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Bernie Taupin escreve para Elton John há 60 anos. Agora, finalmente vai lançar um novo álbum solo

O letrista também revela que Gary Oldman está produzindo um documentário sobre sua vida e afirma que ele e Elton não têm planos de vender seus direitos de publicação musical

28 jul 2026 - 12h02
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Sem as letras de Bernie Taupin, Goodbye Yellow Brick Road, Tumbleweed Connection, Madman Across the Water, Captain Fantastic & The Brown Dirt Cowboy e praticamente todo o restante do catálogo de Elton John simplesmente não existiria. Foi por isso que Elton literalmente entregou a Taupin sua estatueta do Rock & Roll Hall of Fame quando ele foi incluído na instituição, em 1994, e fez questão de recebê-lo pessoalmente quando o letrista também entrou para o Hall da Fama, em 2023.

Bernie Taupin
Bernie Taupin
Foto: Mat Hayward/Getty Images for The Recording Academy / Rolling Stone Brasil

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Mas, durante boa parte desse período, Taupin também manteve uma carreira solo que passou tão despercebida que muitos fãs de Elton John sequer sabem que sua obra autoral existe. De forma significativa, ela estava adormecida desde que ele encerrou as atividades da banda Farm Dogs, em 1998. Seu último disco solo havia sido Tribe, de 1987. Nas últimas décadas, ele concentrou sua atenção principalmente na família e no trabalho ao lado de Elton.

https://www.youtube.com/watch?v=gDiRKFl2e80

Isso finalmente vai mudar em 23 de outubro, com o lançamento de The Sea Has No Mercy, um novo álbum gravado em Nashville ao lado do produtor Frank Liddell, do guitarrista Adam Wright, do baixista Glenn Worf e do tecladista Michael Rojas. O disco também traz participações de Brandi Carlile, Lee Ann Womack, Jeremy Jordan Ensemble, do percussionista Jay Bellerose, da violinista Scarlet Rivera e da filha de Taupin, Georgey.

"Com a idade vem a sabedoria, o que é uma progressão natural", diz Taupin à Rolling Stone. "Não me arrependo de nenhum dos discos que fiz no passado. Todos fizeram sentido no momento em que foram gravados. Mas este é o álbum mais satisfatório que já fiz. Estou falando da minha própria discografia, não daquilo que fiz com Elton, porque isso é um universo completamente diferente... Eu queria expressar meus próprios sentimentos no meu nível, com a minha própria escrita. É isso que faz este trabalho ser mais importante do que qualquer outra coisa que já fiz."

Para falar mais sobre o álbum, o documentário sobre sua vida que está a caminho, o próximo disco de Elton John e explicar por que os dois não pretendem vender seus direitos de publicação musical, conversamos com Taupin por Zoom.

https://www.youtube.com/watch?v=BaNhUz-A2p4

Quero começar revisitando a história da sua carreira solo, porque ela é muito interessante e raramente discutida. Tudo começou com Taupin, em 1971. O que você pode me contar sobre aquele disco?

Aquilo não foi exatamente uma ideia minha. Na verdade, fui um pouco pressionado a fazê-lo por Dick James, que teve um papel muito importante nos nossos primeiros anos. Ele acreditava que, se os primeiros discos do Elton estavam despertando interesse e fazendo sucesso, talvez também houvesse curiosidade para ouvir algo meu.

E digamos que minhas lembranças desse período sejam bem nebulosas, porque faz muito tempo e eu era extremamente ingênuo em relação aos estúdios. Eu dependia completamente das pessoas que conheciam aquele ambiente e dos músicos disponíveis na época. E era um grupo incrível de músicos, desde gente como Shawn Phillips — que imagino que pouca gente conheça hoje, mas que era bastante influente naquela época — até guitarristas como Caleb Quaye e David Johnston.

Basicamente, reuni vários textos que estava escrevendo naquele período. Obviamente, eu ainda não tinha encontrado uma voz como cantor e certamente me sentia intimidado demais. Como disse, eu era muito inexperiente em todos os aspectos de uma gravação. Então simplesmente segui em frente. Não acho que tenha sido necessariamente uma boa ideia. Afinal, quem queria ouvir, naquele momento, um álbum narrado de poesia esotérica? Mas foi uma época interessante.

