'As pessoas que habitam SP são amorosas', diz Criolo, que celebra 15 anos de 'Nó na Orelha'
Músico comemora seu álbum de mais sucesso em show no Coala Festival, neste domingo, 13, em São Paulo; disco rendeu ao rapper o hit 'Não Existe Amor em SP'
Ao completar 15 anos do clássico álbum "Nó na Orelha", Criolo celebra o marco com um show na íntegra no Coala Festival, em São Paulo. Em entrevista, o rapper relembrou que a obra foi sua última tentativa de viver da música, viabilizada pelo apoio do coletivo Matilha Cultural. Ele também refletiu sobre a permanência das desigualdades e dos desafios na capital paulista, destacando a potência transformadora da juventude e reafirmando o rap como a grande missão de seus quase 40 anos de trajetória.
O álbum Nó na Orelha, de Criolo, um dos grandes nomes do rap brasileiro, completou, em abril de 2026, 15 anos. Em entrevista ao Estadão, o rapper relembrou a trajetória da obra - que foi sua última tentativa de conseguir viver da música -, as referências da época, as mudanças na indústria, e na cidade de São Paulo - cenário central da composição - ao longo da última década e meia.
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Como celebração, Criolo apresentará Nó na Orelha - na íntegra - neste domingo, 13, no Coala Festival, que acontece no Memorial da América Latina, em São Paulo. Leia abaixo a íntegra da conversa.
Por que você escolheu o álbum 'Nó na Orelha' neste momento da sua carreira para se apresentar no Coala Festival?
Esse álbum visita o festival nesse ano por um pedido do próprio festival. Eles tiveram a ideia de celebrar o Nó na Orelha, os 15 anos do álbum. E aí, a partir desse pedido, a gente acolheu e tentou criar o melhor ambiente possível para fazer jus a esse convite. Pensando nessa formação original do álbum, pensando nos arranjos originais das canções, tudo isso pra gente reviver essa experiência de tocar, de fazer o som, com os fãs daquela época. E, por exemplo, hoje mesmo tava falando com o Rubens ao telefone, ele falou que vai ao show porque a geração dele não assistiu esse show. Então também tem essas pessoas que têm algum tipo de admiração, relação com alguma música ou com o álbum inteiro, e que não tiveram essa oportunidade de viver esse momento com a gente lá em 2011. Então, estão ansiosos também para para poder sentir um pouco dessa energia.
Você já falou diversas vezes, publicamente, que esse álbum quase não existiu. Então, você poderia comentar um pouco sobre esse processo de criação?
Esse álbum quase não existiu. Ele só existiu por uma ação generosa de uma pessoa chamada Ricardo, que faz parte do coletivo Matilha Cultural, que fica no centro da cidade. Esse coletivo tinha a mania de fortalecer histórias, pessoas, projetos que estavam ali sem suporte, sem apoio. Ricardo é entusiasta da cultura brasileira, sobretudo, da cultura de rua, cultura periférica, das coisas que ele acredita.
Ele ficou sabendo que eu ia parar de cantar, né? Depois de 22 anos de serviços prestados ao rap, eu e o DJ DanDan, num belo momento, saindo da Rinha dos MC's, a gente falou: 'Irmão, eu acho que a gente já deixou nossa contribuição pro mundo e a gente não é tão especial assim, porque a gente não consegue nem pagar uma conta de gás com o nosso rap'.
Não que o rap venha pra nossa vida com a função de pagar alguma conta, mas a gente ali, já com 35, 36 anos de idade, vivendo a aspereza de um subemprego, de não conseguir se manter ainda, de depender de familiares para isso... Meu amor pelo rap é tão grande, eu nunca consegui colocar o rap em segundo plano para uma coisa menor na minha vida. Então, o sonho era de sobreviver e conseguir, pelo menos, pagar uma conta de gás a partir da arte.
Então, dentro deste contexto de despedida, o Ricardo teve um momento e falou: 'Você quer mesmo fazer esse disco, irmão? Você quer mesmo essa oportunidade?'
