Luedji Luna reflete sobre intimidade, encontros e o tempo às vésperas dos 10 anos de carreira
Cantora baiana, que estará no Festival Coala neste fim de semana, prepara turnê para celebrar uma década de 'Um Corpo no Mundo' e fala sobre reconhecimento, vulnerabilidade e a chegada aos 40
Perto de completar dez anos de carreira e aos 39 anos, Luedji Luna vive uma fase madura e tranquila, colhendo prêmios como consequência natural de sua arte. Em turnê acústica por espaços menores para resgatar a intimidade com o público e valorizar suas poesias, a cantora baiana planeja celebrar sua trajetória com uma turnê do álbum de estreia, além de manter apresentações com banda completa em festivais e projetos de circulação pelo Norte e Nordeste.
O show já tinha terminado, mas Luedji Luna ainda guardava a atmosfera intimista da apresentação quando recebeu a reportagem do Estadão no camarim do Sesc Petrolina, em Pernambuco. Depois de cantar em formato acústico, pensado para aproximá-la do público e abrir mais espaço para as palavras, a cantora e compositora baiana falou sobre música, encontros, escolhas e o tempo.
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Essa foi a primeira vez da artista em Petrolina, cidade vizinha de Juazeiro (BA). Ela contou que a região já fazia parte de seu imaginário pelas músicas e pelos artistas que encontrou ao longo da trajetória, mas só agora pôde atravessar o Rio São Francisco, conhecer a Ilha do Massangano, provar o peixe local e encontrar o público dali.
Aos 39 anos e perto de completar uma década de carreira, Luedji vive uma fase que descreve como mais tranquila. Se antes diz ter sido muito ansiosa por prêmios, validação e reconhecimento, hoje recebe as conquistas como consequência natural do próprio trabalho.
Essa maturidade aparece também no palco. Em Petrolina, Luedji cantou acompanhada por dois violonistas e quatro backing vocals, uma formação bem mais enxuta que a de seu espetáculo habitual, que reúne mais de dez músicos, com sopros, vozes de apoio e figurinos elaborados.
A redução da estrutura, explica, permite recuperar algo que havia se tornado mais difícil com o crescimento da carreira: o contato olho no olho com a plateia e mais espaço para a poesia das canções.
O momento também é de celebrar a carreira. Em 2027, a cantora pretende realizar uma turnê nacional e internacional para marcar os 10 anos de Um Corpo no Mundo, álbum de estreia que, segundo ela, "abriu um grande portal" em sua vida. Luedji também segue levando sua banda completa às regiões Norte e Nordeste por meio do projeto Natura Musical e prepara um encontro com o Fat Family no Festival Coala, neste domingo, 13.
Na conversa, Luedji fala ainda sobre a importância dos encontros, a relação de sua obra com as mulheres negras, os riscos de uma cultura de cancelamento que não admite a complexidade dos artistas e a passagem do tempo. Prestes a completar 40 anos, diz ainda se sentir, dependendo do momento, com 5, 15, 27 ou até 100 anos.
Confira os principais trechos da entrevista:
Seu show acústico revisita o repertório dos dois discos mais recentes em um formato mais íntimo, de pés descalços e coração aberto no palco. Como surgiu a necessidade de dar esse novo formato às canções?
Meus dois últimos discos foram pensados justamente na perspectiva de me humanizar e mostrar minha intimidade. Eu realmente acho que me revelei e me desnudei muito neles, falando sobre coisas pessoais e da minha relação. Embora tenha tido uma resposta muito bonita do público, senti que ainda não havia dito tudo. Foram dois anos de muitas revoluções intensas na minha vida pessoal e profissional durante a construção desses álbuns.
Quando surgiu a oportunidade do acústico, vi a chance de trazer novos arranjos e canções novas que fazem sentido com o meu presente. É uma proposta completamente diferente do meu show original, que conta com uma big band de mais de dez pessoas no palco, sopros e figurinos. O acústico é mais sintético, nos dá tempo para conversar e dialogar. Como há menos instrumentos e estímulos, o público consegue prestar mais atenção na poesia e no texto.