O Elton ficou cada vez mais famoso depois disso, mas você não lançou outro disco solo durante os anos 1970. Não tinha interesse?

Não era algo que eu considerasse importante. Eu fazia quando sentia vontade, quando achava que tinha algo a dizer ou queria experimentar alguma coisa. Infelizmente, em alguns casos, isso acontecia quando eu estava entediado e não havia mais nada acontecendo.

https://www.youtube.com/watch?v=uzVcCL6-Q_U

Seu disco seguinte foi He Who Rides the Tiger, de 1980.

Acho que aquele álbum foi interessante e, do ponto de vista das letras, representou uma boa realização. Infelizmente, musicalmente, senti que a conexão entre mim e as pessoas que trabalharam nele não foi... É difícil pensar nisso porque nunca volto para ouvir esses discos. Lembro que, quando saiu, foi muito bem recebido pela crítica, mas, novamente, não aconteceu muita coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=ALTn4tcyxjs

Depois veio Tribe, em 1987.

Havia um cara na RCA chamado Paul Atkinson, responsável pelo A&R da gravadora e que havia sido o baixista original do The Zombies. Infelizmente, ele faleceu pouco tempo depois de me contratar. Foi ele quem me incentivou a fazer um disco que refletisse muito o espírito daquela época. Trabalhei com Martin Page, um excelente compositor comercial, além de bom produtor e músico.

Olhando para trás, acho que aconteceu a mesma coisa do álbum de poesia de 1971. Eu estava sendo influenciado pelas pessoas ao meu redor a fazer algo que parecia adequado para aquele momento. Algo que combinasse com o tipo de música que estava em alta. No fim das contas, Tribe foi uma tentativa de fazer um disco de rock/pop comercial, e eu fiquei satisfeito com ele na época.

A verdade é que você vive o tempo em que está inserido e segue o fluxo. O curioso é que nenhum desses discos teve grande impacto nas rádios. Nunca consegui espaço nelas. Talvez, se XM, Sirius ou plataformas desse tipo já existissem naquela época, eles tivessem alcançado um público maior. Mas não tenho arrependimentos.

https://www.youtube.com/watch?v=sj-geNa4w4k

Depois disso você ficou um tempo sem lançar nada até formar o Farm Dogs, em 1996, e gravar dois discos com a banda.

Foi a primeira vez que comecei a fazer o tipo de música que realmente queria fazer. Mas isso teve muito a ver com o fato de eu estar inserido em uma situação mais democrática, mais acolhedora e confortável. O problema é que, no fim das contas, percebi que democracia funciona muito bem... desde que todo mundo faça o que lhe mandam. (Risos). Acho que foi isso que colocou o último prego no caixão do Farm Dogs.

Vocês chegaram a fazer turnês com o Farm Dogs. Foi a primeira vez que você fez shows de qualquer tipo, certo?

Foi. Foi uma experiência bastante interessante, porque eu jamais imaginei me colocar naquela posição de subir ao palco com minha própria banda ou com um grupo de músicos que, como eu disse, funcionava de forma democrática. Mas foi divertido. Vou dizer uma coisa: a melhor parte do Farm Dogs foi que ele me ensinou muita coisa que antes me assustava, principalmente cantar ao vivo. Foi na banda que realmente encontrei minha voz.

Quando gravei Tribe, inclusive, fiz aulas de canto. Trabalhei muito, muito mesmo nos vocais, mas acho que, no fim, aquela não era minha verdadeira identidade. Não era realmente eu. Era como se eu estivesse me transformando em um produto de rádio AM/FM, moldado pelo que os outros queriam que eu fosse, em vez do que eu queria ser.

Acho que o Farm Dogs, por ser um projeto muito mais voltado às raízes, à música country, gravado em um estúdio caseiro e cercado por pessoas extremamente encorajadoras, acabou me mostrando como eu realmente queria ser como artista e cantor. Também me deu confiança para acreditar que eu poderia, no fim das contas, escrever minhas próprias canções.

