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Masego reconstrói seus alicereces em 'Fix Your Face'

O criador do traphousejazz processa perda, luto e crescimento sem perder seu groove em seu novo projeto

23 jul 2026 - 08h58
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Ver a própria casa pegar fogo pela TV, do outro lado do mundo, é o tipo de experiência capaz de reordenar qualquer prioridade na vida. Foi, infelizmente, o que aconteceu com Masego durante os incêndios que atingiram o sul da Califórnia em janeiro de 2025. Na época, ele estava no Brasil e pouco podia fazer. "Foi [muito surreal]. Eu não conseguia acreditar… aí comecei a agir como se não houvesse amanhã; sou forte", contou em entrevista à Billboard. Fix Your Face, seu terceiro álbum, nasce dessa virada: um disco em que o charme continua lá, mas agora divide espaço com luto, autocrítica e uma vulnerabilidade genuína.

Masego se apresenta na La Riviera, em Madrid, Espanha, em fevereiro de 2024
Masego se apresenta na La Riviera, em Madrid, Espanha, em fevereiro de 2024
Foto: Javier Bragado/Redferns / Rolling Stone Brasil

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O título vem de uma expressão comum entre mães, usada quando esperam que os filhos parem de chorar "na hora" — algo como, "seque as lágrimas" em português. Na mesma entrevista, o artista resumiu o espírito do projeto: "No final da nossa conversa, decidi estudar a vulnerabilidade. Queria me desafiar para ver o quão aberto eu poderia ser e o quão pouco arrogante eu poderia ser. Por estar nesse meio, as pessoas não me conhecem de verdade — e isso é proposital. Sou muito bom em manter uma certa distância geminiana de mim mesmo, então queria deixar o mundo entrar um pouco nas minhas emoções".

O processo foi de expansão: as sessões começaram com conversas sobre vulnerabilidade ao lado do produtor e amigo Kojo, passaram por Brasil, Jamaica, Nova York e Los Angeles e renderam mais de 150 faixas — até a seleção final, com 16 canções em 50 minutos.

"Sounds Like..." abre o disco retomando a própria trajetória: a criação na igreja, a disciplina imposta pelos pais pastores, o sonho do basquete interrompido por uma lesão nos joelhos e a troca gradual dos pôsteres de quadra por vinis de Miles Davis.

"Heaven" segue essa linha espiritual, mas na direção romântica. A faixa incorpora com delicadeza um sample de um clássico gospel para construir um momento sensual sem perder a elegância, questionando se há pecado em transformar música de igreja em trilha para o desejo: "Seria pecado se fizéssemos amor ao som de música gospel?", canta. "Limerence" aprofunda a obsessão: o violão conduz a faixa, o refrão cantarolado gruda com facilidade e Masego admite estar cego pela paixão, incapaz de enxergar com clareza o próprio comportamento.

"QVC", com Leon Thomas, é um dos pontos altos do álbum. A dupla constrói um dueto inteiro a partir da metáfora de um canal de vendas — e o produto negociado é segurança emocional. Cada um expõe, com humor e sutileza, aquilo que se aprende a desejar em um relacionamento, tornando explícito o que costuma ficar implícito nesse tipo de balada suave.

O disco muda de temperatura em "Breathe", a faixa mais contida do projeto e a que Masego descreveu como a mais difícil de escrever, emocionalmente. Composta em meio à perda de um familiar, enquanto a agenda profissional seguia intacta, a música captura a sensação de não ter tempo nem para processar o luto; a produção, quase sussurrada, abre espaço para que a voz carregue o peso da letra.

"Gone" e "Symone" completam o arco mais sombrio do álbum. A primeira, com participação de Lekan, se apoia numa produção rarefeita — quase só voz e cordas — para retratar o esgotamento de dar tudo de si a alguém que apenas retira. "Symone", por sua vez, vai na direção oposta: paranoia, desconfiança e a descoberta de uma traição, com Masego insistindo que está bem, claramente não estando: "Estou bem, mas estou ocupada demais me perdendo nos meus pensamentos", canta no refrão.

A produção, que ganha pela primeira vez um coprodutor oficial em Jordan Elgie, mantém a assinatura que consagrou Masego como criador do traphousejazz (saxofone sobre batida programada), mas amplia o vocabulário em direção ao gospel e ao soul mais tradicional. Os feats, de Buju Banton a Keyshia Cole, passando por Musiq Soulchild e Foggieraw, foram escolhidos a dedo: Masego disse ver Cole e Soulchild como referências do artista que gostaria de se tornar um dia, e enxergar em Banton e Foggieraw representantes das duas regiões que o formaram — Jamaica e a área de Washington, D.C.

Fix Your Face confirma que Masego não precisou abrir mão do charme para ganhar profundidade; bastou parar de fingir que uma coisa exclui a outra. O álbum mostra que é possível ser sedutor e sincero ao mesmo tempo — e que o groove pode carregar luto sem deixar ninguém parado. Depois de tudo o que perdeu em janeiro, depois de ter de refazer a pergunta "quem sou eu", ele volta com um disco que representa sua melhor fase.

Nem todo grande álbum precisa de holofotes. Fix Your Face chegou discreto, sem o hype que alguns projetos recebem, mas é sólido — do tipo que gruda em você e não sai tão cedo. O criador de "Tadow" entrega aqui faixas tão interessantes e viciantes quanto.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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