Angra fala à RS sobre turnê de 'Holy Land', Alírio Netto, fim de hiato e futuro
Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa celebraram o momento atual do grupo, elogiaram o novo vocalista, esclareceram circunstâncias da pausa anterior — bem como a saída de Fabio Lione — e convidaram público para shows especiais em São Paulo
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa celebraram o momento do Angra após um breve hiato e a troca do vocalista Fabio Lione por Alírio Netto. O grupo comemora 30 anos do disco Holy Land com shows especiais que contam com ex-membros como Luís Mariutti e Edu Falaschi, além de apresentações no exterior. Eles também esclareceram que a pausa serviu para reavaliações internas e não descartaram projetos futuros reunindo antigas formações da banda.
O Angra vive um ano atípico. Após os anúncios da saída do vocalista Fabio Lione e a chegada de Alírio Netto, ambos feitos no fim de 2025, a banda realizou shows especiais e muito diferentes entre si. Primeiro, vieram as apresentações de reunião com três ex-integrantes — Edu Falaschi (voz), Aquiles Priester (bateria) e Kiko Loureiro (guitarra) —, no festival Bangers Open Air e na casa Espaço Unimed, ambos em São Paulo. Em seguida, o grupo embarcou em uma turnê para celebrar os 30 anos de Holy Land (1996), seu segundo álbum de estúdio, notório por aprofundar a relação do grupo com a música brasileira e erudita.
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A parada desta tour em São Paulo renderá dois shows especiais, no Tokio Marine Hall, em São Paulo. Na sexta, 2, o quinteto composto por Alírio, os guitarristas Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa, o baixista Felipe Andreoli e o baterista Bruno Valverde executam Holy Land com a participação do baixista original, Luís Mariutti. Já no sábado, 3, eles recebem Edu Falaschi para comemorar os 25 anos de Rebirth (2001), em formato similar ao visto em abril, mas sem Priester e Loureiro. Os ingressos estão à venda no site Ticketmaster.
Antes dessas apresentações, Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa concederam uma detalhada entrevista à Rolling Stone Brasil. Celebraram o momento atual do grupo, demonstraram enorme satisfação com a chegada de Alírio Netto, destacaram a importância de Holy Land — inclusive como fãs, pois ambos não participaram do disco — e esclareceram as circunstâncias do hiato, bem como a saída de Fabio Lione.
A entrevista completa, em vídeo, pode ser assistida logo abaixo. Na sequência, confira algumas das principais respostas em texto.
https://www.youtube.com/watch?v=vk7ZW__jsQQ
Angra — entrevista com Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa
Sobre contar com Luís Mariutti e Edu Falaschi nesses shows:
Felipe Andreoli: Luís é um dos criadores daquele som e identidade que até hoje faz parte da nossa identidade. Holy Land continua sendo uma referência para nós. E as linhas de baixo do Holy Land continuam sendo referência para mim também.
Marcelo Barbosa: Em relação ao Edu Falaschi [com quem o guitarrista tocou no Almah, assim como o baixista], tem sido um momento muito legal de reconciliação — não no sentido de que estivéssemos brigados, mas cada um seguiu o seu caminho. Gravamos quatro álbuns juntos no Almah, fizemos muitas turnês e consolidamos uma amizade muito forte. Disse a ele que sentia falta.
Sobre a ausência de Ricardo Confessori, baterista de Holy Land, neste show:
Felipe: Da mesma forma que convidamos o Luís — que aceitou o convite —, convidamos o Ricardo, que não quis participar. Tem os motivos dele, que só temos a respeitar. Seria muito legal tê-lo para celebrar o Holy Land junto com a gente, mas ele tem toda a liberdade de tomar as decisões que ele quer. Infelizmente, ele preferiu não participar dessa vez.
Sobre a retomada de contato com Edu Falaschi, com quem integrantes do Angra estiveram rompidos, a nível pessoal, nos últimos anos:
Felipe: Quando as pessoas veem essas cisões, elas pensam no artista e na música. Mas para a gente, no âmbito pessoal, vai muito além. São quase como separações familiares. É muito doloroso. Sempre tive uma amizade muito grande com Edu, de frequentar a casa um do outro. Retomar isso foi muito prazeroso.