Como foi subir ao palco do Troubadour com os holofotes voltados para você, agora como cantor? Imagino que tenha sido surreal.

Na verdade, não foi tão intimidador quanto imaginei. Não fiquei tão nervoso porque havia uma enorme camaradagem naquela banda. Muita gente pode enxergá-la como uma típica banda de crise da meia-idade — e talvez fosse mesmo. Mas nos divertíamos muito e existia um espírito de companheirismo incrível. Isso dissipou todos os meus medos, porque eu sabia que, se cometesse algum erro no palco, aqueles caras me cobririam.

O Farm Dogs acabou em 1998. Por que se passaram 28 anos até seu próximo projeto solo? Em algum momento você acreditou que nunca mais faria sua própria música?

Sim, durante um tempo achei isso. Havia muitas outras coisas acontecendo na minha vida. Mudanças pessoais, sociais, musicais e profissionais. Acho que, no fim, foi uma combinação de fatores.

Mas quando escrevi minha autobiografia, Scattershot: Life, Music, Elton and Me, aquilo realmente me colocou no divã. Fez com que eu refletisse. Foi um processo catártico. Precisei olhar para trás, tentar lembrar de coisas que imaginava não ser mais capaz de recordar. Foi como estar numa sessão de terapia, sendo estimulado a revisitar memórias.

Ao mesmo tempo, começamos a trabalhar no documentário. E, durante a produção dele, você é levado novamente a relembrar tudo. Fazem perguntas sobre o passado, você revisita lugares importantes da sua história, volta fisicamente a esses locais.

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Como o documentário levou ao álbum?

Achamos que seria uma boa ideia criar algo para os créditos finais, talvez escrever uma música ou fazer algo realmente diferente. Em vez de usar uma composição tradicional da dupla Elton-Bernie, eu queria criar algo totalmente meu. Escrevi uma canção chamada "That Was Me", que, curiosamente, nem entrou no disco porque achei que ela não combinava com o restante do repertório.

Mas ela foi o ponto de partida para tudo o que comecei a escrever depois. De repente, me vi cheio de ideias. No fim das contas, o álbum acabou se tornando um manifesto de alguém de 76 anos olhando para trás, refletindo sobre a vida e, admito, um pouco irritado com o mundo.

Percebi que todas aquelas músicas estavam na minha cabeça e que eu mesmo as estava escrevendo — "três acordes e a verdade", como dizem. Fui para Nova York e me encontrei com meu grande amigo, o produtor Frank Liddell. Antes disso, brincávamos dizendo: "Se algum dia eu resolver fazer um disco, você toparia produzi-lo?". E ele respondia: "Quando você quiser. Estou pronto. Adoraria fazer isso."

Na época, nenhum de nós imaginava que aquele pacto realmente aconteceria. Mas, quando nos sentamos em Nova York, conversamos sobre as músicas. Entreguei a ele algumas composições e disse: "Leia isso no avião de volta e veja o que acha."

E o que aconteceu depois?

Ele ficou empolgado. Disse simplesmente: "Venha para Nashville. Vamos gravar aqui em casa." Foi então que reuniu Glenn Worf, Michael Rojas e Adam Wright. Eu os chamava de "os cortadores de pedra do Tennessee", porque eles eram os verdadeiros arquitetos do disco. Eu cantava as músicas para eles, mas eram eles que criavam os arranjos. Gravamos tudo na casa do Frank.

Foi o momento mais prazeroso que já vivi fazendo um álbum, porque finalmente estava dizendo exatamente aquilo que queria dizer. E, como já falei, este é um disco que eu só poderia fazer agora. É um álbum de reflexão. Muita gente pergunta: "Por que você não fez esse disco anos atrás?". E eu respondo: "Porque vinte anos atrás eu ainda não tinha 76 anos."

Você escreve de forma diferente quando sabe que as letras serão interpretadas por você, e não por outro artista?

