais. E já não é raro ouvir músicas criadas por inteligência artificial sem nem perceber.
No ano passado, o Estadão explicou o fenômeno. À época, especialistas entrevistados pela reportagem apontaram que a música gerada por IA poderia se tornar um "vício", já que é feita para "agradar" o cérebro.
"Quanto mais simples a música, menos esforço vou ter que fazer para ouvir", comentou o multi-instrumentista Eduardo Sahão, doutorando em cognição musical. "Se eu pedir para a IA criar uma música para mim, o que ela vai usar como saída vai ser gerar uma música que ative o meu sistema de recompensa ao máximo, que seja o mais viciante possível", disse a cantora e neurocientista Julie Wein.
Ao entregar uma música imprevisível e incomum, o Angine de Poitrine contraria todas as "fórmulas do sucesso" e desafia a música gerada por IA. E o sucesso estrondoso do público surge como um poderoso aceno à criatividade. Afinal, até quando escutaremos as mesmas músicas?
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