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Emicida: 'Uma das características mais tristes do Brasil é a comoditização da vida humana'

Em entrevista ao 'Estadão', o rapper fala sobre seu mais recente álbum, inspirado na obra de Racionais MC's, e reflete sobre fatos que já deveriam ter mudado na sociedade, como o preconceito; ele se apresenta neste sábado, 12, no Coala Festival, em São Paulo

11 set 2026 - 18h24
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Resumo
Atração do Coala Festival, Emicida lança o álbum "Emicida Racionais VL2 - Mesmas Cores & Valores", inspirado no grupo Racionais MC's. O projeto une o resgate de suas origens à crítica social atual, denunciando o racismo e a "comoditização da vida humana". O rapper defende a expansão do hip-hop para além do circuito underground com dignidade financeira, exalta o fator humano frente à inteligência artificial e destaca parcerias com ícones como Alaíde Costa e Caetano Veloso.

Quem subirá ao palco do Coala Festival neste sábado, 12, no Memorial da América Latina, será o Emicida do "Velho Testamento", como observam os fãs do rapper em relação ao novo álbum lançado por ele, Emicida Racionais VL2 - Mesmas Cores & Valores, o sucessor do bem-sucedido AmarElo. O projeto é inspirado por Cores & Valores, dos Racionais MC's, de 2014. O grupo de Mano Brown é um dos ídolos de Emicida.

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"Eu me considero hoje muito melhor do que no começo, 20 anos atrás [risos]. Por outro lado, este trabalho carrega, sim, uma dimensão de resgatar sentimentos que eu experimentei ao tomar contato com a cultura hip-hop, de ouvir Racionais, meus ídolos, que eu ainda não conhecia pessoalmente, mas pareciam falar comigo em suas letras, me ensinavam, me faziam pensar", diz Emicida em entrevista respondida por e-mail ao Estadão.

Ao mesmo tempo em que, nesse sentido, o álbum do rapper olha um pouco para o retrovisor, ele também está de olho no presente. E constata que muita coisa ainda não mudou. Para isso, estabelece uma continuação em faixas como A Mesma Praça, motivada por A Praça, dos Racionais.

As duas trazem a mesma denúncia: a falta de espaço e de entendimento para com a cultura do hip-hop. "A dimensão mais frustrante disso muitas vezes é a crescente sensação de 'tanto faz' em muita gente. Uma das características mais tristes do Brasil é a comoditização da vida humana", reflete o rapper.

Emicida quer estar em todos os lugares. Ou melhor, escolher entre eles. É parceiro de Caetano Veloso, finaliza o último álbum da trilogia que produziu para a cantora Alaíde Costa e dialoga com MCs Brasil afora. Ele também rechaça o pensamento de que o gênero do qual se tornou um dos principais representantes no País precise ficar sempre à margem do mercado.

"A troco de que algo precisa soar underground para sempre? O que eu busco, e imagino que muitos artistas também, é a possibilidade de atuar com estrutura, condições dignas e liberdade, autonomia, podendo ser remunerado e remunerar bem toda a cadeia ao meu redor", reflete.

'Cores & Valores' foi lançado há 12 anos — uma 'eternidade' em relação a como a música mudou em uma década. Temos, atualmente, a IA criando e, em 2025, deu o que falar o fato de nenhuma música de hip hop constar da lista da Billboard pela primeira vez após 35 anos. Você e os Racionais ajudaram a pavimentar e divulgar o gênero aqui no Brasil. Além da motivação pessoal, por que é importante retomar o universo desse álbum dos Racionais?

Eu acho que a motivação pessoal já seria suficiente [risos]. Eu obviamente adoro este disco, adorei desde quando foi lançado e acho que ele foi um pouco subestimado. Muita gente não entendeu de cara a grandeza dele. E penso que é aí que tudo se torna maior do que o meu gosto em si. Porque estamos falando de artistas que têm importância histórica na formação deste País, que, para mim, precisam ser entendidos na mesma chave de nomes como Lélia Gonzalez, Milton Santos e Sueli Carneiro, por exemplo. Quando você cita a IA, e essa é uma briga que comprei no meu disco e no espetáculo, eu penso na importância de exaltar o que a inteligência artificial não é capaz de criar, e aqui eu me garanto, Racionais se garante. Se a minha música vai para o topo das paradas, é algo que foge ao meu controle, mas não seria isso a me trazer isoladamente mais orgulho da minha obra ou a me trazer mais preocupação. O que me motiva a essa altura da minha construção artística é a possibilidade de encontrar novos caminhos, que me preencham com a mesma empolgação do início da minha carreira, como este de propor um novo olhar para uma obra tão significativa para mim.

