Antônio Carlos e Jocafi: 'A musicalidade mundial sempre foi baseada no centro de tudo: a África'
Dupla comenta o lançamento de "JID026", álbum gravado em parceria analôgica com o projeto Jazz is Dead
Uma das duplas mais importantes na formação de repertório da música brasileira, Antônio Carlos e Jocafi lançaram no dia 3 de abril o novo álbum JID026. Em parceria com os produtores norte-americanos Adrian Younge e Ali Shasheed Muhammad, o disco foi lançado pelo selo internacional Jazz is Dead e gravado em um estúdio analógico de Los Angeles.
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Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, os ícones do samba e da música baiana explicaram o processo de conexão com os músicos dos EUA. A dupla entrou em contato com os músicos da gravadora e projeto norte-americano por intermédio de Beto Barreto, idealizador e guitarrista do BaianaSystem. Amigo próximo de Antônio Carlos e Jocafi, o fundador da banda de afro rock já havia trabalhado com membros fundadores do Jazz is Dead.
Os brasileiros rapidamente se encantaram com a proposta do estúdio: em um formato analógico e sem efeitos, a ideia de produção no Linear Labs Studios em Los Angeles era crua e autêntica. O desafio, além do fato de não "ter nada para cobrir erro de ninguém" (Antônio Carlos), era o tempo. Com apenas dez dias nos EUA, dois estavam preenchidos com ensaios e shows, totalizando oito dias de criação para as faixas e produção em estúdio.
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Para o cantor, o projeto se tornou singular devido ao pouco tempo de composição, que ocupou seis horas diárias dentre os oito dias em Los Angeles. "Jocafi sentou com o violão, tocou e cantou as músicas. Não teve tempo de passarmos, ensaiarmos juntos, cantando. Quando ele acabava de cantar eu ia lá, em algum lugar, cantava em cima do que ele já tinha cantado e ele dobrava comigo. É uma coisa muito artesanal". O músico ressalta que ambos aprovaram o resultado, mesmo feito sob pressão e pouco planejamento.
Para Jocafi, o trabalho nos EUA reafirmou a importância do continente africano no samba, funk, jazz e soul. "A musicalidade mundial sempre foi baseada em uma coisa importantíssima, que é o centro de tudo: a África, que nos trouxe o coro e as batidas dos tambores e dos atabaques. Daí partiu toda a nossa cultura, a música americana e o rock." O artista complementa a influência no continente sul-americano: "O funk pode ser feito no Brasil, como pode ser feito em Cuba, como pode ser feito nos Estados Unidos ou no México. Então nós não temos muita diferenciação".
Para Antônio Carlos, a faixa "Rala-Bucho" comprova o fenômeno africano no gênero: "Eu fazia o baixo da música, Jocafi fazia o centro, e a gente criava a música". Expressão idiomática nordestina para um baile popular, ou especificamente para a dança na Bahia, o nome da canção reflete sua sonoridade. Com uma linha de baixo contagiante e percussão animada, a música tem influências da música afro-brasileiras muito bem demarcadas. "'Rala-Bucho' é a prova dessa junção que é a África. E eu acho que ficou muito boa."
Segundo Jocafi, a presença africana na cidade natal da dupla, Salvador, transpira em todos os aspectos da vivência. "E essa coisa de musicalidade brasileira e americana, principalmente a parte que vem do negro, do preto, que vêm da África, ela foi colocada em cada país à sua maneira. Foi colocada nos Estados Unidos, foi colocada em Cuba, foi colocada no México e foi colocada no Brasil, Colômbia e Venezuela. Cada um recebeu a parte africana à sua maneira. Inclusive até, para você ver como é, até o candomblé, as comidas. A Bahia acho que foi a mais bem favorecida, porque na comida, então, chegou lá e arrasou."
Antônio Carlos concorda, exaltando a terra soteropolitana: "Não, a Bahia, na verdade, é a África. Fui fazer um disco em Angola, e lá eu não podia falar a palavra Iemanjá. Você acredita? Gravar uma música e falar a palavra Iemanjá. Então a Bahia, desculpe a falta de modéstia, é muito mais África do que a África. Lá, você sente a África pulsando. Em Angola, pelo menos, eu fui lá e não senti".
Carlos também ressalta a importância da temática das religiões de matriz africana em sua carreira solo, antes de conhecer o eterno parceiro musical. "Nós passamos a vida trabalhando com a música preta religiosa. A música que me levou, antes de conhecer Jocafi, para São Paulo, foi "Festa no Terreiro de Alaketu", que era assim: 'Eparrei Iansã, eparrei/Ora iê iê ô/Eparrei Iansã, eparrei'. Comecei fazendo esse tipo de música, ele fazendo samba de roda. Então é o seguinte, é o negro, a cultura negra, ela junta tudo, ela amarra tudo."
Donos de sucessos como "Você Abusou" e "Muita Zorra!", a dupla começou a carreira conjunta no final dos anos 1960, sempre abordando os temas da crítica social, humor, religiosidade afro-brasileira e a observação do cotidiano em Salvador. Hoje, trabalham com artistas de diferentes correntes musicais, mas que acompanham a mesma visão crítica e de resistência. Para Antônio Carlos e Joacafi, o trabalho com Marcelo D2, BNegão e Russo Passapusso, do BaianaSystem, preparou os dois para o projeto com Jazz is Dead.
Sobre o apoio à nova geração da música brasileira que trabalha com temas e gêneros similares, Antônio Carlos ressalta os projetos conjuntos com Passapusso, que rendeu dois Grammy's ao trio. "Essa coisa foi muito bacana que nos preparou para gravar com músicos americanos. Nós nunca tínhamos feito isso. E aí, Graças a Deus, teu tudo certo. Podia não dar, né. Podia não dar a química, mas felizmente a química deu. E foi o que vocês viram aí!"
O cantor complementa: "Eu gostei muito do trabalho. Mesmo não estando perto deles, quando eles fizeram a cobertura do que nós deixamos lá. Nós só deixamos lá [gravado] o violão, a voz, algumas coisas que a gente modulou de voz para por nos princípios das músicas, a percussão, pronto. E aí eles fizeram a parte deles. Voltaram para o Rio de Janeiro, e aqui nós fizemos o coro, nós demos algumas penadinhas e foi isso. Deu certo no final, né?" JID026 sintetiza a identidade musical de Antonio Carlos e Jocafi, em uma expansão sonora simultânea a um retorno às origens. Confira o álbum e faixas de destaque como "Rala-Bucho", "Bacaxá", "Quixidó" e "Tá Com Medo Por Quê?" em todas as plataformas digitais.
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