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Deekapz fala à RS sobre carreira, colaborações e futuro: 'A síntese do projeto sempre foi quebrar o gênero musical'

Duo de eletrônica abre shows para Kaytranada no próximo final de semana e para BK' em setembro

13 ago 2026 - 14h23
(atualizado às 14h34)
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O duo brasileiro de eletrônica e produção musical Deekapz, formado por Matheus Henrique e Paulo Vitor, vive um ponto alto de sua carreira. Após mais de uma década de projetos ao lado de artistas de diferentes gerações e estilos, eles se preparam para abrir shows de dois grandes nomes da música: do DJ e produtor haitiano-canadense Kaytranada e do rapper brasileiro BK'. 

Deekapz, formado por Matheus Henrique e Paulo Vitor
Deekapz, formado por Matheus Henrique e Paulo Vitor
Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

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A sequência começa nesta sexta, 14 de agosto, quando Deekapz sobe ao palco do Komplexo Tempo, em São Paulo, para abrir o retorno de Kaytranada ao Brasil. No dia 15, a dupla volta a dividir a programação com o canadense no Armazém da Utopia, no Rio de Janeiro. "Nós somos fãs dele desde 2012, 2011, e carregamos uma forte influência [do seu trabalho]", afirmou Paulo em entrevista à Rolling Stone Brasil.

Em 19 de setembro, Deekapz também participa da abertura do maior show da carreira de BK', em celebração aos 10 anos do álbum Castelos & Ruínas. A apresentação, que ocorre no Nubank Parque, marca o primeiro show solo de um rapper brasileiro em um estádio. 

O Deekapz já colaborou com BK' na faixa "Você Pode Ir Além", do álbum de 2025 Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer. "[A oportunidade de abrir o show] nos representa muito porque o rap é um gênero oriundo da periferia, do lugar onde a gente veio. É muito foda saber que um artista brasileiro consegue fazer esse tipo de espetáculo, e que nós estamos lá fazendo parte desse line", celebrou Paulo.

Os convites são um reflexo direto do trabalho eclético e colaborativo do Deekapz, que vem transitando com naturalidade entre diferentes circuitos da música brasileira. 

Nascidos em Campinas, no interior de São Paulo, Matheus e Paulo estão juntos na cena independente desde 2014, e iniciaram a carreira nas pistas de dança. Mesclando música eletrônica com ritmos brasileiros como funk, rap, R&B e samba, o som da dupla não é preso a uma fórmula: a constante pesquisa e experimentação musical é justamente o que os define. 

Depois de uma sequência de EPs e singles ao longo dos anos, Deekapz lançou em 2025 seu primeiro álbum de estúdio, Deekapz FM. O disco foi pensado como uma estação de rádio independente, em que cada faixa funciona como uma frequência diferente, e reuniu artistas como Criolo, Urias, Fat Family, Tuyo e Luccas Carlos.

Em 2026, o duo expandiu ainda mais o universo do projeto com o Deekapz FM - Remixes, convidando produtores da nova geração da música eletrônica brasileira para reinterpretar as faixas do disco original. Em entrevista à RS, Deekapz dissecou seus projetos autorais, colaborações ao longo da última década e próximos shows aguardados.

Vocês estão juntos desde 2014, desde lá pra cá, muita coisa mudou. Como vocês conseguem manter a sintonia no trabalho ao longo dos anos?

Matheus Henrique: A gente está junto toda semana, costumamos nos encontrar bastante no estúdio pra tocar, e tocar junto faz a gente se conectar bastante. É um resultado da amizade que a gente foi construindo durante os anos.

Paulo Vitor: São 12 anos já de projeto. Assim como qualquer outra relação, temos altos e baixos, discussões, desentendimentos, convivência. Mas durante esses 12 anos a gente conseguiu encontrar um método onde temos um espaço confortável, e quem trabalha conosco também. A gente consegue opinar, com muito respeito e humor.

O som de vocês mistura muitos estilos, eletrônica, rap, R&B, funk, e não parece preso a uma fórmula. Como funciona o seu processo de pesquisa musical, e como fazer referências tão distintas conversarem entre si?

PV: Conforme foram passando os anos, nós tivemos a oportunidade de conhecer novos artistas e sonoridades. Desde o começo, a síntese do projeto do Deekapz sempre foi quebrar o gênero musical. A indústria te obriga a rotular um trabalho: 'Ah, isso é funk, isso é house, isso é rap'. E a nossa síntese é brincar com as sonoridades para criar algo não completamente novo, mas do nosso jeito. 

MH: Acaba vindo também muito da nossa pesquisa pessoal. Quando a gente se encontra, o Paulo acaba trazendo referências que ele descobriu recentemente, eu também, a gente fica estudando e analisando o que a gente pode pegar.

