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Kell Smith: 'O brasileiro, por muito tempo, olhou mais para o Norte do que para os lados'

No novo projeto "Latino-Americana A Turnê", a cantora busca o fim das "fronteiras invisíveis entre o Brasil e seus vizinhos hispano hablantes

7 abr 2026 - 15h28
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Descrita como 'um espetáculo que costura a história do Brasil com a sua própria', a apresentação Latino-Americana A Turnê desembarca em São Paulo nesta terça, 7. Conhecida por hits como "Era Uma Vez" e pelo projeto Elis e Tom com Daniel Jobim, Kell Smith se reinventa em um novo projeto de músicas autorais e sucessos reimaginados, que honra a história do Brasil e do continente ao qual ele pertence.

Kell Smith em novo projeto "Latino
Kell Smith em novo projeto "Latino
Foto: Americana A Turnê" ( Pablo Grotto) / Rolling Stone Brasil

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A apresentação na casa de samba Praça A ocorre no aniversário da cantora, e é um manifesto de amor pela música brasileira. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Smith ressalta que seu desejo é acabar com "fronteiras invisíveis" entre os brasileiros e a música latinoamericana. "O Brasil é uma ilha imensa cercada por um mar de cultura que a gente, muitas vezes, ignora por causa do idioma. O projeto nasce da necessidade de nos sentirmos parte de algo maior e mostrar nossa música que pulsa em nós."

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A cantora exalta sua identidade brasileira, que é a alma do projeto: "Eu quis trazer a sonoridade do continente para o centro da minha arte para dizer que não estamos sozinhos e a Brasilidade pra deixar claro todo meu orgulho. É um movimento de unidade, de reconhecimento e, acima de tudo, de protagonismo da nossa identidade real enquanto povo latino." No projeto, Smith também canta pela primeira vez em espanhol, reimaginando hits latinos como "Bésame Mucho". "A música latina carrega um 'sentimiento' que é primo irmão do nosso chorinho e do nosso samba. O preparo foi mergulhar na visceralidade de quem canta com a terra na garganta."

A cantora explica que, além de um "enorme desafio", o canto na língua hispânica foi um "estudo de alma". "Não busquei a perfeição da pronúncia, mas a verdade da intenção. É sobre entender que a língua muda, mas o coração que pulsa na América Latina fala o mesmo idioma: o da resistência e da paixão."

Smith ainda enxerga um isolamento cultural no consumo de música latina por parte do público brasileiro. "O brasileiro, por muito tempo, olhou mais para o Norte do que para os lados. A barreira linguística existe, mas a música é a 'saída de emergência' que atravessa qualquer muro." Mesmo assim, a cantora mantém uma visão otimista do futuro cultural.

"Percebo que o público está começando a despertar para esse pertencimento, mas é um exercício diário. Quando eu subo no palco e canto essas canções, sinto que as pessoas se reconhecem na melodia, mesmo antes de traduzirem as palavras. A emoção não precisa de dicionário."

Além da luta pelo pertencimento cultural do brasileiro, Smith também utiliza sua plataforma em prol de pautas de saúde e segurança feminina. Na faixa "Samba da Zenaide", a artista luta contra a violência doméstica no que descreveu como uma "missão de cura coletiva". "A música tem o poder sagrado de tirar o que dói do escuro. Colocar a violência doméstica no centro de um samba é dar protagonismo à denúncia sem perder a dignidade da vítima. 'Samba da Zenaide' é um espelho para quem precisa se enxergar e um grito para quem precisa acordar. É o meu 'meter a colher' através da arte, transformando o tabu em movimento e rede de apoio."

"Eu já canto a nossa causa em voz alta desde 'Respeita as Mina' e tive a honra de ecoar 'Maria da Vila Matilde' ao lado da mulher do fim do mundo Elza Soares no Rock in Rio", relembra a cantora. "A música tem poder de transformação e eu sei, por isso escolho como quero lutar minhas lutas e nos representar através de cada canção. Escolher o samba é reverenciar a nossa história; o samba é, por definição, denúncia e resistência. 'Samba da Zenaide' não é só uma música, é um espelho e um grito."

Além de suas músicas, Kell Smith também transformou suas redes sociais em um espaço ampliado de valorização da arte feminina. Durante o mês da mulher, a cantora indicou diariamente uma voz feminina da música nacional, em um movimento de conexão entre o passado e presente da MPB. Na conversa com a Rolling Stone Brasil, a artista exaltou suas vozes preferidas: "Mercedes Sosa é a minha raiz, a voz da terra que nunca cala. E, das contemporâneas, sou apaixonada pela força da Nathy Peluso e pela genialidade de Shakira. São mulheres que não apenas cantam, mas que sustentam a cultura e ancestralidade com suas músicas. Elas são faróis que iluminam esse continente tão vasto."

A cantora destacou a importância do sentimento de pertencimento latino na vida da mulher brasileira, que pode encontrar uma rede de apoio em relação a lutas comuns. "O isolamento gera solidão. Quando a mulher brasileira não se reconhece como latina, ela perde a chance de se conectar com uma rede de milhões de outras mulheres que lutam as mesmas batalhas contra o patriarcado e a violência na América Latina", explica. "O pertencimento expande a nossa rede de proteção. Saber que nossa dor e nossa luta ecoam em espanhol logo ali ao lado nos dá força. O isolamento nos fragiliza; a união latina nos torna imparáveis."

Smith também batalha pela saúde mental feminina no país. Diagnosticada com autismo aos 20 anos, a cantora reconhece um grau de dificuldade ampliado em chances de diagnósticos de saúde (física e mental) para mulheres no Brasil. "O sistema ainda é muito negligente com as mulheres; nossas dores são frequentemente silenciadas ou tratadas como 'emocionais' ou 'histeria'. Somos inviabilizadas e subnotificadas. Quando falamos de autismo, então, o apagamento é ainda maior, porque o mundo foi treinado para enxergar o diagnóstico apenas em meninos. Ser mulher e buscar um diagnóstico é enfrentar um mar de preconceitos e desinformação. Por isso eu decidi viver e lutar em voz alta: para que outras mulheres e meninas não precisem esperar tanto tempo para serem vistas de verdade e viverem."

A cantora ressalta, por fim, que "o diagnóstico tardio não foi um rótulo, mas um mapa", que auxiliou em sua jornada pessoal e criativa. "Ele me deu a permissão de parar de me desculpar por ser quem eu sou. Me ajudou a entender meu processo criativo, minhas sensibilidades e a forma como eu percebo o mundo. Hoje, eu não busco mais o 'normal', eu busco o real. Ser diagnosticada me permitiu acolher a minha própria existência e usar a minha vulnerabilidade como a minha maior força. É um alívio finalmente saber o nome da sua própria verdade."

Kell Smith | Latino-Americana A Turnê

Data: 07 de abril

Horário: 20h

Local: Rua Aspicuelta, 527 - Vila Madalena

Ingressos limitados no Ingresse

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