Em tempos de celulares erguidos, Supla ainda conquista olhos voltados para o palco
Divulgando o álbum Nada Foi em Vão na Casa Rockambole, cantor entrega performance energética, vai de Beatles a Harry Styles e encerra a noite ao lado do pai Eduardo Suplicy cantando Bob Dylan
Em tempos em que boa parte dos shows parece travar uma disputa constante com as telas dos celulares, uma apresentação de Supla ainda guarda algo cada vez mais raro: a sensação de que as pessoas estão ali para assistir ao artista "a olho nu". Claro que os aparelhos aparecem aqui e ali — seria impossível esperar o contrário em 2026 —, mas em quantidade muito menor do que se vê em apresentações de outros artistas por aí. O que se vê na plateia é um público disposto a participar, cantar, rir e interagir.
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Talvez esteja aí um dos segredos para que seus shows continuem tão divertidos. Supla constrói uma conexão direta com quem está à sua frente. Olho no olho mesmo. Não existe distância entre palco e plateia. O cantor conversa, brinca, provoca, incita e transforma cada música em uma experiência coletiva. Na noite desta sexta-feira (5), na Casa Rockambole, em São Paulo, essa relação ficou evidente do início ao fim.
O show teve como principal objetivo apresentar as canções de Nada Foi em Vão, seu novo álbum com os Punks de Boutique. O próprio cantor justificou a apresentação ao público: apesar de ter feito participações em festivais, shows menores e apresentações abrindo para outros artistas, ainda não havia realizado um show próprio para celebrar o novo trabalho. E, segundo ele, seus fãs mereciam esse encontro.
Mesmo diante de músicas ainda pouco conhecidas, a resposta foi imediata. Antes de uma das novidades, Supla avisou em tom de brincadeira: "Música nova. Se eu esquecer a letra, me perdoem". Não foi preciso pedir compreensão. A energia permaneceu alta durante toda a apresentação.
Uma sequência formada por "Mama's Boy", "Fofoqueira" e "Queixo Novo" mostrou como o artista consegue transformar canções recém-lançadas em momentos empolgantes. Mesmo sem dominar as letras completas, o público embarcava na performance do chamado "Billy Idol brasileiro", divertindo-se tanto com as composições quanto com sua entrega física no palco.
E os shows de Supla nunca se resumem apenas às músicas. Existe sempre algum elemento inesperado. Em "Ratazana de iPhone", por exemplo, uma figura usando máscara de rato circula "roubando" os celulares daqueles que estão filmando. Nada agressivo ou proibitivo; apenas uma brincadeira que reforça o caráter teatral da apresentação e mostra como o cantor busca fugir da previsibilidade.
Outro momento marcante veio com "Goth Girl From East LA". Empunhando uma cruz enquanto uma garota com visual de zumbi dividia a cena com ele, Supla transformou a música em uma pequena performance de terror e estética punk.
Mas se o novo álbum ocupa espaço importante no repertório, as homenagens aos ídolos continuam sendo parte fundamental da identidade do cantor. E poucas figuras do rock brasileiro assumem suas influências de forma tão transparente.
As versões apresentadas durante a noite arrancaram reações entusiasmadas. "Dancing With Myself" reforçou a inevitável associação com Billy Idol. Já "Be My Baby", clássico das The Ronettes, ganhou roupagem punk, enquanto "Raindrops Keep Fallin' on My Head", eternizada por B. J. Thomas, apareceu em versão surpreendente. Também houve espaço para suas versões punk de "As It Was", de Harry Styles, e para "Imagine", de John Lennon, marcas registradas de suas apresentações..
Os Beatles, porém, seguem ocupando um lugar especial no coração de Supla. Não por acaso, músicas como "Twist and Shout", "She Loves You" e "Let It Be" estão ao longo do setlist. Quem acompanhou seu show dedicado exclusivamente ao quarteto de Liverpool no Blue Note em 2024 sabe que essa paixão não é exatamente uma novidade.
Em determinado momento, ele ainda assumiu a bateria para uma espécie de versão punk de Ringo Starr, conduzindo "I Wanna Be Your Man" diante de uma plateia que acompanhava cada movimento com entusiasmo.
A lista de referências não para por aí. David Bowie, Rolling Stones e Ramones também marcaram presença. Durante "Beat on the Brat", uma frase ouvida no meio da plateia sintetizou o espírito do momento: "Jamais imaginei que ouviria outra pessoa cantando essa música que não fossem os Ramones".
Enquanto isso, os sucessos próprios continuavam garantindo os momentos de maior identificação coletiva. "Livre", talvez o principal destaque de Nada Foi em Vão, teve seu refrão cantado em uníssono pela Casa Rockambole. Mas clássicos como "Charada Brasileiro", "Humanos", "Garota de Berlim", "Japa Girl" e "São Paulo" também incendiaram o público.
Quando o show parecia encerrado após pouco mais de 2 horas de apresentação, veio o momento mais inesperado da noite. Após a despedida de Supla, parte do público começou a pedir pela presença de Eduardo Suplicy no palco. Aos 84 anos, o político atendeu ao chamado dos presentes e desceu do balcão.
Suplicy falou durante alguns minutos sobre renda básica, e quando o filho tentou interrompê-lo, este recebeu da plateia uma resposta clara: "Deixa ele falar!". Coube a Supla respeitar os "2 minutos" que o pai pediu. Durante o discurso, Supla distribuía exemplares do livro do pai ao público, que testemunhou um encerramento emocionante: Suplicy cantando "Blowin' in the Wind", de Bob Dylan.
Foi um daqueles finais impossíveis de imaginar. Um momento que misturou política, música, afeto familiar e uma inesperada celebração coletiva. Beatles, punk rock, Harry Styles, Ramones, Bob Dylan, performance de uma ratazana roubando celulares e Eduardo Suplicy discursando sobre renda básica. Em qualquer outro contexto, a combinação seria absurda. Em um show de Supla, faz todo sentido. E talvez seja justamente por isso que suas apresentações continuem tão únicas, vibrantes e envolventes para a plateia, que pode afirmar: só quem viveu sabe.
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