Sobre a aceitação a Alírio Netto em meio à turnê dos 30 anos de Holy Land:
Marcelo: Tem sido duplamente prazeroso: revisitar esse repertório, com algumas músicas que nunca tocamos, e ter o Alírio Netto, um irmãozão, de quem sou amigo há 30 anos. Não precisou de adaptação, de conhecer a pessoa que está chegando. Ele sempre fez parte do grupo, de certa forma; não como músico, mas como amigo e parceiro. Alírio tem uma voz muito versátil e transita com maestria pelo repertório do Andre Matos, que é uma voz muito única e especial, com registros muito agudos.
https://www.youtube.com/watch?v=Z2_GDv13QiU
Sobre o show especial no Olympia, em Paris, cidade que abraçou muito o Angra na época de Holy Land:
Felipe: É uma casa histórica. Poderia ser um momento difícil de transião de novo vocalista, mas estamos vendo coisas que não acontecem há 20 e tantos anos voltando a acontecer com o Angra. Uma das grandes razões pelas quais foi possível fechar esse show é o Alírio ter a capacidade de interpretar as músicas do Andre com maestria, com direito ao piano, tendo a alma do Angra muito nele. Acho que no momento que o pessoal na França — especialmente o Olivier Garnier, que foi o grande responsável por realizar esse show — viu que o Alírio estava na banda, falaram: "Putz, agora é o momento de celebrar o Holy Land em grande estilo". Não fazíamos um show assim na Europa há muto tempo. Mostra que tomamos uma decisão bastante acertada.
Sobre Alírio Netto já ter sido cotado para o Angra 13 anos atrás — e Felipe ter dito que, se dependesse dele, o vocalista teria entrado para a banda naquela época:
Felipe: Acho ele ainda mais preparado hoje do que era naquela época. Já era uma excelente escolha há 13 anos, mas eu não decido sozinho. E existiam circunstâncias da época. Fabio entrou como um convidado para fazer um show no navio 70,000 Tons of Metal por sugestão do dono do navio, que é o Skipper. E ele mandou muito bem, nos demos muito bem e tudo fluiu naturalmente. Tivemos vontade de continuar. Também existia na época um papo, uma vontade de fazer um reality show para escolher o novo vocalista. Era com MTV. Aí a MTV fechou, esse plano também foi por água abaixo, e ao mesmo tempo começamos a fazer planos com o Fabio, o público tinha curiosidade de ver o Angra com o Fabio. Tanto é que levou um tempo para efetivarmos o Fabio como cantor, após ele ficar como convidado um tempão. Tenho muito orgulho dos trabalhos que fizemos com o Fabio, especialmente Cycles of Pain (2023), onde nossa relação realmente amadureceu. Temos muita gratidão ao Fabio.
Sobre o hiato mais rápido da história do heavy metal — a ponto de não ter durado nem um ano:
Marcelo: A partir de quantos meses é considerado um hiato? Não sei qual é a definição. O fato é que, desde que eu entrei [em 2015], a banda estava num ritmo frenético. Só paramos na pandemia. Ficamos uns seis a sete meses sem fazer show e, para mim, isso é um hiato. Mas as coisas são dinâmicas. Existem teorias de que fingimos um hiato para vender mais ingresso... a banda precisava parar por um tempo, só que as coisas acontecem. Pintou essa oportunidade de sermos headliners do Bangers Open Air, com a reunião... como você diz "não" para um negócio desse? Então, voltamos a estar juntos, voltou a dar vontade de estar na estrada, e: "pô, quanto tempo mais a gente vai esperar depois disso?" Aproveitamos para marcar outras coisas.
