Cidade Negra fala à RS sobre show em SP, novo álbum, rock e cancelamento por 'Girassol'
Toni Garrido e Bino Farias detalham turnê em celebração a 'Sobre Todas as Forças', apontam seus próximos passos e garantem nunca ter encerrado atividades
"O Cidade Negra ficou quase seis anos com pouca atividade, mas nunca acabou." A afirmação do vocalista Toni Garrido, em entrevista à Rolling Stone Brasil junto do baixista e parceiro Bino Farias, contrasta com a percepção de parte do público de que, realmente, a banda — uma das maiores representantes do reggae no país — sumiu do radar em tempos recentes.
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A agenda foi retomada no ano passado, com uma sequência inicial de shows da turnê De Agora em Diante, agora trazida a várias cidades do Brasil. São Paulo recebe o grupo no próximo sábado, 28, para show na Suhai Music Hall. A venda de ingressos ocorre por meio do site Eventim.
Não daria, mesmo, para o Cidade Negra forçar sua continuidade a todo vapor em tempos recentes. Em 2022, Garrido e Farias acusaram o agora ex-baterista do grupo, Lazão, de violência e roubo de instrumentos. O integrante rompido, por sua vez, alegou que Toni usava a banda para promover sua carreira solo. Três anos antes, o guitarrista Da Ghama — fora desde 2008 — tentou registrar o nome "Cidade Negra" em um pedido que acabou indeferido.
Situações controversas e até desgaste natural pelo excesso de trabalho — "passei por uma cirurgia no ombro e foi a primeira vez em 32 anos que tirei um mês de férias", diz Toni — levaram à pausa. Portanto, faz sentido quando o vocalista, agora, explica: "Dependemos de muita energia e colocamos energia boa para fora. Retomamos essa história quando sentimos que estava tudo limpo e tranquilo."
Com tudo em paz, Toni e Bino percorrem o país com uma turnê que, primordialmente, celebra o 30º aniversário de Sobre Todas as Forças (1994), terceiro álbum de estúdio e primeiro com Garrido nos vocais. O material, que marcou o início da parceria com o produtor Liminha e em 2026 é tocado na íntegra ao vivo, garantiu o estrelato à banda de reggae no embalo de hits como "Onde Você Mora?", "A Sombra da Maldade", "Querem Meu Sangue" e "Pensamento".
Sobre este disco, Toni reflete:
"Incrível como ele é atual, seja no papo ou na sonoridade. Só não faria sentido repetir aquela sonoridade hoje, pois o padrão do ouvido das pessoas mudou, tecnicamente falando. Ali havia uma massa sonora de muitos instrumentos. É quase um reggae progressivo. Hoje, há necessidade de subgraves e ultragraves muito gritantes, com pouco instrumento. A voz era aguda, quase imatura e com muita vontade, e isso tem uma beleza enorme naqueles arranjos suntuosos. Eu coloco na minha prateleira como 'o' álbum."
Após a conclusão da turnê De Agora em Diante — que também inclui hits de outros discos e deve contar com pouco mais de 30 datas —, o Cidade Negra deve realizar outra excursão comemorativa, em celebração ao 25º aniversário de seu Acústico MTV (2002). Toni define o trabalho como "o primeiro álbum de reggae acústico do Brasil" e relembra como muitas pessoas apostavam no fracasso da iniciativa antes de perceberem as "novas camadas descobertas para cada uma das músicas".
Próximo álbum do Cidade Negra
Mas nem tudo é sobre passado no Cidade Negra. Toni Garrido e Bino Farias já começaram a trabalhar em um novo álbum de estúdio, o primeiro desde Hei, Afro! (2012). O conceituado Daniel Ganjaman (Planet Hemp, Sabotage, Criolo, BaianaSystem etc) assumiu a produção do disco, que conta com cinco músicas devidamente gravadas e deve ganhar outras cinco em breve. Algumas composições já são apresentadas no set da atual turnê.
"Nesse novo disco, está vindo o melhor do que a gente já fez", aponta Bino. Toni, por sua vez, destaca: "[O novo álbum] É Cidade Negra de verdade, mas a gente nunca teve um foco de como fazer música ou que tipo de música faremos. Sempre foi aleatório. Nosso acordo lá atrás era: 'não vamos fazer caricatura de nenhum reggae e de nenhum regueiro'."
A dupla antecipou uma das participações especiais do material: Raffé, artista de trap descrito como "moleque da Vila Kennedy", onde Garrido nasceu. "Um encontro maravilhoso", segundo o cantor. Também foi revelado que uma das canções do repertório consiste em uma regravação de uma música do Forfun, banda já encerrada que começou no pop punk e se direcionou ao reggae com o passar dos anos. "Uma banda muito querida, muito legal. Moleques diferentes pra caramba da gente, da nossa história de vida, da nossa formação, de cor, de sociedade, mas o reggae nos aproximou muito", disse o frontman.
Relação com o rock
A regravação de uma música com o Forfun nem de longe é a primeira conexão do Cidade Negra com o rock. Toni Garrido e Bino Farias pontuam, na verdade, que o estilo musical foi muito importante ao abrir as portas para a banda já que, nos anos iniciais de atividades, não existia — e talvez ainda siga sem existir — uma cena reggae no Brasil. O vocalista reflete:
"O Cidade não foi o primeiro, mas encabeçou alguns movimentos modernos de música, já que estávamos representando uma entidade que não tinha representação. O reggae nunca foi visto no Brasil como argumento de sucesso, como o rock, samba ou soul. Nunca existiu mercado para o reggae. Nos inserimos nos mercados da música pop e do rock. O rock nos abriu portas: tocávamos com Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso — este, talvez, junto de Gilberto Gil, o artista que mais abriu portas para o reggae no pop e no rock. E continua sem espaço para o reggae: os artistas se viram, pois tem público."