Sem dúvida. Essa é uma pergunta muito perspicaz, porque isso foi extremamente importante para mim. O que percebi ao fazer este disco — e que o torna completamente diferente de tudo o que fiz antes — é que eu mesmo escrevi as músicas.

Se eu tivesse entregue essas letras para outras pessoas criarem as melodias, o resultado jamais teria sido tão coeso. Não teria o mesmo ritmo nem essa carga pessoal que sinto em cada faixa. Se fossem composições em parceria, elas deixariam de me pertencer.

Sua voz hoje tem muito mais profundidade e gravidade do que quando era mais jovem. Enquanto ouvia o disco, pensei bastante em Leonard Cohen, porque algo parecido aconteceu com ele: a voz envelheceu, mas ficou ainda melhor.

Com certeza. E mencionar Leonard Cohen é perfeito, porque ele foi uma das grandes referências que tive ao fazer este álbum. Também pensei em Tom Waits, Bob Dylan e John Prine, especialmente em "Elephant Boy". São artistas conhecidos muito mais pela personalidade da interpretação do que pela técnica vocal. Bem, talvez eu não devesse incluir John Prine nisso, mas Cohen e Waits certamente. Dylan também.

Há muito de Dylan em "Old Church Road". Há bastante Leonard Cohen em várias músicas do disco. E não vejo problema algum em ser uma espécie de filho bastardo de todos eles.

Quero falar faixa a faixa. O álbum começa com "The Fisherman". Você canta: "Eu era apenas um pescador, uma vida partida colocada em espera / Eu era apenas um andarilho muitos séculos atrás". Essa música é autobiográfica?

Absolutamente. Há muito de mim nela. Se formos por uma leitura bíblica, ela é basicamente inspirada em João 21. E isso tem relação direta com minha fé. Não tenho receio de falar sobre isso.

Mais uma vez voltando ao Leonard Cohen, eu queria que o início do álbum fosse uma declaração de intenções, como ele fez em "Bird on a Wire". Eu queria que "The Fisherman" fosse a minha "Bird on a Wire".

Era uma música muito importante para mim. E uma curiosidade: eu realmente planejei toda a ordem do disco. Sabia exatamente como queria que cada faixa sucedesse a outra.

Depois vem "Old Church Road", em que você canta: "Brinquei com príncipes, vi o mundo / Derrotei o Diabo uma ou duas vezes".

Praticamente todas as músicas, todos os versos e todas as letras deste disco têm alguma relação com meu passado, meu presente ou até meu possível futuro. A única exceção talvez seja "Old Dog", porque ali volto ao meu lado de contador de histórias cinematográficas.

Mas, de modo geral, tudo no álbum tem um significado. Church Road era a estrada onde cresci, numa pequena vila de Lincolnshire. Passei praticamente toda a minha infância e juventude ali, antes de me mudar para Londres.

Lee Ann Womack participa de uma das faixas.

Lee Ann Womack é esposa de Frank Liddell. Então fez todo o sentido. Foi um disco muito voltado para a família, porque Anna Lise, filha de Frank e Lee Ann, foi a engenheira de som e responsável pela mixagem do álbum. E, na minha opinião, ela fez um trabalho absolutamente extraordinário.

"The Sea Has No Mercy" é a faixa-título. Ela tem um clima realmente melancólico.

É um disco de reflexão. Fala sobre os erros que você comete ao longo da vida. E a razão de o álbum se chamar The Sea Has No Mercy, assim como a música, é que tudo o que digo naquela canção é 100% verdadeiro. Eu tenho um medo absoluto do mar. Acho que o mar é a força mais poderosa da Terra. Você pode falar de terremotos, incêndios ou qualquer outro desastre natural com que convivemos, mas não existe nada tão intimidador quanto o oceano aberto. Aquilo me apavora completamente.

"Elephant Boy" faz referência ao filme de 1937?