Esta é sua primeira vez em Petrolina. Qual é a sensação de estar aqui, às margens do Rio São Francisco?
Petrolina sempre esteve no meu imaginário por causa da música, de uma colega de escola que era daqui e também pelas minhas relações com Zé Manoel e Josyara, que é de Juazeiro. Eu sempre senti a cidade perto de mim através dessas pessoas, mas nunca tinha tido a chance de vir.
Eu amei o público e a cidade. Já tomei banho de rio, atravessei para a Ilha do Massangano e comi o peixe local. Achei o público muito quente e atencioso. Os ingressos esgotaram rápido e espero voltar em breve para contemplar quem não conseguiu assistir hoje.
No ano que vem você completa dez anos de carreira. O que mudou na sua forma de compor ao longo desse tempo?
Acho que estou cada vez mais íntima da minha composição. Considero minha escrita muito madura, pois escrevo desde a adolescência, há mais tempo do que canto profissionalmente. A escrita sempre foi um lugar de muito conforto, intimidade e segurança para mim, até mais do que o próprio canto. Sendo assim, não sinto que mudou muita coisa. Continua sendo esse mesmo lugar seguro.
Durante o show, você fala sobre a importância dos encontros e apresenta a canção 'Rota'. Qual é o valor desses encontros para você?
Na música Rota, o corpo da pessoa funciona como uma metáfora para a direção que ela apontou na minha vida. Eu não acredito em coincidências e acho que todo encontro é muito caro, assim como toda vida é. Às vezes, temos encontros breves, que não são permanentes, mas que nos transformam completamente e cujo sentido só vamos entender lá na frente. Devemos ficar atentos para honrar e ser gratos por qualquer encontro, seja ele casual ou repentino, pois ele pode mudar tudo.
Outro momento marcante do show é 'Encruzilhada', uma canção que fala sobre escolhas e sobre ouvir o coração. Como você enxerga essa composição hoje?
Escrevi essa canção em um momento de dúvida na minha vida. A encruzilhada costuma ser vista como esse lugar de incerteza, mas hoje eu a enxergo, acima de tudo, como um lugar de transformação.
Independentemente da escolha que você fizer, vai sair do seu estado de inércia e se mover para algum lugar, saindo dali diferente. É uma canção antiga, mas que faz sentido em qualquer tempo.
No bis do show acústico, você surpreendeu o público ao cantar o hit 'Banho de Folhas'.
Nós realmente não temos bis programado neste show. Costumamos terminar com uma citação do Milton Nascimento. Mas Banho de Folhas é o meu maior hit e eu nunca tinha cantado essa música aqui em Petrolina. Como era minha primeira vez nesta terra, achei que esse público merecia esse momento.
Você vive uma fase de reconhecimento importante: venceu o Grammy Latino em 2025, foi eleita Artista do Ano pela APCA e levou dois troféus no Prêmio da Música Brasileira neste ano. Como recebe essa fase de colheita?
Curiosamente, chega no meu momento mais tranquilo. No passado, eu já fui muito ansiosa por prêmios, validação e reconhecimento, gastando muita energia e dinheiro com isso. Agora que estou mais calma, tudo chega de forma natural, como consequência do meu trabalho. Recebo com a sensação genuína de que mereci e de que posso aceitar esse reconhecimento.
E quais são os planos para celebrar os dez anos de carreira no ano que vem? Haverá turnê?
Sim. Quero fazer uma turnê nacional e internacional de celebração do Um Corpo no Mundo. Até hoje, esse é o meu disco mais celebrado e escutado. Foi o trabalho que me fez cantora e abriu um grande portal na minha vida.
Mesmo tendo gravado outros discos depois, as pessoas continuam pedindo as canções dele nos shows. Sei que será uma turnê com muita demanda. Ainda não tenho uma agenda fechada de datas, mas posso garantir que vai acontecer no ano que vem.
Em breve você se apresenta no Festival Coala com o Fat Family. Como está a preparação para esse encontro?
O primeiro disco que ganhei na vida foi do Fat Family. Eles pavimentaram o caminho do R&B, do neo soul e da black music no Brasil, são muito emblemáticos. Eu já vinha cantando uma música deles em um bloco de referências do meu show.