Eu falei: 'Eu quero, eu preciso, eu preciso gravar essas músicas, eu sei que nenhum lugar vai me acolher, vai me dar oportunidade'. Sempre teve um preconceito muito grande com rap, né Sempre viram como uma arte menor. Como um ruído, né? Então, ele é a pessoa fundamental para isso acontecer. Eu acredito que o o Nó na Orelha, a minha história no rap, só existe por conta desse gesto do Ricardo, que depois, na sequência, me apresentou ao Marcelo Cabral, que trouxe o Daniel Ganjaman para essa história.
Essas são as primeiras memórias de alguém que já estava indo fazer 40 anos, e que era já era muito grato ao rap, ao ponto de entender que era hora de sair de cena, porque já tinha uma história escrita ali.
O Nó na Orelha fala muito sobre a sua relação com São Paulo. E o Coala também é um festival muito paulistano. Para você, o que mudou na cidade e na cena cultural nesses últimos 15 anos? Os lugares que você usou como referência para criar esse álbum ainda existem da mesma forma?
Sim, ainda existem da mesma forma. O festival Coala foi muito gentil com esse convite. Eles foram extremamente generosos, porque a gente ocupa ali, o nosso lugar nesse ecossistema cultural musical brasileiro. Um lugar modesto, um lugar construído com muito sangue. Com lágrima, amor, alegria, sorriso, felicidade e genialidade de músicos que souberam vestir minhas ideias.
Então, você ser headliner de um festival já consolidado, consagrado, com grandes nomes que estão nesse line-up, e tantos outros nomes que poderiam estar nesse lugar, é um presente. Eles nos presentearam, presentearam uma história, presentearam uma geração. O Nó na Orelha não é só eu e os músicos que ali estavam. É todo uma gama de sonhos de pessoas que estavam pulsando música de 2002, 2005 até 2015. É uma geração inteira que entende que podia haver algum tipo de transformação social através da música.
Os lugares continuam os mesmos. 'Não Existe Amor em SP' foi feita no trem de São Paulo para Osasco. Eu cheguei no estúdio e falei: 'Gente, eu acho que eu tenho uma música aqui, eu quero mostrar para vocês'.
Então, a gente continua com olhares de sonhos, com o gosto de desbravar a cidade, a gente continua com o prazer e a alegria de ousar, cruzar a cidade. Mas a gente também ainda continua com os receios do que é transitar pela cidade. A gente continua compreendendo que é uma massa humana que depende do trânsito para coexistir com as outras histórias que acontecem na cidade. O abandono e o descaso continuam o mesmo. Do mesmo jeito que o sonho continua o mesmo. Do mesmo jeito que as novas gerações vêm assim como a minha veio, querendo mudar tudo e acreditando sempre no ser humano. Ao mesmo tempo, o descaso também se ampliou, as desigualdades também se ampliaram, né? Eu acho que tem um tanto disso também nesse documento, para além da sonoridade.
Em 2011, quando o álbum foi lançado, ele furou a bolha e alcançou muito o público da MPB. Hoje em dia, o rap disputa muito mais espaço com o trap e com o funk. 15 anos depois, você mudaria algo nesse álbum? O que se ganhou, e o que se perdeu na indústria?
Eu acho que esse álbum nasceu do da da energia, da situação do momento. A gente está falando de um momento pós internet. De uma pseudodemocratização para, depois, criar demanda. Quando você tem as redes sociais que divulgam tudo o que chega, para todo mundo, você também cria uma malha de necessidade para, depois, isso ser cobrado. Então, nós vivemos o boom tecnológico da internet, para além dos bairros de classe alta, classe média, classe econômica, né? Porque classe intelectual não se mede por esse lugar, né? Então, a gente também tinha esse jovem, ativo, querendo se comunicar com todo mundo dentro de uma tecnologia que era nova.
Então, se o Nó na Orelha acontecesse hoje, seria uma outra história, uma outra coisa. As estéticas são outras, as sonoridades são outras. As favelas do Brasil, as periferias do Brasil, não cansam de reinventar essa música brasileira.
Hoje em dia, o que você diria que te motiva a escrever depois de de tantos anos de carreira?