Não. Na verdade, faz mais referência a O Homem Elefante, do David Lynch. Mas usei "Elephant Boy" em vez de "Elephant Man" porque soava melhor na música. E a ideia é bem simples. Se eu não fosse eu, poderia ter sido qualquer outra pessoa. Ainda bem que não fui o "Menino Elefante". Eu poderia ter sido qualquer outra coisa e não teria me importado tanto, mas dessa eu escapei. As três primeiras músicas do álbum são bastante intensas, então quis aliviar um pouco o clima. Essa é a faixa que traz um pouco de humor e ironia.

Em "Ghosts of Greater Men", você canta: "Sinto-me como um relógio parado ao meio-dia / No ano em que Neil Armstrong pisou na Lua". Você sente que ficou preso em 1969?

Acho que todos nós ficamos congelados em determinados momentos da vida, aos quais sempre voltamos para refletir. E 1969 foi um período extraordinário, tanto para mim quanto para Elton, porque estávamos prestes a dar um grande passo. Existe um paralelo entre isso e Neil Armstrong dando aquele passo na Lua. Nós também estávamos entrando em uma nova arena. Estávamos prestes a ir para os Estados Unidos, e aquilo mudaria completamente nossas vidas. Essa é a metáfora desses versos.

Nessa mesma música você canta: "Não quero viver Antietam outra vez". Sei que você é fascinado pela Guerra Civil Americana. O que quis dizer com isso?

Eu simplesmente não podia deixar de usar essa imagem. É uma metáfora para não querer reviver as dores do passado, usando um campo de batalha histórico como metáfora para o seu próprio campo de batalha.

O mais sangrento de todos.

Foi o dia mais sangrento da história dos Estados Unidos. Talvez seja um pouco exagerado comparar seus próprios problemas, suas próprias decepções e tudo mais a Antietam. Mas eu sou escritor. Tenho esse direito.

"Joker" começa criticando Joseph Kennedy Sr. por sua relação com os nazistas. "Nunca engoli a propaganda dos Kennedy / Não, senhor / Quando o papai Joe bajulava o inimigo / Os pecados do pai mancharam o mundo."

Essa música é basicamente eu resmungando e dizendo que não devemos ouvir as vozes erradas. Nunca fui fã dos Kennedy. Acho que são a dinastia mais superestimada da história americana.

Acho que muita gente concorda com você hoje em dia.

É só um velho rabugento falando. Afinal, tenho 76 anos. Já posso dizer esse tipo de coisa.

"Joker" também tem uma forte influência de Tom Waits.

Com certeza. Heartattack and Vine. Depois que gravamos a música, Frank Liddell disse: "Essa faixa pode acabar te internando". Mas eu só pedi para eles deixarem tudo o mais estranho possível.

"Come On California" traz vocais de Brandi Carlile. O que fez essa música parecer ideal para ela?

A referência à Califórnia é uma homenagem à Joni Mitchell. E Brandi é muito próxima da Joni, além de ser uma grande amiga minha. Costumo chamá-la de minha irmãzinha.

Ela disse: "Adoraria participar do disco". E, para mim, essa era justamente a música em que ela faria o melhor trabalho. Quando gravou, cantou todas as linhas da canção e falou: "Use o que você quiser." Na verdade, eu queria criar coragem para convidar a própria Joni a cantar o trecho final e fazer uma referência à música "California", mas, no fim, não tive coragem. Essa é a única canção de amor mais direta que escrevi para minha esposa neste álbum.

"The Favor" parece ser uma música muito pessoal sobre algo que aconteceu em Nova York.

Ela também é muito, muito inspirada em Leonard Cohen. Inclusive tentei cantar como ele logo no começo, quase declamando. Precisei cantar no registro mais grave que consegui.

Existe uma história ali. Não exatamente pessoal, mas metafísica. A música fala sobre escolher entre o bem e o mal. Ambos aparecem diante de você. Como Bob Dylan disse: "Às vezes Satanás aparece como um homem de paz." É exatamente isso. Você pode ser enganado de muitas maneiras, mas, no fim, precisa tomar suas próprias decisões. É fácil ser seduzido por lados diferentes. No final das contas, a escolha é sua.

A violinista Scarlet Rivera toca em "Old Dog". Tirando Desire, do Bob Dylan, não lembro de ouvi-la em muitos discos. Como ela entrou no projeto?

