Chester Bennington foi a voz da dor e raiva para uma geração
Saudoso cantor do Linkin Park, que completaria 50 anos nesta sexta-feira, 20, ajudou as pessoas em tempos difíceis porque foi aberto sobre os seus próprios problemas
No amanhecer do novo milênio, o Linkin Park fazia parte de uma nova revolução juvenil e a voz de Chester Bennington era sua trombeta. Tanto sua interpretação quanto suas letras mesclavam vulnerabilidade sincera com raiva descontrolada. Canções como "In the End" e "Crawling" mostravam o artista, que completaria 50 anos nesta sexta-feira, 20, alternando violentamente entre esses estados de espírito. Começava com declarações tenras de derrota antes da raiva subir pela sua garganta em gritos de angústia que faziam as veias saltarem.
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Os jovens que se depararam com os ataques de tristeza e raiva de Bennington quando o Linkin Park estourou nas paradas viam nele a personificação da dor reprimida incapaz de ser expressa, liberada ou sequer compreendida. Quando foram mais a fundo, além da raiva, encontraram expressões apaixonadas de desespero, desesperança e medo. Ele passou sua carreira sendo honesto e direto sobre suas lutas contra a depressão, o vício e o trauma, especificamente por ter sido abusado sexualmente quando criança.
Em músicas como a visceral "One Step Closer", aqueles que carregavam demônios semelhantes aos de Bennington encontraram um reflexo desafiador. "Tudo o que você me diz me leva um passo mais perto da beira, e estou prestes a quebrar", ele brada para o mundo, transmitindo frustração como só um jovem de 24 anos poderia.
https://www.youtube.com/watch?v=4qlCC1GOwFw&list=RD4qlCC1GOwFw&start_radio=1&pp=ygUbbGlua2luIHBhcmsgb25lIHN0ZXAgY2xvc2VyoAcB
Embora Hybrid Theory tenha sido lançado em 2000, o álbum só estourou em 2001 e se tornou o maior disco daquele ano. O final da década de 1990 encontrou heróis da angústia em estrelas em ascensão como Eminem e Limp Bizkit, além de veteranos como Nine Inch Nails, mas o gosto americano estava dominado por um movimento pop chiclete "disneyficado", liderado por boy bands e divas em início de carreira na faixa dos 16 anos.
O Linkin Park estourar e vender mais do que atrações mais familiares como 'N Sync e Britney Spears mostrou como o mercado precisava de um ícone mainstream capaz de refletir linhas de gênero cada vez mais borradas, com um toque de rock.
Enquanto o nu metal brilhava, a banda reescrevia suas possibilidades. O machismo do gênero, impulsionado pelo Limp Bizkit, se tornava menos potente com a maneira ágil que a voz de Chester Bennington interagia com o rap sutil, porém eficaz, de Mike Shinoda. O grupo abraçou a música eletrônica para complementar sua habilidade musical, em vez de dominá-la. E, ao mesmo tempo, era a vulnerabilidade entre os gritos, riffs pesados e tons frios que colocava o Linkin Park um passo à frente.
Mesmo enquanto envelhecia e se tornava mais bem-sucedido, Bennington serviu de exemplo sobre como a doença mental é uma luta para o resto da vida, desvendando sua dor de maneiras mais complexas e maduras até seu álbum final com o Linkin Park, One More Light (2017). Em entrevista para a Music Choice no início deste ano, ele descreveu sua mente como um "bairro perigoso onde eu não deveria caminhar sozinho". Para uma conversa com o The Mirror, no que é alegado ser sua entrevista final, Bennington parecia encontrar uma luz no fim do túnel, vendo a criação de seu último álbum do LP como "terapêutica".
Para muitos, ouvir Linkin Park é como relembrar uma memória de sobrevivência. Isso acrescenta ainda mais à tragédia e às circunstâncias de como a vida de Bennington chegou ao fim. Ele ofereceu catarse a quem desejava poder gritar como ele, o mesmo tipo de catarse que ele sentia ao ouvir bandas como Stone Temple Pilots e Soundgarden quando adolescente. Bennington viria a assumir a liderança do STP depois da demissão de Scott Weiland em 2013, a realização de um sonho de toda a vida. Com o Linkin Park, Bennington teve a oportunidade de fazer turnê com Chris Cornell em 2008 e até cantou "Hunger Strike", o sucesso do Temple of the Dog, com seu herói no palco.
Assim como os fãs de Bennington perderam a luz que os inspirou durante a juventude, o cantor testemunhou as trágicas mortes prematuras de Weiland e Cornell — este último um amigo próximo seu por anos e cujo aniversário teria sido no mesmo dia em que o vocalista do Linkin Park tirou a própria vida.
"Sua voz era alegria e dor, raiva e perdão, amor e desilusão, tudo ao mesmo tempo", escreveu Bennington em uma carta aberta após o suicídio de Cornell, suas palavras ecoando muito do que seus ouvintes ao longo dos anos ouviram em músicas do Linkin Park como "Numb" e "Heavy". "Suponho que é isso que todos nós somos. Você me ajudou a entender isso."
** No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos, oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuitamente, 24 horas por dia. Qualquer pessoa que queira e precise conversar, pode entrar em contato com o CVV, de forma sigilosa, pelo telefone 188, além de e-mail, chat e Skype, disponíveis no site www.cvv.org.br.