O vinil realmente tem o melhor som? Especialistas explicam o que é mito e o que é verdade
Com o aumento da procura por discos de vinil e da venda de álbuns físicos por artistas da nova geração, cresce também o debate sobre fidelidade sonora em meio à era da música digital
Nas lojas especializadas e nas paredes de quartos da Geração Z, o preto clássico dos discos de vinil agora divide espaço com edições coloridas, translúcidas e até com glitter. Álbuns de artistas pop como Taylor Swift e Olivia Rodrigo e cantoras nacionais como Marina Sena e Liniker passaram a chegar ao público em LP já no lançamento, muitas vezes ao mesmo tempo em que estreiam no streaming.
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Se a música de qualquer um desses artistas pode ser acessada em segundos pelo celular, por que tantos fãs passaram a comprar discos grandes, caros e que exigem aparelhos específicos?
Entre os motivos apontados por entusiastas, paira a ideia de que o vinil teria o som mais autêntico possível, e seria a maneira ideal para escutar uma obra musical como o artista pretendia. Entretanto, em uma era em que a produção é feita totalmente em ambiente digital, a qualidade sonora em um formato analógico depende de vários fatores.
O vinil é melhor ou apenas diferente?
No passado, gravar música era um ato documental. Nos anos 1950 e 1960, o processo era puramente mecânico e acústico. As canções eram gravadas em fitas magnéticas e depois recebiam um registro físico no vinil, que posteriormente seria lido e reproduzido pela agulha de uma vitrola.
Por ser uma transposição direta do som gravado no estúdio, a música tinha poucas perdas sonoras. Por outro lado, aquele período enfrentava claras limitações técnicas. "A gente não podia simplesmente 'socar' qualquer som ali, senão a agulha poderia saltar e danificar o equipamento", afirma o produtor musical Felipe Vassão, em entrevista ao Estadão.
Hoje, o cenário mudou radicalmente. "Quando vamos para o contexto digital, atingimos um teto em que você consegue fazer o som que você quiser", ele aponta. No universo do vinil, essa transição impôs outro desafio: fazer uma reprodução física de sons e instrumentos criados totalmente em um computador.
A boa notícia é que a tecnologia também aprimorou a produção dos discos de vinil. João Augusto, consultor da fábrica de vinil Polysom, no Rio de Janeiro, revela que o vinil moderno pode ser "infinitamente superior" ao de antigamente.
"Hoje utilizamos conversores digitais de alta resolução para processar os arquivos originais, ajustando falhas de volume e frequência que os técnicos não conseguiam tratar no passado. Fizemos uma correção histórica, isso eu posso afirmar", declara o especialista.
Entretanto, por conta das diferenças notáveis entre os formatos, fazer uma prensagem em vinil de um disco gravado hoje depende de cuidados específicos. Felipe Vassão esclarece que, para ganhar uma prensagem em vinil, a música precisa receber uma masterização específica, pensada para as especificidades dessa mídia.
"Muitas vezes pegam músicas de hoje e simplesmente colocam no vinil sem adaptação alguma. O resultado fica feio, soa estranho. Agora, se o disco foi masterizado pensando nesse formato, você provavelmente está escutando a melhor versão", acrescenta Vassão.
Há, no entanto, outro entrave para a fidelidade, como nota o produtor: os equipamentos de reprodução. "Não adianta nada você pegar um disco de 180g e tocar em uma maleta com agulha de cerâmica. Você terá uma pobreza harmônica e, com certeza, ouvir no streaming vai ser melhor."
Diante disso, a experiência física se torna o maior chamariz entre os colecionadores de vinil. "O vinil é uma forma de afirmação de identidade", afirma Luis Felipe Moura, especialista em marketing e estudioso do consumo de vinil entre jovens.
Para além de uma mídia de reprodução, o LP pode virar um item de coleção ou mesmo decoração. Segundo ele, ter discos expostos em casa se torna uma demonstração dos seus gostos, referências e, inclusive, um signo de pertencimento e aproximação com o artista.
"Alguns consumidores compram vinil sem mesmo sequer ter uma vitrola", aponta Moura, que reforça o papel do disco como objeto simbólico. "Comprar um vinil é tornar físico o amor que se sente por alguma obra."
Existe alternativa quando se fala de qualidade?
Para quem busca uma melhor qualidade de som e gostaria de uma alternativa mais acessível ao vinil, João Augusto lembra os CDs: "Os discos compactos congregam várias coisas: portabilidade, possibilidade de colocar o equivalente a dois LPs dentro de um disco só, tamanho reduzido e uma qualidade de som excepcional".
Segundo Augusto, os CDs resolvem vários dos dilemas de fidelidade sonora. Isso porque os arquivos de áudio disponibilizados nas plataformas de streaming são comprimidos, o que reduz a qualidade drasticamente. "Por isso eu continuo defendendo o CD, porque eles levam as músicas originais, sem perdas. Ainda que você escute no mesmo equipamento, o streaming não chega onde o vinil ou o CD chegam", acrescenta.
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