Eu fazia questão absoluta de tê-la no álbum. Quando gravar outro disco, quero que ela participe muito mais. Ela é uma pessoa incrível. Foi fantástica. Também tocou viola na faixa.

O que adoro no estilo dela é que ela não toca fiddle. Ela toca violino elétrico. Existe uma enorme diferença entre tocar fiddle e tocar violino — e, principalmente, tocar do jeito dela. Ninguém toca como Scarlet Rivera.

Sua filha Georgey canta em "100 Ways".

Seria ridículo colocar qualquer outra pessoa naquela música, porque estou cantando para minhas filhas. Ter uma voz feminina que não fosse a de uma delas simplesmente não faria sentido.

Ela canta muito bem. Tem formação?

Ela faz aulas de canto com a mesma professora da Lee Ann Womack. Aliás, foi a própria Lee Ann quem a indicou. Ela é muito artística: dança, canta... Tive sorte nesse aspecto.

É a última música do disco, e ela termina de forma muito abrupta. Na primeira vez que ouvi, achei que o arquivo tinha travado.

Originalmente ela tinha um final mais longo, mas eu disse: "Não, ela precisa terminar de forma completamente seca, porque esse é justamente o sentido da música." Pode parecer mórbido, mas é realista e, ao mesmo tempo, idealista. Fatalista, moralista, chame como quiser. Ela é um pouco de tudo isso.

O mais interessante desse disco é que fica claro que você não o fez pensando em qualquer apelo comercial. Você não precisa lançar um álbum para pagar as contas.

Não. Meu Deus, claro que não. De jeito nenhum. Fiz esse disco para mim? Claro que fiz. Mas também o fiz para as pessoas ao meu redor, para quem viveu essas histórias, para quem me marcou, para quem me inspirou e para os artistas que me influenciaram.

Como conversamos, há várias referências, nessas músicas, a pessoas que admiro. É uma forma de prestar homenagem a elas.

Mas, acima de tudo, a verdade é que me diverti muito fazendo esse álbum. Eu voava de Los Angeles para Nashville, passava uma semana lá gravando e depois voltava. Foi um período extremamente inspirador, maravilhoso e divertido.

Você pensa em reservar alguns pequenos espaços e tocar esse repertório ao vivo?

Já recebi alguns convites, mas ainda não estamos prontos para isso. Eu não gostaria de fazer agora. Vamos ver como o disco será recebido, como as pessoas vão reagir a ele e se vão apreciá-lo. Não está descartado de forma alguma. Se eu pudesse tocar com o mesmo grupo de músicos que gravou esse álbum comigo, certamente consideraria a ideia. Mas não agora. Há muita coisa acontecendo. Temos o documentário chegando, que provavelmente estreia nos cinemas em janeiro. Então, por enquanto, é um grande "vamos ver".

Então o documentário será lançado alguns meses depois do álbum?

No início houve conversas para que os dois fossem lançados ao mesmo tempo, o que talvez tivesse sido vantajoso. Mas, pesquisando melhor, percebemos que isso não era realmente necessário.

Primeiro veio o livro, do qual tenho muito orgulho e que foi muito bem recebido. Entrou na lista de mais vendidos do The New York Times e também na do The Times, no Reino Unido. Então tudo acabou acontecendo de forma bastante natural.

Tenho muito orgulho daquele livro. Já o documentário foi mais difícil de aceitar, porque nunca fui alguém que sonhasse em ser colocado sob esse tipo de microscópio. Mas ficou muito bom. E adorei o fato de Gary Oldman ter sido o produtor executivo.

O documentário cobre toda a sua vida, do nascimento até hoje?

Acho que vocês vão ter que esperar para descobrir. A versão final está sendo concluída neste exato momento.

Você e Elton fazem parte de um grupo cada vez menor de grandes artistas que ainda não venderam seus direitos de publicação musical. Nunca sentiram vontade?

No momento, não. Não temos interesse. Não vejo motivo. Por que faria isso?