Ano passado vocês decidiram lançar seu primeiro álbum de estúdio, o Deekapz FM. O que fez vocês sentirem que era a hora de apostar nesse projeto maior?

PV: Desde o começo do projeto nós tínhamos o sonho de fazer um disco sólido. Nós viemos da cultura do Soundcloud, onde fazia mais sentido lançar singles, EPs, que foi o que a gente fez durante nove anos. Quando [o Deekapz] completou dez anos, a gente aproveitou também essa coincidência, e pensamos em fazer algo mais sólido. 

Foi o momento perfeito para encontrar em estúdio os amigos [que fizemos] durante esses doze anos de trabalho, e realmente desenvolver o Deekapz FM. E está sendo muito legal o resultado, ouvir o feedback das pessoas. É [um disco] totalmente imersivo — uma música se integra com a outra, ele é feito para escutar na íntegra.

O disco reúne diversos artistas, cada um com seus universos musicais próprios. Como foi dividir o espaço com esses nomes e trabalhar juntos sem perder a unidade do projeto?

PV: Nós somos uma plataforma, uma válvula de escape, para que o artista se sinta confortável em experimentar. Essa foi a premissa do Deekapz FM. Tem assuntos que os artistas já têm uma familiaridade — a Urias já tem uma familiaridade com house music — mas outros artistas saíram um pouco da zona de conforto. Numa sociedade onde rola muito esses rótulos, porque a gente precisa vender, foi muito legal usar a plataforma do Deekapz para fazer esse equilíbrio. A gente deixava eles à vontade no estúdio para apresentarem referências, ideias, mas também queríamos ser um escape, fugir um pouco do óbvio, e ir na contramão do que rola na indústria. 

MH: A gente também foi adaptando algumas coisas. O som com o Fat Family, por exemplo, a gente teve uma ideia inicial, e não estava encaixando muito bem, aí a gente foi adaptando. As músicas do Nill, do Criolo, a gente também mudou completamente, então fomos entendendo no meio do caminho com os artistas como achar esse meio termo, para ficar a cara dos dois.

O Deekapz FM Remixes foi uma expansão ainda maior desse universo de colaborações. Como esse projeto ampliou as possibilidades do disco original?

MH: Além da nossa vontade de ter um disco autoral, queríamos muito ter músicas remixadas por outras pessoas. Quando lançamos o disco, pensamos, 'agora é agora, vamos chamar os amigos produtores para botar a mão na massa e remixar'.

PV: Da mesma forma que a gente montou o casting do Deekapz FM, os artistas que foram convidados para remixarem são amigos que nós construímos durante esses 12 anos. Alguns a gente conhecia virtualmente, do Soundcloud, [por meio dos] fóruns que participamos. É legal ver que os amigos que estão nesse elenco vivem de música também. É muito foda pensar que a gente realmente conseguiu e está conseguindo viver do nosso sonho. Foi um arco se fechando.

E é bem legal também ouvir as nossas faixas pela perspectiva dos remixers. Tem essa energia club, a intenção de funcionar na noite, mas cada um conseguiu colocar a sua singularidade.

Esse projeto reforça o quanto vocês prezam pela coletividade contínua no seu trabalho. Quais são os maiores ganhos de construir música de forma coletiva, e como conciliar a liberdade criativa de cada pessoa?

PV: É um dos grandes desafios de um bom produtor. Ser um produtor musical não é somente sobre competência técnica, é saber comunicar com os demais, compartilhar o conhecimento. Essa comunhão que a gente cria e gera por meio da arte [é um dos maiores privilégios que eu tenho].

MH: Engolir o ego, estar disposto a ensinar e a aprender. Acho que é gratificante estar com outras pessoas, e sempre aprendemos muita coisa com outros produtores.

PV: Cada vez mais estamos conseguindo ocupar mais espaços, e também podemos ser um espelho para outras pessoas. Na rotina corrida, a gente acaba esquecendo que estamos inspirando outros criadores, outros produtores. É legal ter esse sentimento e essa responsabilidade.

Vocês têm em breve dois shows como atração de abertura. Primeiro, vem os shows do Kaytranada, no dia 14 em São Paulo e dia 15 no Rio. O trabalho dele também mistura diversos estilos. Como a música de vocês dialoga com o universo dele?

PV: Somos suspeitos para falar, porque nós somos fãs [do Kaytranada] desde 2012, 2011, e carregamos uma forte influência [do seu trabalho]. Nos sentimos muito lisonjeados com o convite. 

Não é a primeira vez que nós trabalhamos junto com ele, já tivemos oportunidades para abrir o DJ set. Mas eu gosto muito de como que a gente consegue flertar: nós temos a nossa característica, seja usando muito o funk, assim como ele usa muito o house e o tecno, mas, de certa forma, anda de mão dada.