Muitos apontam esse álbum como uma volta sua ao começo. É isso mesmo?

Eu vi muitos comentários falando em "Emicida do Velho Testamento", que acho divertido até, sei que é elogioso, e consigo entender um pouco de onde isso vem, mas eu me considero hoje muito melhor do que no começo, 20 anos atrás [risos]. Por outro lado, este trabalho carrega, sim, uma dimensão de resgatar sentimentos que eu experimentei ao tomar contato com a cultura hip hop, de ouvir Racionais, meus ídolos, que eu ainda não conhecia pessoalmente, mas pareciam falar comigo em suas letras, me ensinavam, me faziam pensar. Foram seis anos entre o AmarElo e este trabalho. Muita coisa aconteceu, inclusive na indústria da música, e eu sou alguém que está sempre pensando sobre isso, sobre o futuro. E não tem como se aprofundar nesta reflexão sem olhar também para o passado.

Em 'A Mesma Praça', em relação a 'A Praça dos Racionais', você mostra que algumas questões não mudaram tanto assim na sociedade — "30 mil George Floyd em potencial", diz a letra. Qual tipo de sentimento te dá ao constatar isso, a ponto de ter que fazer uma música para expor, mais uma vez, a violência contra uma parcela específica da população?

É frustrante perceber que evoluímos tão pouco como sociedade a ponto de não conseguirmos localizar no tempo com precisão algo que deveria ter ficado no passado. E a dimensão mais frustrante disso muitas vezes é a crescente sensação de que tanto faz em muita gente. Uma das características mais tristes do Brasil é a comoditização da vida humana. Temos um longo caminho pela frente até poder tornar isso o que deveria ser: um passado superado.

Uma das análises é a de que o hip hop atual carece de posicionamento político. O hip hop nasceu com essa vocação. Ele deixou realmente de ter esse papel, em geral? E mais: é fundamental que o mantenha?

Eu entendo o hip hop como um movimento que se baseia em valores como cultura e comunidade, é isso que faz com que ele se renove, sua beleza está no coletivo. E isso vai passar também por ser um retrato do próprio tempo. Não concordo com esta ideia de esvaziamento. Tenho rodado o Brasil com o show da turnê e feito questão de encontrar com MC's locais, o pessoal das batalhas, a essência do hip hop segue mais viva do que nunca. Mas, claro, tudo é também uma questão de para onde estamos olhando. Claro que a indústria se aproveita disso e aí emergem artistas que podem emular a música rap, até porque com a IA isso ficou muito mais fácil. Mas são produtos completamente descolados deste sentido de movimento e coletividade. São apenas isso: novos produtos.

A canção 'Mesmas Cores & Mesmos Valores' abre com a voz de sua mãe, Dona Jacira. Ela diz algo extremamente forte e bonito: "Deixa as daninhas lá por enquanto, porque com esse calor a daninha protege a terra". Ela se referia às plantas. É possível aplicar esse conceito fora da jardinagem?

Cada uma das frases que escolhi para compor essa homenagem tem justamente essa dupla interpretação, é proposital. A erva daninha pode ser aquele problema difícil, que você ainda não conseguiu resolver, mas que acaba sendo o responsável por você ter evoluído tanto. As ervas daninhas, como hoje sabemos, são cruciais para a agricultura.

Há uma questão importante: qualquer música, inclusive as latinas (ou cantadas em espanhol) que, dizem, agora encontraram espaço na indústria, ainda precisa passar pela chancela do mercado americano. Isso faz com que qualquer gênero perca seu caráter underground logo de cara. Como resolver isso, ou a música não precisa ser necessariamente underground?

Eu não acho que isso seja uma questão. A troco de que algo precisa soar underground para sempre? O que eu busco, e imagino que muitos artistas também, é a possibilidade de atuar com estrutura, condições dignas e liberdade, autonomia, podendo ser remunerado e remunerar bem toda a cadeia ao meu redor. Penso que, conforme o mundo muda, deixa de fazer sentido discutir certos conceitos com os mesmos pilares de dez, 15 anos atrás. É mais profundo do que isso. Tivemos recentemente o exemplo do Bad Bunny, que sequer passou pelos EUA com sua turnê, e fez um sucesso estrondoso. Para além dessa chancela do mercado estadunidense, em setembro de 2026, eu estou pensando em como atuar no Brasil de maneira viável economicamente, tanto para mim enquanto artista quanto para o público, em um País assolado por questões como o vício em apostas, com a crise climática etc.