Para ganhar muito dinheiro.

Nós não precisamos do dinheiro. Ambos temos filhos. Então por que não deixar isso para eles?

Já ouvi muitos artistas dizerem exatamente o contrário. Eles venderam o catálogo justamente para que os filhos não precisassem administrá-lo ou acabassem brigando por causa dele.

É um direito deles. Quando digo isso, não significa que nossos filhos terão de cuidar pessoalmente de tudo. Existem muitas pessoas que podem ajudá-los nesse tipo de situação.

E quem sabe isso não mude amanhã? Mas, sinceramente, não entendo por que tantas pessoas estão vendendo seus catálogos. É um clichê, eu sei, mas é um pouco como vender os próprios filhos, não é?

Paul Simon já disse que se arrepende da decisão.

Tenho certeza de que ele não é o único.

Pelo menos assim você nunca liga a televisão e descobre que "Tiny Dancer" está sendo usada para vender detergente de louça ou algo parecido.

[Risos]. Bem, não sou tão preciosista nesse sentido. Já vi músicas nossas em comerciais e, normalmente, são canções menos centrais do catálogo. Isso realmente não me incomoda.

Mas essa é uma decisão de vocês, não de outra pessoa.

Exatamente. Exatamente.

Ainda recebo pilhas de e-mails todos os dias perguntando: "Você autoriza essa música para isso? Podemos usar aquela outra naquilo?" E, na maioria das vezes, a resposta é: "Sim, sem problemas."

Mas essa discussão acaba sendo irrelevante. Se fôssemos extremamente gananciosos e quiséssemos simplesmente ganhar bilhões de dólares — o que provavelmente conseguiríamos vendendo o catálogo —, qual seria o sentido? Não precisamos disso. Estou muito bem como estou.

Acho isso ótimo. Vocês dois escreveram essas músicas. Ninguém mais. Por que outra pessoa deveria ser dona delas?

Esse assunto praticamente nunca aparece nas conversas. David Furnish, que administra a carreira do Elton, e minha esposa, Heather, que também é minha empresária, já discutiram isso várias vezes. E a conclusão sempre foi a mesma: "Não. Não é necessário. Para quê?"

Ouvi dizer que Elton está trabalhando em um novo álbum solo. Em que estágio ele está?

Ele tem um disco chegando, acho que no começo do ano que vem, para o qual contribuí. Mas, sinceramente, não sei exatamente quando será lançado. Ele voltou a trabalhar com Andrew Watt.

Desta vez, porém, o processo de composição foi completamente diferente por causa do problema de visão dele. Elton já não consegue ler letras colocadas sobre o piano. Então criou as bases instrumentais e me enviou três ou quatro delas perguntando: "Você consegue fazer alguma coisa com isso?"

Foi assim que participei do projeto. Mas ele também trabalhou com outros compositores, o que acho ótimo. É uma forma completamente diferente de criar para ele.

Você ainda espera que ele faça aquela residência dedicada às músicas menos conhecidas do catálogo, sobre a qual fala há tantos anos?

Seria ótimo. Mas ainda não conversamos sobre isso. Sei que ele fará alguns shows no México para compensar os que precisou cancelar durante a pandemia, mas não ouvi nenhuma conversa recente sobre uma residência desse tipo. Pelo menos, essa notícia ainda não chegou aos meus ouvidos.

Você já pensa no próximo álbum solo?

Estou sempre pensando no próximo passo. Definitivamente não fico olhando para trás. Estou sempre olhando para a frente. E me diverti tanto fazendo esse disco... Você acha mesmo que eu não gostaria de repetir a experiência?

Então você não se arrepende de não ter feito esse álbum vinte anos atrás?

Não. Estou feliz por tê-lo feito agora. Acho que, se e quando gravar outro disco, ele não será tão reflexivo. Talvez eu volte a me dedicar mais à narrativa. Aliás, já escrevi cinco ou seis músicas e venho experimentando bastante com elas. Estou realmente gostando desse processo de trabalhar sozinho, dentro da minha própria cabeça, sem depender de mais ninguém.

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