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FBC lança manifesto sobre a infância no Brasil com dados de pobreza, trabalho infantil e mortes causadas por intervenção policial

Texto assinado por Renato Amaral e Luiz Ramos contextualiza o projeto do artista mineiro com dados da Fundação Abrinq e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

11 out 2026 - 15h05
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Resumo
O cantor FBC lançou o EP Skarnaval, primeira parte de uma trilogia musical sobre a vida de um brasileiro da infância à maturidade. O projeto traz o manifesto Crianças com Futuro, que denuncia a vulnerabilidade social infantil no país a partir de dados sobre extrema pobreza, trabalho infantil e violência policial. A obra critica ainda a exaustiva escala de trabalho 6x1 dos pais e cobra transformações estruturais urgentes para garantir a dignidade e os direitos básicos das crianças.

FBC lançou na última sexta, 9 de outubro, a EP Skarnaval, EP 1, primeiro capítulo de um projeto em três partes que acompanha a trajetória de um personagem brasileiro da infância à vida adulta. Com cinco faixas de ska e participação de Fernanda Takai em "Greve das Crianças", o trabalho chega às plataformas pela ONErpm às vésperas do Dia das Crianças. Junto com o lançamento, o artista mineiro Fabrício Soares Teixeira apresenta o manifesto Crianças com Futuro, escrito por Renato Amaral e Luiz Ramos e concebido como âncora política do projeto.

FBC
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Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

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Skarnaval vem depois de dois álbuns que FBC define como "panfletários": Assaltos e Batidas (2025), de boom bap e rap clássico, e Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades (2026), mergulhado no rock e no hardcore e lançado de propósito no Dia do Trabalhador. Para o novo projeto, o artista escolheu o ska como sonoridade e a leveza como método, sem abrir mão da contundência. A proposta é narrar a história de um personagem que começa a vida observando o mundo com a curiosidade infantil do "por quê?" e, nos capítulos seguintes, desenvolve uma compreensão cada vez mais clara do lugar que ocupa na sociedade.

"A ideia desse projeto é contar a história de um personagem, desde a infância até a vida adulta. Eu queria trabalhar muito essa coisa do 'por quê'? que a criança tem. Essa curiosidade de querer entender tudo, de questionar as coisas, que em algum momento da vida a gente acaba perdendo", explica o artista. Em novembro, chega o EP dedicado à adolescência. Em dezembro, o álbum completo reunirá as faixas dos dois EPs e músicas inéditas sobre a vida adulta.

O manifesto que acompanha o lançamento segue outro caminho: sem melodia ou arranjo, confronta diretamente os dados sobre a infância no Brasil. Com base no Cenário da Infância e da Adolescência 2026, da Fundação Abrinq, e no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o texto retrata o país em que cresce o personagem de FBC. São 34,2 milhões de crianças no Brasil; desse total, 15,4 milhões vivem na pobreza e 5,5 milhões, na pobreza extrema. O manifesto também cita os mais de 4,3 mil resgates de crianças em situação de trabalho infantil em 2025 — o maior número da década — e as 428 mortes de crianças e adolescentes por intervenção policial no mesmo ano. A jornada de trabalho 6X1 aparece como um dos nós do problema: o texto descreve o ciclo em que mães e pais chegam em casa exaustos demais para conversar com os filhos, situação que inspira a faixa "Greve das Crianças". Ao final, o manifesto apresenta demandas que vão além do afeto individual e apontam para transformações estruturais.

Manifesto na íntegra

MANIFESTO "SKARNAVAL", escrito por Renato Amaral e Luiz Ramos

CRIANÇAS COM FUTURO

conceito e direitos.

