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Ed Motta: 'Um artista que não é ansioso e egocêntrico não é um artista'

Em entrevista ao 'Estadão', o cantor fala sobre 'Toc-Toc', seu novo trabalho, e afirma que gosta de estar nas manchetes de jornais e revistas. 'Eu tenho que ser a capa, sempre!'

3 out 2026 - 19h07
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Resumo
Ed Motta lançou Toc-Toc, seu 15º álbum e o primeiro em português após 13 anos. Produzido com Michel Limma e lançado pelo selo alemão MPS, o trabalho une pop, electrofunk e jazz, trazendo letras compostas com sua esposa, Edna Lopes. O artista, que celebra o bom acolhimento do projeto após polêmicas recentes, defendeu que a ansiedade e o egocentrismo são essenciais à arte, destacou sua busca pela liberdade criativa e reafirmou seu foco exclusivo na música em detrimento de outros temas cotidianos.

"Eu achava que não ia gravar em português nunca mais", afirma Ed Motta, que acaba de lançar Toc-Toc, seu 15º álbum de carreira e o primeiro com canções em sua língua nativa em 13 anos. "Fiz por questões estéticas", complementa o cantor, compositor e multi-instrumentista carioca de 55 anos.

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"O poder de síntese não me estava sendo concedido. Não conseguia fazer músicas com esse formato popular há muito tempo", justifica para a 'demora'. Tudo estava em pastas — na sua cabeça e no celular. Uma delas, no aparelho, tem o nome de 'metida a MPB'. Outra, de jazz.

Dessa vez, a que se abriu com mais vontade foi a do pop. "Quando apareceram essas músicas nessa formatação, eu pensei: 'Isso vai ser um petardo. O pessoal não vai acreditar que estou fazendo essas músicas novamente, e em português'. Fiquei ansioso para realizar isso", diz.

Ansiedade que Motta conjuga com egocentrismo. "Um artista que não é ansioso e egocêntrico não é um artista", diz. Características que ele garante que nunca o prejudicaram na carreira, iniciada em 1988 com o álbum Ed Motta & Conexão Japeri, o qual tem Manuel, seu primeiro grande sucesso. "O que me atrapalha é a falta de dinheiro. Falta de pragmatismo para ganhá-lo", reflete, com seu humor tijucano.

Lançado pelo selo alemão MPS, com o qual Motta tem feito seus trabalhos nos últimos anos, Toc-Toc não é um álbum apenas pop. Ou não tão pop quanto seus álbuns Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins (1997), As Segundas Intenções do Manual (2000) e até mesmo Piquenique (2009). Tem batidas eletrônicas, inspira-se no electrofunk dos anos 1980 e na soul music brasileira, mas também vai para o jazz. Só não é tão "barroco", para usar uma expressão de Motta, quanto seu disco anterior, Behind the Tea Chronicles, de 2023.

Estar em uma gravadora europeia, segundo Motta, o salva de ter que seguir conselhos e sugestões "esdrúxulos" de executivos brasileiros sobre o que fazer em seu trabalho, entre eles, como gravar com determinado músico ou produtor, regravar canções ou se dedicar a tributos. Um deles ele ouve desde o início de carreira: cantar Tim Maia (1942-1988), seu tio. Com isso, ganha liberdade.

Feito praticamente por Motta e pelo produtor Michel Limma, que gravaram a maioria dos instrumentos, o álbum tem 11 faixas - dez com letras assinadas por Edna Lopes, mulher de Motta. Leoni é o parceiro em Glamour Hotel, canção feita há 30 anos e só lançada agora. Sobre a parceria com Edna, o músico diz que tudo é feito entre concordâncias e discordâncias — às vezes briga —, para, depois, terminar em uma taça de vinho. A bebida, nunca antes. "Não bebo em serviço. Vinho é para lazer. Ele não me inspira."

Compor com Edna também o livra de ter que se encontrar com outros parceiros. Quando compôs com Rita Lee (1947-2023) — duas delas, Fora da Lei e Colombina, viraram grandes êxitos —, foi à distância. Motta se esgueira só de ouvir falar em campings de composição, algo muito comum atualmente, quando uma turma de compositores se reúne para criar hits.

"Meu Deus do céu! Que falta de cortar uma cebola bem fininha!", reage. "Eu não acredito no camping nem para fazer um churrasco. Para mim, algo que tenha um número grande de pessoas já vira confusão. Compor nessa suruba opinativa é muito esquisito. Hippie pra caramba. É a vontade de transformar a vida em uma colônia de férias."

Felicidade, mar e patinete

Eu Quero Ser Feliz é o nome de uma das faixas de Toc-Toc. "Estou feliz pra valer" e "aproveitar o deslumbre" são frases que aparecem nas canções. "É uma dose forte de Prozac. Um tarja preta", diz Motta sobre o álbum, comparando-o a um medicamento antidepressivo. A propósito, é nos medicamentos que ele acredita, não em terapia. "O processo é químico. Não quero jogar luz em nada que está escuro."