Caetano Veloso foi fundamental para validar os Racionais MC's para uma parcela de ouvintes. Você também tem proximidade com o Caetano. No seu caso, essa relação o ajudou de alguma maneira?

Caetano sempre foi uma inspiração, um grande mestre e, depois de conhecê-lo, um amigo, um camarada da música, irmão de som. Foi um dos primeiros grandes artistas do País a reconhecer o valor do que eu estava tentando construir, e jamais esquecerei isso. Quando mostrei um som que fizemos sampleando uma música dele, estava apreensivo pensando que ele pudesse não gostar. Ele sorriu e se emocionou, lembrando da sessão de gravação. Desde então, essa relação tem sido um presente em minha vida.

Um ponto de conflito histórico entre o hip hop e o Estado sempre foi a busca por espaço, ou seja, onde o movimento poderia estar além de seu território de origem. Você esteve no Theatro Municipal de São Paulo celebrando o sucesso de 'AmarElo', cantou no Sesc Pinheiros com todos levantando das poltronas nos primeiros minutos de show e está em todos os principais festivais. Para você, essa é uma questão já pacificada?

Muito além desta ou daquela casa de shows, por mais emblemáticas que sejam, eu tenho plena convicção de que o hip hop tem muito a contribuir em muitas outras esferas, como a educação. Ele deveria estar mais presente no ambiente acadêmico, inclusive. Está aqui o Emicida doutor honoris causa para exemplificar isso [risos]. Racionais também, aliás. Mas não há nada de pacificado quando vemos semanalmente a rapaziada das batalhas de rima lutando para manter seus espaços, por vezes tendo seus eventos interrompidos pelo poder público ou não recebendo nenhum incentivo para a manifestação cultural que fomentam.

'Passarinhos' talvez tenha sido a sua música que realmente "furou a bolha" — virou tema de novela e muita gente a usa como trilha de reels no Instagram. Como você lida com a questão de fazer sucesso? Você chega a pensar uma canção para isso ou faz apenas o que é necessário para o momento e para o seu coração?

Eu adoro Passarinhos, que bom que ainda toca as pessoas. Elas me contam histórias ótimas com a música e sua importância na vida delas. Não tenho nenhum dilema com o sucesso, acho uma preocupação quase ingênua a de que o êxito poderia talvez corromper a essência, por exemplo. Modéstia à parte, confio muito na minha entrega e na qualidade da minha construção. Se tem uma coisa que esses 20 anos me ensinaram foi que a forma como a música vai bater no coração das pessoas é imprevisível. Nunca fiz nada pensando em chegar no topo das paradas, mas já lancei discos imaginando que a preferida do público seria "x" e foi "y", e eu espero que isso nunca deixe de acontecer. É a magia da música, é maravilhoso.

O sucesso já lhe trouxe algum dissabor?

Meus parâmetros de sucesso são bastante específicos. Poder levar minhas filhas na escola faz com que eu me sinta bem-sucedido. O resto é só trabalho, tem dias bons e dias ruins. Ser artista é da hora, mas ser pai é transcendental.

Gostaria de perguntar sobre Alaíde Costa. Vocês estão fechando a trilogia de álbuns que estão fazendo juntos. Muito tem se falado sobre ela, que vem recebendo um reconhecimento merecido — ainda que tardio. Queria que você dissesse o que aprendeu ou percebeu sobre essa mulher tão importante para a música brasileira.

Eu estou literalmente com ela no estúdio enquanto te respondo. Poder conviver com Alaíde e trabalhar com ela é uma das maiores honras da minha vida. É sempre uma aula, de técnica, de entrega apaixonada à arte da música. A delicadeza dela, que é também um sinal de sua imensa força, sempre arrebata a todos nós. A reverência da música brasileira a ela e algo que me dá muita esperança e ver novas gerações a escutando e a fazendo sentir sua importância em vida é revigorante. O Brasil pode ser muito cruel com seus gigantes. Tenho a alegria de poder ser útil na correção de uma partezinha desse equívoco histórico. Não tive a chance de ir ao estúdio com Johnny Alf, outro ídolo, mas, junto com Alaíde, tive a honra de participar de uma composição que ela fez em homenagem a ele. O novo disco dela está fantástico e se você fizer uma matéria sobre ela vai nos ajudar a mostrar essa beleza toda pro mundo.

  • Coala Festival
  • Com Maria Bethânia, Emicida, Tom Zé, Rubel, Criolo, Marcos Valle, Ana Frango Elétrico e outros.
  • 12 e 13/9, 12h.
  • Memorial da América Latina. Av. Mário de Andrade, 664, Barra Funda.
Estadão
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