Criança. Aquele que está sendo criado / Ser em formação. A palavra vem do latim creantia, uma derivação do verbo creare (gerar, produzir, criar), acrescido do sufixo -ança, que indica uma ação. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as crianças são as pessoas com até 12 anos incompletos. Ainda segundo a Lei, é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Quanto à saúde e à vida, cabe ao Estado garantir as políticas públicas que assegurem o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência. Quanto à liberdade, o respeito e a dignidade as crianças têm direito de brincar, divertir-se, praticar sua crença, ir e vir, opinar, participar da vida política, praticar esportes e viver — sem descriminção. Compete ainda aos pais prestar aos filhos assistência afetiva.

dos filhos deste solo és pai hostil

No Brasil existem cerca de 34,2 milhões de crianças. Dados do Cenário da Infância e da Adolescência de 2026, publicação da Fundação Abrinq, em 2024, 15,4 milhões viviam em estado de pobreza e 5,5 milhões em pobreza extrema, dessas últimas 1,5 milhão são brancas e 4 milhões são negras. Os índices de pobreza estão profundamente ligados à desnutrição, falta de desenvolvimento social e educacional.

em 2025 foram resgatadas mais de 4,3 mil crianças em situação de trabalho infantil maior número da década.

Nos dois primeiros anos do Governo Tarcísio de Freitas o número de assassinatos de crianças e adolescentes mais que dobraram. 1 em cada 3 mortes violentas de crianças em São Paulo são em decorrência da ação policial.

O 20o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 aponta que embora as mortes violentas de crianças tenha reduzido em 10,8%, as mortes causadas por ações policiais cresceram. Em 2025 foram 428 crianças e adolescentes mortos por intervenção policial.

a escala 6x1, escravidão assalariada, extrai tudo que pode das mães e dos pais, que chegam em casa exaustos e não conseguem sequer brincar com seus filhos, ensinar-lhes a lição ou conversar. Para os filhos que choram, a saída é entregar o celular na mão para que se distraiam com alguma coisa. Enquanto para as mães e pais que choram diante do cansaço e da incerteza se conseguirão alimentar seus filhos, a saída é depositar em Deus e nos jogos de azar a possibilidade de um futuro melhor.

pense nas crianças mudas telepáticas

O trecho da canção "Rosa de Hiroshima" escrita por Vinícius De Moraes, com melodia Gerson Conrad e eternizada na voz de Ney Matogrosso, relata as consequências do ataque nuclear feito pelos Estados Unidos ao povo de Hiroshima e Nagasaki, no Japão. As crianças ficaram mudas pelo trauma, pelos ferimentos e pelas mortes.

O imperialismo segue deixando crianças mudas e telepáticas. Na Palestina, Israel já matou ou feriu mais de 64 mil crianças. Em fevereiro deste ano os Estados Unidos bombardearam uma escola iraniana. Já são mais de 3 mil vítimas infantis da guerra da Ucrânia e da Rússia. O sistema capitalista apodrecido odeia nossas crianças.

contabilizando o tempo de leitura desse texto até aqui, cerca de 20 crianças morreram de fome no mundo.

emergência!

um choque rápido ou o futuro morre de infarto! Não é preciso ser doutor para saber que a maneira mais simples de exterminar um povo é matando suas crianças. O modo mais rápido, também, de esvaziar a alma de uma classe é acabando com sua cultura e com sua infância. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias? Simples! Basta injetar um pouco de energia na juventude e estimular o que ainda resta de fertilidade na alma do povo trabalhador.

é hora do enfrentamento. Enfrentar quem ousa envenenar nossas crianças com dopamina barata, quem ousa matar nossas crianças de fome, de bala ou de doença. Que tal apresentar novas brincadeiras para uma criança que você conhece, como amarelinha, pipa, bolinha de gude ou esconde-esconde? Que tal ter mais paciência com os por quês e gastar mais tempo com os abraços?

mas isso não é o suficiente. É preciso reduzir a jornada de trabalho. Aumentar o salário mínimo. É preciso mais investimento na saúde e educação públicas. É preciso que os alimentos produzidos no Brasil sirvam para alimentar o povo antes de exportar. É preciso se revoltar, se organizar e derrubar o sistema capitalista e o imperialismo.

É hora da mudança,

Pelo direito de ser,

brincar,

comer,

desenvolver e

continuar sendo.

Vai começar a greve das crianças!

Brasil. 2026.

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