Quando surgiu o convite do Coala, que tem essa tradição de promover encontros especiais, sugeri imediatamente o Fat Family. Vai ser um show com a minha banda completa, que já é super robusta e megalomaníaca, com mais de dez pessoas, sopros e vozes de apoio, ideal para o formato de festival.
Você também participa de um projeto apoiado pelo Natura Musical que leva a estrutura completa dos seus shows para o Norte e o Nordeste. Qual é a importância de descentralizar essa circulação?
O objetivo é descentralizar os shows, levando a estrutura completa para as regiões Norte e Nordeste. É um "showzão" muito grande, com toda a estrutura que costumo apresentar no Sudeste.
Eu não conseguiria trazer essa banda robusta para Petrolina de forma independente, por exemplo, porque o teatro não comportaria a estrutura e o cachê. O edital é o que viabiliza essa logística. Já fizemos Fortaleza, São Luís e, em seguida, passaremos pelo Pará e por Recife.
E o formato acústico também continuará circulando pelo Brasil?
Sim. A ideia do acústico é justamente circular por teatros e espaços menores que eu já não conseguia acessar com a banda grande por questões de custos e estrutura. Eu estava perdendo a oportunidade de fazer shows em casas menores e de ter esse contato olho no olho com o público. O acústico foi pensado para recuperar essa intimidade.
Sua obra fala de ancestralidade e espiritualidade e parte muito da sua experiência como mulher negra, nascida em Salvador. De que maneira você percebe a identificação do público com aquilo que escreve e canta?
Minha poesia é muito feminina e, não por acaso, meu maior público é composto por mulheres negras. Minha escrita reflete quem eu sou, o que vivo e como o mundo me atravessa.
Com o tempo e a projeção da carreira, o público se tornou mais plural e extenso, mas minha obra continua falando diretamente e com propósito para uma comunidade específica. Falar de mim, sobre mim e a partir de mim é algo que ainda considero necessário e que faz todo sentido para mim.
Você fala abertamente sobre sentimentos como ego e sedução e também sobre seus próprios erros e contradições. Por que é importante mostrar essa dimensão mais humana do artista?
Acho isso importantíssimo, especialmente nesta era do cancelamento e do tribunal da internet, que beira a crueldade. O nível de autocontrole exigido para se colocar no mundo hoje deixa o artista engessado e com medo de simplesmente ser complexo e assumir suas bagagens.
Se errar é humano, por que o erro do artista precisa ser sentenciado como um crime na internet? Antes que qualquer "podre" meu aparecesse, eu mesma já lancei dois discos dizendo: "Eu sou isso aqui, vamos ver quem vem comigo". São apenas vivências humanas de uma mulher jovem que quer viver.
Falando em viver, você está com 39 anos e prestes a completar 40. Como lida com a passagem do tempo?
Eu me sinto muito jovem com 39 anos. Às vezes me sinto com 15, com 5, com 27 ou com 100 anos, dependendo de com quem estou falando ou do horário do dia. O tempo é muito relativo.
Comecei a refletir mais sobre isso recentemente, também motivada pela perda precoce de uma amiga. Percebi que não vemos o tempo passar. Eu estava com 15 anos ontem, fui para São Paulo aos 20 e poucos e, num piscar de olhos, já vou fazer 40.
Como não sabemos o dia da nossa morte, a questão é como escolhemos nos colocar no mundo a partir dessa premissa. Ainda estou apenas refletindo, sem conclusões fechadas.
O que você tem ouvido hoje? Quais artistas e sons têm despertado sua curiosidade?
Tenho escutado muito o último disco da Bebé Salvego, o novo trabalho do Odeal, que é de Londres, e as faixas do novo disco do Zudizilla. E, claro, o de sempre: Djavan, até o fim.
Coala Festival
- Com Maria Bethânia, Emicida, Luedji Luna, Tom Zé, Rubel, Criolo, Marcos Valle, Ana Frango Elétrico e outros
- 12 e 13/9, 12h
- Memorial da América Latina. Av. Mário de Andrade, 664, Barra Funda
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