MH: Agora que a gente finalmente lançou o nosso disco, estamos pensando em fazer um show mais voltado para isso. A gente acaba bebendo da mesma fonte, então acho vamos conseguir fazer essa "passada de bastão".

Em setembro vocês vão abrir o show do BK, que celebra 10 anos de Castelos e Ruínas e é o primeiro show solo de um rapper brasileiro em um estádio. O que representa fazer parte desse momento?

PV: A gente gosta muito do rap, é uma sonoridade que a gente cresceu escutando. A gente já teve a oportunidade de tocar no Nubank Park, mas é sempre magnífico. São 45 mil pessoas, é um outro tipo de energia. Isso nos representa muito porque o rap é um gênero oriundo da periferia, do lugar onde a gente veio. É muito foda saber que um artista brasileiro consegue fazer esse tipo de espetáculo, e que nós estamos lá fazendo parte desse line.

Dez anos atrás foi um dos movimentos gigantescos do rap nacional. Muitos artistas estavam começando a ganhar mais protagonismo, e o BK' foi um deles. Em 2016, a gente estava começando o nosso projeto e ele lançou Castelos e Ruínas, que é o disco que vai ser apresentado, que também envolve muito esse poder de mentalização. Desde lá atrás a gente já tinha interesse em estar com o BK', pela mensagem, pelo discurso, pela sonoridade. Há dez anos atrás a gente estava começando e é magnífico saber que a gente vai se apresentar num dia tão especial também. 

Vocês começaram muito ligados às pistas de dança, mas hoje tem projetos autorais e produções para artistas de diferentes cenas. Como vocês equilibram esses trabalhos?

PV: Ser uma dupla ajuda muito. Sozinho, é muito complicado setorizar as funções, seja na parte criativa, pensando no set, seja na parte performática. Nós encontramos uma forma de duplar bem, e é legal porque uma coisa acaba chamando a outra. Cada material autoral que nós temos é uma oportunidade de tocar e uma forma de garantir essa volta para os palcos. 

Vocês já se apresentaram em grandes festivais, Lollapalooza, Koala, Primavera, Afropunk, já participaram de turnês internacionais. Qual a importância pra vocês de levar elementos do funk e do rap pra esses espaços?

PV: A gente carrega uma sonoridade nossa, [elementos] do funk, do maracatu, do axé, do pagodão baiano. É bem legal poder representar o nosso país e fazer esse exercício de exportação, mas, ao mesmo tempo, é um desafio. Graças ao movimento que está acontecendo agora, o funk e a música brasileira estão sendo reinventados. Mas eu lembro como foi difícil no começo. É muito foda que muitos DJs estão tendo essa oportunidade de ir pra fora, de levar o nosso som, de tocar as nossas músicas do Deekapz também. Toda vez que nós temos essa oportunidade de ir para fora [do país], é doido ver o nível de fanbase que nós temos. Na Europa tem uma legião que acompanha a comunidade [do funk brasileiro]. 

Vocês criaram também a festa 0800, um evento gratuito pensando em ocupar o centro de São Paulo e tornar a música eletrônica mais acessível. Qual foi a ideia por trás dessa iniciativa?

MH: A visão do nosso projeto sempre foi ser uma parada plural e tentar abraçar o máximo de pessoas que a gente consegue. Então, a gente costuma pegar o samba e juntar com o trap, pegar o funk e juntar com a música eletrônica justamente para a gente ter uma grande comunhão de público.

As nossas festas querem trazer pessoas que não são da bolha e ouvir coisas diferentes. É legal quando a gente vê que a gente acaba trazendo um público que é um pouco mais velho e o line-up são pessoas também que são bem mais novas. Então, tem esse encontro de geração que acaba sendo bem positivo e esse encontro também de gêneros. A premissa do álbum é relacionada à rádio, que chega para todos. É uma forma de democratizar.

Se vocês tivessem que definir o momento atual em uma palavra, qual seria?

PV: Eu sinto que a gente está num momento de prosperidade, colhendo realmente os frutos que a gente plantou.

MH: A gente está criando bastante, então eu vou usar a palavra criatividade.

O que tem mais inspirado vocês atualmente, e quais são os planos para o futuro?

PV: A gente tem sempre essa meta de ficar criando. Não temos a pretensão de lançar um disco [agora], mas temos pretensão de continuar trabalhando com outros artistas. Temos vontade de fazer uma turnê internacional no próximo ano também, porque já faz um tempo também que a gente está pensando mais no Brasil.

MH: Por muito tempo a gente trabalhou mais com intérpretes, pessoas que estão ali mais para cantar ou tocar algum tipo de instrumento. Agora a gente está com uma visão um pouco mais voltada para o instrumental, então, pretendemos trabalhar com mais produtores. A gente está pensando em algumas coisas que a gente pode estar lançando aí, talvez esse ano, começo do ano que vem. Aguardem, é isso.

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