Motta diz que esse sentimento de felicidade foi o que as músicas pediram. Um contemplativo festivo, ele define. Um exemplo disso é Casa de frente pro mar, de inspiração bossa-nova. O músico prefere ligá-la ao pagode dos anos 1990. Ou a um samba estilizado.

Recentemente, ele elogiou os cantores Belo e Péricles, dois nomes ligados ao pagode que se apresentaram no Rock in Rio 2024. "Eu sempre disse que o Exaltasamba (ex-grupo de Péricles) era o Earth, Wind & Fire brasileiro. Supercompetentes."

A Marina Acende, já gravada anteriormente em versão instrumental pela cantora e pianista Carol Saboya com o título de Patinete, é uma homenagem ao músico João Donato (1934-2023). A letra fala em um tal "patinete de acender", uma atualização do "baurete", apelido que Tim Maia deu ao cigarro de maconha. Motta afirma que não fuma. "Nunca nem experimentei. Não sei nem como é que é. A fumaça atrapalha a degustação de vinho."

Além de Marina, há outras duas mulheres nas músicas do disco, Beth e Silvia. "Mulheres me influenciam muito", diz Motta. Ele lista as pianistas Geri Allen (1957-2017) e Mary Lou Williams (1910-1981), a trombonista Melba Liston (1926-1999), a organista Trudy Pitts (1932-2010) e a saxofonista e cantora Vi Redd (1928-2022). Todas americanas, a maioria instrumentistas.

Nascido no 'País das cantoras', ele diz que essa questão não faz muito a sua cabeça. "A forma de cantar brasileira nunca foi do meu interesse. Sempre fui em cima do canto norte-americano, sobretudo na experiência de ouvinte. O cacoete deles ao cantar, o jeito de tratar a melodia. A voz não é só instrumento para entoar as letras". Para Motta, a brasileira Deise Cipriano (1979-2019), que fez parte do grupo Fat Family, é uma representante dessa forma de cantar. "Ela foi a maior cantora que este País já conheceu", aponta.

Além de nomes da bossa nova que estão em sua conhecida coleção de vinis, como Tom Jobim, Carlos Lyra, Johnny Alf e Nara Leão, admira, do pós-bossa, Chico Buarque e Edu Lobo. Prefere a música harmônica à rítmica.

De braços abertos

Ele se diz surpreso com a recepção de Toc-Toc. "Fico igual a um louco acompanhando os números [métricas], como se isso fosse mudar alguma coisa (risos)". Ele analisa: "O ser humano gosta de acompanhar as coisas por uma pseudoinformação, para ter a ideia de estar informado. E essa sensação de que algo vai mudar. 'O que eu posso fazer para mudar isso?'. Nada."

Motta diz ter zero interesse fora da arte. Afirma não saber nada do que ocorre na política brasileira ou mundial. "Se quiserem conversar comigo sobre a geopolítica mundial, eu poderia falar sobre os discos de John Coltrane. Não tenho interesse sobre aquilo que não posso controlar. A música eu controlo". Ele vai adiante. "A estética não me interessa, é chata. Aquele monte de gente de paletó cinza e azul, com camisa branca. Só de olhar eu penso: 'Não quero saber o que essa gente tem a dizer'."

O espanto de Motta com a acolhida de Toc-Toc também se justifica pelo fato de um episódio ocorrido em maio deste ano ter exposto o cantor em uma cena de violência em um restaurante do Rio de Janeiro. Irritado por conta da cobrança da taxa de rolha do vinho que bebeu com amigos, ele arremessou uma cadeira longe. Dias depois, um áudio mostrou que ele se referiu a um funcionário do restaurante com o termo xenofóbico 'paraíba'.

Motta quer deixar o episódio que chama de "fatalidade" no passado. Alega que, por ter uma vida pública, qualquer coisa que faça tem uma amplificação muito maior.

O músico foi abraçado logo em seguida pelo público, quando fez um show no Circo Voador, no Rio, pouco menos de um mês depois da confusão no restaurante. O tradicional espaço no bairro da Lapa estava lotado. Durante o show, alguém jogou uma rolha de vinho no palco.

"Se eu não tivesse pego aquela rolha, não teria havido matéria. No fundo, eu gosto da confusão. Claro que gosto do fuzuê. Leonino, né? Contanto que eu esteja nas manchetes, está bom demais (risos). Que eu seja manchete, seja lá como for. Eu tenho que ser a capa, sempre! Fico feliz com meu nome no jornal, na revista. Até hoje, quando eu vejo 'Ed Motta', eu falo: 'Ah, danado! Você sabe de tudo mesmo!'". Ele confessa que, na primeira vez que isso ocorreu, chorou.

Por egocentrismo ou influência astrológica, Motta diz que, desde muito cedo, já sabia que se destacaria na música. Quando era garoto, dizia no colégio para os colegas que ficaria conhecido, e que todo o País cantaria Vamos Dançar, que tem o verso "eu não nasci pra trabalho".

"A dúvida não existe na minha vida. Se eu vou a um restaurante, nunca tem 'será como esse ou outro prato?'. Sou guiado muito rápido para a solução. É dessa forma que faço minhas músicas. É uma obediência à espontaneidade."

Estadão
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