Ao longo de sua trajetória, o Cidade Negra participou de um show em tributo a Renato Russo na Fundição Progresso em 2005, apresentou-se no Rock in Rio em 2011, 2013, 2015 e 2017 e foi homenageado por nomes como Charlie Brown Jr, Raimundos, Mamonas Assassinas e por aí vai. Eles também são fãs: Bino declara amar Legião Urbana, Capital Inicial, Hanói Hanói, entre outros, enquanto Toni manifesta sua paixão por Plebe Rude, Kid Abelha, Titãs, Paralamas do Sucesso e por aí vai. "As bandas dos anos 1980 nos fizeram acreditar que dava para viver daquilo, pois antes não sabíamos nem como chegar lá", refletiu Garrido.
O cantor, diga-se, expandiu sua conexão com o rock ao participar do DVD Acoustic - Live at Ópera de Arame (2024), lançado pelo Angra, um dos expoentes do heavy metal brasileiro a nível global. Na ocasião, ele interpretou "Late Redemption", cuja versão original traz uma participação de ninguém menos que Milton Nascimento. Toni, que se declara um grande fã do americano Derrick Green (vocalista de outro gigante do metal nacional, Sepultura), comenta:
"O Angra sofreu uma pressão enorme por me convidar, por causa desse amor deles à música, de fazer questão de uma democracia dentro do metal. A autonomia de bancar suas loucuras. Eu já tinha ouvido 'Late Redemption' e achei que fazia todo o sentido. Amo muito Milton e ele sempre me demonstrou muito carinho e amor, mas meu registro vocal é muito diferente. Ainda assim, sempre quis cantar naquela pressão, junto do Fabio Lione [vocalista do grupo]. Ele não me desafiou a nada: só me entregou a troca e tive que encontrar aquilo naturalmente. No fim, fomos aplaudidos por dez minutos: algo que aconteceu poucas vezes no meu show de reggae. Um dos momentos mais felizes da minha vida como cantor."
https://www.youtube.com/watch?v=OHNMcO4xxkI&list=RDOHNMcO4xxkI&start_radio=1&pp=ygUSYW5ncmEgdG9uaSBnYXJyaWRvoAcB
A grandeza de uma mulher
Também em tempos recentes, Toni Garrido passou por outra experiência nova: o dissabor do cancelamento. Em participação no programa de TV Altas Horas, no ano passado, o vocalista alterou um trecho da letra do hit "Girassol" pois soava "hétero, machista, top, horrível". O verso que fala sobre "ter a grandeza de um menino" e repete "de um menino", foi modificado para mencionar "menina" e "mulher". Ficou da seguinte forma:
"A verdade prova que o tempo é o senhor dos dois destinos, dos dois destinos; Já que, pra ser homem, tem que ter a grandeza de uma menina, de uma mulher [originalmente: de um menino, de um menino]."
Após uma chuva de críticas nas redes sociais, Garrido havia declarado que fez apenas uma "brincadeira amorosa para homenagear as mulheres" e ressaltou que nenhum fã precisa mudar seu jeito de cantar. Agora, meses após a polêmica, o vocalista retoma a situação e diz, à Rolling Stone Brasil, que boa parte do público pareceu ter se desacostumado com o Cidade Negra.
"Quando eu fui falar uma coisa agora, minha fala incomodou demais. E aí pensei: 'estão desacostumados com as falas do Cidade Negra'. Antes, quando falávamos qualquer coisa que incomodava, diziam: 'lá vem o Cidade Negra de novo, chatos, politicamente corretos'. Agora, esqueceram um pouco da gente e quando eu falei, voltou como se eu estivesse com 19 anos de idade e tivesse falado alguma coisa nova que as pessoas foram reclamar."
Garrido aponta ter falado sobre "proteger o feminino" e cita como exemplo negativo as canções de rap e trap. "Sempre há muitas críticas nessas músicas, mas também há muito de: 'Então eu a peguei, coloquei a cabeça dela aqui, porque ela é gostosa, ela é uma cachorra, etc. Ela vem até o meu carro, então eu puxo minha Glock, então você se senta no meu Porsche, etc'", cita ele, definindo-se, em contrapartida, como alguém de formação dos compositores Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
"Aprendemos a amar nossas mães, nossas mulheres, etc, e a ver delicadeza, a aplaudir aqueles que trataram essas pessoas com delicadeza. Coloquei daquela forma porque fico muito impressionado com o feminicídio. Falei sobre a valorização do feminino. Veio uma enxurrada de críticas e... no dia seguinte teve mais feminicídio. Enquanto isso, as pessoas estavam discutindo porque eu disse que para você ser um homem, você tem que ter a grandeza da nossa mãe, nossa irmã. Aprendemos com elas. Vamos ter que entrar nesse mundo novamente e nos surpreenderemos com a forma como o nosso som será recebido pelo público que não nos conhece."
*O Cidade Negra leva a turnê De Agora em Diante à Suhai Music Hall, em São Paulo, neste sábado, 28. Há ingressos à venda no site Eventim.