Paul McCartney entrelaça o início, o fim e o meio no novo álbum 'The Boys Of Dungeon Lane'
Lenda dos Beatles lança nesta sexta-feira, 29, disco inspirado em memórias de sua juventude em Liverpool
Dungeon Lane, uma pequena rua que liga o distrito de Speke às margens do rio Mersey, em Liverpool, acaba de conquistar seu lugar na "calçada da fama" dos Beatles após Paul McCartney colocá-la no título de seu novo álbum, lançado nesta sexta-feira, 29.
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Inevitavelmente, a via experimentará o fenômeno de Penny Lane, eternizada pelos Fab Four no hit de 1967 e transformada em ponto turístico obrigatório para fãs da banda. Embora não fiquem exatamente próximas, separadas por alguns quilômetros, ambas compartilham ligação afetiva com a juventude de McCartney na cidade portuária.
Foram justamente os anos de formação do músico que guiaram a criação deste The Boys of Dungeon Lane, possivelmente o trabalho mais nostálgico de sua carreira e que ganha vida seis anos após McCartney III (2020), no qual Paul gravou todos os instrumentos encerrando uma trilogia de discos autossuficientes iniciada em 1970.
Chama atenção o fato do roqueiro ter voltado a adotar esse método no novo álbum. "Fominha" e sem contar com sua banda de apoio, que o acompanha ao vivo há mais de 20 anos e ajudou a impulsionar os ótimos Egypt Station (2018), New (2013) e Memory Almost Full (2007), ele assume grande parte das gravações de baixo, bateria, guitarra, violão e piano, além dos vocais, é claro.
A produção ficou a cargo de Andrew Watt, que toca em algumas faixas. Para quem não sabe, Watt é o produtor "da vez" na indústria musical. O americano de 35 anos obteve sucesso trabalhando com os popstars Justin Bieber, Lady Gaga, Dua Lipa e Demi Lovato, por exemplo, e despertou interesse de veteranos como Elton John, Ozzy Osbourne, Iggy Pop e os Rolling Stones - todos para quem ele prestou sólidos serviços.
Como é 'The Boys of Dungeon Lane'
The Boys of Dungeon Lane, uma coleção de 14 canções, todas elas compostas por McCartney, inicia com As You Lie There, na qual a voz envelhecida do britânico entoa versos a lá Bob Dylan, meio falados e despreocupados em acompanhar a melodia dedilhada no violão, mas que logo caem num refrão gritado com guitarras rasgantes. Na letra, ele rememora e fantasia uma paquera de sua vizinhança.
O rock raiz de Lost Horizon, com ecos de Eagles, é sucedido pela melodia inspirada de Days We Left Behind, primeiro single do álbum. A canção triste traz uma letra poética e destaca Paul em registros vocais mais elevados, aproximando-se bastante do falsete.
Ripples In The Pond aposta em uma batida de baladinha com energia oitentista que remete às experimentações de McCartney II (1980). Já Mountain Top mergulha na psicodelia setentista: há uma introdução mística, vocais alterados e uma atmosfera quase fantasmagórica. É uma faixa singular - talvez a mais ousada do disco.
Seus parceiros dos Beatles são evocados de diferentes maneiras. Down South é um delicado tema acústico que remete às viagens e caminhadas de Paul ao lado de George Harrison, enquanto We Two, centrada na amizade, pode ser interpretada como uma declaração de afeto a John Lennon, em espírito semelhante ao de Here Today, de 1982. Já Ringo Starr empresta vocais e sua batida inconfundível a Home To Us, não à toa a faixa mais beatlesca do álbum e que nasce histórica por trazer o primeiro dueto oficial entre Paul e o baterista, além de backing vocals de Chrissie Hynde, a líder do Pretenders.
Em Come Inside, Paul convida o ouvinte a entrar em sua mente. É um rock moderno, próximo do que bandas como Arctic Monkeys ou The Strokes costumam fazer. Embora bem produzida, está longe de ser memorável. Ao contrário de Never Know, impulsionada por uma linha de baixo cheia de groove e com uma brilhante coda instrumental.
First Star of The Night, uma balada romântica e enriquecida pelo som de chuva que abre a canção, e Life Can Be Hard, guiada no piano, canalizam o apreço do músico pelos standards do começo do século 20.
Salesman Saint ostenta o melhor arranjo da obra e serve como tributo aos pais de McCartney: Jim, vendedor e músico nas horas vagas, e Mary, que morreu quando Paul tinha apenas 14 anos. A letra exalta a luta do casal para sustentar a família no pós-guerra. "Eles não aguentavam mais, mas tinham que seguir em frente", canta o músico.
O álbum se encerra com Momma Gets By, ode à figura feminina, na qual Paul reconhece os desafios da maternidade, como fizera no clássico beatle Lady Madonna.
Percebe-se, portanto, uma vasta exploração musical em The Boys of Dungeon Lane, como ocorre na maioria dos trabalhos do artista, que não se interessa por uma linguagem única, explora vários estilos e contrapõe esse turbilhão de ideias com letras que olham para o passado. É Paul no melhor nível "contador de histórias", possivelmente se espelhando em trovadores como Dylan, Springsteen e Neil Young, os quais ele admira bastante.
Nesta fase de sua vida, prestes a completar 84 anos, McCartney transforma memória em continuidade e reconecta o ponto de partida de sua trajetória às décadas de experiência acumuladas desde então. É um contexto cíclico onde ele devolve ao presente tudo o que determinou e aprendeu dentro da música pop, como Raul Seixas cantou em Gita, mostrando que o início, o fim e o meio deixam de existir como etapas separadas e passam a coexistir dentro da própria criação.
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