O rap é tão mágico na minha vida, eu nunca imaginei que eu fosse fazer mais um rap, sabe? Fiquei uns quatro anos sem escrever uma letra de rap. Agora, o ano passado eu voltei a escrever. Eu me emocionei, eu chorei, porque eu não sou digno dessa bênção. E você não manda nisso, sabe? Não é só pegar um conjunto de palavras, ter uma técnica, estudar um flow e abordar determinado tema. A gente não vem dessa escola. A gente vem de um chamado, do que o teu coração tá pedindo. O rap da minha geração é um chamado, não da pra explicar de onde vem essa emoção. A gente vem de uma história de que a gente não tinha o que comer. Então, você não via aquilo como ferramenta para algo. Fazer de um jeito para ganhar lá na frente. Não existe 'lá na frente' em determinados recortes do Brasil. A gente nasce, e cresce, para trabalhar para alguém e para aguentar desaforo. O rap aparece na minha vida como forma de falar que a gente pode ser algo além disso.
E acho que foi por isso que portas se abriram, pessoas se identificaram. Eu fui abraçado, acalentado por tantos grandes nomes dessa nossa música brasileira...
Esse ano, 'Nó na Orelha' fez 15 anos. Em janeiro, você lançou o álbum 'Criolo, Amaro e Dino'. Em abril, você terminou a sua turnê comemorativa de 50 anos. Então você acha que essa apresentação no Coala é mais um desses encerramentos de ciclo? E o que a gente pode esperar para o seu futuro?
Eu acho que esse momento no festival não é um fechamento de ciclo, eu acho que é uma celebração de uma caminhada. Quando um festival, que pode convidar quem quiser, escolhe celebrar uma história, e não um artista, escolhe celebrar uma geração, e não um nome, ela tá falando sobre legado. Tanto sobre o legado que o festival quer deixar, quanto algum tipo de legado que está sendo construído nesses meus últimos 38 anos dedicado ao rap. Porque antes do Nó na Orelha eu existo com o DJ DanDan. E antes disso, tinha a Rinha dos MC´s, que fez 20 anos. Antes de existir tudo isso, tem o Pagode da 27. E antes de tudo isso, tem eu, em 1987, me emocionando, escrevendo meu primeiro rap.
Então, eu acho que o festival, sem saber, tá celebrando alguém que, juntamente com sua geração, dedicou quase 40 anos de sua vida ao que mais ama, e ao que mais respeita, que é o rap.
O disco tem 15 anos e, por consequência, 'Não Existe Amor em SP', também tem 15 anos. O que você diria um pouco sobre o amor nessa cidade tão caótica, mas também tão amorosa, que é São Paulo?
Eu acredito que as pessoas que habitam São Paulo são amorosas. E a cidade é quem a habita. Mas também quem é quem a rege. Quem tem nas mãos o poder de construir pontes entre as pessoas ou destruir possibilidade de ponte entre as pessoas. Então, quem cuida dos poderes, que regem essa massa tão sensível, delicada, plural e complexa de se administrar, que se chama a cidade de São Paulo, ou se afasta da possibilidade de humanização, ou contribui para um caminho melhor para diminuir as desigualdades.
Depois de 15 anos, ande nas mesmas ruas e você vai ver as mesmas situações e recortes de pessoas comendo do lixo e tomando banho com água de esgoto.
O que falar da cidade de São Paulo? Do seu cartão postal, dessa dura realidade que passa por má administração de séculos? Ou podemos falar de todos os coletivos periféricos que dão uma aula sobre como é possível transformar a cidade de São Paulo num lugar mais agradável, mais gostoso. Que a gente tem orgulho de falar, de viver, de respirar?
O ideal seria a gente celebrar e falar: 'Nossa, como essa música não faz mais sentido'. Como seria bom a gente cantar isso e falar: 'Isso é passado. Olha, olha que interessante. Olha, como estava sofrido. Olha, como a poesia gritava, como os grafites gritavam, como o picho gritava...'
E grita, hoje, através de outras de outras poéticas, de outras dialetos e dialéticas que as favelas produzem para que ainda exista esse caminho possível de transformação. Porque se isso estivesse bom, a gente celebrava, cantava para exorcizar a memória ruim e celebrava dias melhores. E estamos, infelizmente, muito longe de chegar nesse ponto. Mas eu ainda acredito, eu confio, eu tenho fé. E eu sei que aos nossos jovens é que vão trazer a transformação. São os jovens que são capazes de mudar isso tudo, desde que não sejam assassinados no percurso possível de suas vidas, né?
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