'Elis 73' é remasterizado 53 anos depois e chega às plataformas com nova mixagem
João Marcello Bôscoli e o engenheiro Ricardo Camera levaram quase dois anos para restaurar um dos discos mais densos da discografia de Elis Regina — e o resultado é a escuta mais nítida já alcançada do álbum
Mais de meio século depois de ser gravado, Elis 73 soa como nunca. O álbum que Elis Regina lançou em 1973 pela Phonogram, aos 27 anos, em um dos momentos mais introspectivos da carreira, acaba de ganhar uma nova mixagem assinada pelo produtor João Marcello Bôscoli, filho da cantora, e pelo engenheiro de som Ricardo Camera, vencedor de três Grammys em 2025. O relançamento, com suporte da Universal Music Brasil, chega com tecnologia Dolby Atmos e oferece a escuta mais próxima do que seria um álbum de Elis Regina gravado hoje.
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O trabalho levou quase dois anos para ser concluído, em razão dos problemas que Bôscoli e Camera encontraram ao abrir as faixas originais. A captação dos instrumentos foi feita em apenas oito canais, com a bateria registrada por um único microfone. O resultado era um vazamento constante para as faixas do piano, gerando ruídos que comprometiam toda a audição. "Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos", explica Camera em comunicado oficial. Para João Marcello, a restauração era uma questão pessoal: fãs o procuravam há anos para apontar o mesmo problema que ele próprio via no disco. "Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho", diz.
O processo respeitou integralmente as intenções artísticas originais — nenhuma nota foi alterada, nenhuma decisão de Elis ou do diretor musical Cesar Camargo Mariano, então marido da cantora, foi tocada. O que mudou foi a transparência do som. A voz de Elis ganha profundidade e se posiciona mais à frente na mixagem, enquanto detalhes dos arranjos que antes se perdiam no embaçamento original emergem com clareza. A tecnologia Dolby Atmos cria um palco sonoro imaginário, com cada instrumento ocupando uma posição específica ao redor do ouvinte. "Respeitamos a ideia da gravação original e fizemos a voz de Elis sair de dentro da cabeça de quem a ouve para torná-la ainda mais confidente", descreve Camera.
Elis 73 é um disco de escolhas pesadas. Depois de ter gravado "Águas de Março" e "Casa no Campo" no ano anterior, a cantora mergulhou num repertório denso, dominado por composições de Gilberto Gil — "Oriente", "Meio de Campo", "Ladeira da Preguiça" e "Doente, Morena", em parceria com Duda Machado — e da dupla João Bosco e Aldir Blanc, responsáveis por "Agnus Sei", "Cabaré", "Comadre" e "O Caçador de Esmeralda". As exceções que escapam do peso do repertório — o samba lento "É com Esse Que Eu Vou", de Pedro Caetano, e a clássica "Folhas Secas", de Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito" — acabaram se tornando alguns dos momentos mais celebrados do disco.
À época do lançamento, parte da crítica considerou a interpretação de Elis fria demais — opinião que João Marcello descarta com poucas palavras. Mas a hipótese de que o embaçamento do áudio original tenha contribuído para essa percepção é, ao menos, razoável. Com a nova mixagem, o que se ouve é uma Elis que entrega cada faixa com a intensidade de sempre — só que agora sem o véu que a cobria há 53 anos. Até o final de 2026, o relançamento também chegará em LP. É o mínimo que a discografia da maior voz da música popular brasileira merecia.