Sobre como a relação com Fabio Lione influenciou o hiato:
Felipe: A intenção do hiato era muito genuína: descanso, tempo para reorganizações, etc. Muitas dessas coisas acabaram ficando ainda pendentes, porque não paramos o tanto que precisava para resolver determinadas coisas. E devo dizer: um dos motivos desse hiato era olhar para a relação interna da banda, que já não estava muito legal, especialmente com o Fabio. Acham que inventamos um hiato para tirar o Fabio, quando, na verdade, é o contrário: um dos motivos desse hiato era conversar e tentar chegar num ponto comum para seguir com o Fabio. O futuro quis que as coisas não fossem assim. E aí, claro, surgiu a oportunidade do Bangers, que nos deu ânimo, junto da entrada do Alírio. Se em algum momento acharmos que precisa parar, vamos parar. Mas enquanto houver vontade e pique de tocar, acho isso bom. A não ser que, talvez, as pessoas prefiram que a gente fique no hiato. [Risos.]
https://www.youtube.com/watch?v=K9170NvCBJ8&pp=ygUeZmFiaW8gbGlub2UgZW50cmV2aXN0YSByb2xsaW5n
A melhor música de Holy Land:
Felipe: "Holy Land" (faixa-título) é uma boa candidata. Também adoro "Silence and Distance". Tem muitos momentos, mas acho que essas duas aí. Além disso, "The Shaman" é muito legal de tocar ao vivo. Entrei neste ano em uma nova fase de ficar de bem com cantar. Por muitos anos eu deixei isso de lado, cantava com má vontade, mas esse ano eu decidi que iria me dedicar a isso mais. Essa música tem bastante backing vocals, então motivou a estudar mais. E ter o Alírio, um dos grandes vocal coaches do país, na banda, ajuda bastante também.
Marcelo: Para mim, essas coisas são dinâmicas; vão mudando. Acho que atualmente "Silence and Distance" tem sido a minha favorita. Estou meio em lua de mel com essa música, por ela ter um caráter harmônico muito interessante. A parte da harmonia daquele disco sempre me pegou muito. E música que eu não ligava muito e nessa turnê eu tenho gostado muito de tocar é "Deep Blue". Não só pelo solo, que é lindo, mas nas outras vezes que tocamos, para mim era mais uma música. Hoje tenho um olhar muito diferente.
Sobre chances de uma nova reunião com ex-integrantes, no formato do show no Bangers Open Air 2026:
Felipe: As portas estão sempre abertas. Essa reaproximação com Aquiles e Edu foi tão bem-sucedida que deixou o gostinho de quero mais. Tanto que Edu e Kiko vão participar de um festival que o Angra fará no Japão dia 25 de outubro. Infelizmente, o Aquiles não pôde estar na data, mas agora isso está no universo de possibilidades. O mesmo se estende para Luís, Ricardo e Fabio. Nunca queremos fechar as portas para ninguém.
Sobre a possibilidade de gravar um álbum com ex-integrantes:
Felipe: Acho que está aberto. Se artisticamente fizer sentido, estando num momento certo para que isso aconteça, não vejo nenhum problema. Acho que seria muito interessante de fazer. Agora, se é uma coisa que está nos planos... não. Até porque nem estamos pensando em disco. A palavra "disco" no momento é proibida dentro do Angra. Espero que isso mude em breve porque, especialmente como esses shows estão indo bem e essa turnê está sendo tão prazerosa de fazer, a vontade de compor para mim, pessoalmente, está crescendo a cada dia. Mas no momento em que isso virar um futuro de curto ou médio prazo, acho que seria muito legal essa ideia. Não vejo nenhum motivo para não fazer isso.
Marcelo: Seria demais. Não temos nenhuma conversa a respeito disso — nem de disco só com a gente. Imagina a complexidade que envolveria reunir toda essa galera. Acho que, em primeiro lugar, tem que fazer sentido artisticamente e pessoalmente. Compor junto, estar junto gravando, estar junto em turnê... mesmo quando você faz isso com pessoas com quem você não tem nenhum ajuste a ser feito, é muito difícil e pode ser cansativo. Então, quanto mais gente envolvida nesse processo, mais as coisas têm que estar alinhadas e com todos felizes, na mesma página e na mesma intenção. Sendo assim, acho que seria demais ter um registro que reunisse essas formações pelas quais o Angra já passou, cada uma com a sua devida importância, com o seu devido mérito. Estou 100% aberto a isso também.
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