'Morar no Brasil é muito melhor, mas aprendi a ser feliz na rotina', diz Maria Fernanda Cândido
Atriz, que vive na França desde 2018, volta aos palcos brasileiros com o espetáculo 'Quando Despertarmos de Entre os Mortos', de Henrik Ibsen, sob direção de Elias Andreato e ao lado do amigo Celso Frateschi
Maria Fernanda Cândido retorna aos palcos brasileiros na peça "Quando Despertarmos de Entre os Mortos", último texto de Henrik Ibsen, sob direção de Elias Andreato e ao lado de Celso Frateschi. Em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, o espetáculo debate arte, memória e frustrações humanas. Radicada na França desde 2018 com a família, a atriz mantém uma intensa rotina entre os dois países e destaca que viver no exterior reforçou sua identidade e a importância de valorizar a cultura brasileira.
Em 2024, a atriz Maria Fernanda Cândido, de 52 anos, vivia experiências intensas na sede do Théâtre du Soleil, em Paris. Mergulhada nos bastidores da companhia fundada pela diretora francesa Ariane Mnouchkine, ela participava de oficinas de interpretação e acompanhava os ensaios da peça Ici sont les Dragons. De repente, o telefone tocou, e a chamada era de um amigo brasileiro.
O ator Celso Frateschi, de 74 anos, veio com o convite para que trabalhassem juntos em um projeto: o espetáculo Quando Despertarmos de Entre os Mortos, a peça derradeira do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), escrita em 1899 e pouco conhecida no Brasil. "Fiquei encantada pelo texto e a admiração pelo Celso, como artista e figura, só me fez aceitar", afirma a atriz. "Convivemos por quatro anos na peça O Evangelho Segundo Jesus Cristo (2001), excursionando Brasil e Portugal, fizemos os papéis de pai e filha na série Um Só Coração (2004), da Globo, e sei que é um daqueles mestres com quem só aprendemos."
Sob a direção de Elias Andreato, Quando Despertarmos de Entre os Mortos estreia nesta quinta, dia 8, no Sesc Pinheiros, com um elenco que reúne ainda a atriz Maria Manoella e os atores Angelo Brandini e Fernando Nitsch.
Para Frateschi, o texto de Ibsen, tão celebrizado por obras como Casa de Bonecas (1879) e Um Inimigo do Povo (1882), é uma dramaturgia que estimula o exercício de liberar a mente para perceber metáforas sobre o comportamento humano. "Existe uma confusão entre persona e personagem que reduz a nossa capacidade de interpretação política", explica. "O teatro de depoimentos, tão comum, pode comover, mas limita o questionamento que precisamos desenvolver sobre os assuntos."
Na peça, Frateschi é o velho escultor Rubek, que leva uma vida de ócio e fartura e mantém um casamento monótono com a jovem Maja (papel de Manoella). O grande talento de escultor, reconhecido no passado, foi simplificado às exigências de um mercado que o enriqueceu, mas trouxe frustrações, como a de produzir bustos de figuras ilustres. Nos tempos áureos, Rubek tinha como musa a jovem Irene (interpretada por Maria Fernanda), que, entre os 15 e 19 anos, posava para o artista e, sem maiores explicações, foi descartada. Um reencontro, décadas depois, traz à tona os ressentimentos e a possibilidade de um novo despertar.
Maria Fernanda olha para o palco em fase de montagem do Teatro Paulo Autran e comenta a sua admiração para Frateschi. "Olha o tamanho desse cenário, a beleza desta luz, é tudo rico, tão bonito", declara. O ator lembra uma frase célebre do diretor e dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), um dos mentores do Teatro de Arena, onde começou a sua carreira: "Tem muitas formas de teatro - e eu prefiro todas."
Em mais de 50 anos de carreira, Frateschi é o artista engajado, aquele que leva mensagem políticas para o palco e nunca desviou de assumir seus posicionamentos dentro e fora de cena. Segundo ele, muitos poderão definir Quando Despertarmos de Entre os Mortos como um exemplar do chamado "teatrão", quem sabe até tradicional e "careta", mas é essa falta dessa amplitude que limita as opiniões. "Sinto as pessoas envolvidas com suas próprias histórias e a teatralidade, o simbolismo perdendo espaço", justifica. "Potencializar a ficção ajuda a discutir a realidade."
Como diretor, Elias Andreato, de 71 anos, conecta Quando Despertarmos de Entre os Mortos a um mundo em que as pessoas vivem cercadas de imagens, discursos e opiniões e distantes da experiência real de estar vivo. Para ele, Rubek e Irene não se reencontram, eles se confrontam com aquilo que deixaram de viver. "Não é a morte que os assombra, mas a percepção de que a vida não aconteceu", reflete. "Ter Maria Fernanda como Irene significa essa constante mutação na vida porque ela se joga da televisão para o cinema, da França para o Brasil e vai para o teatro com a inteligência de quem busca as descobertas."
Maria Fernanda garante que Irene foi uma jovem que se tornou mulher diante de uma situação vulnerável na sociedade da época: a modelo viva que se desnudava diante de um artista. A própria atriz já derrubou rótulos ao longo da carreira e, fora do País desde 2018, garante que nunca se sentiu mais brasileira, como artista e cidadã.
Casada há 21 anos com o empresário francês Petrit Spahira, ela e os dois filhos, Tomás, de 20, e Nicolas, de 16, se mudaram para a França por um acordo com o parceiro - o pai dele estava com a saúde debilitada, e Spahira precisava tomar conta de alguns negócios. "Não é justo só um sacrificar a sua carreira por causa do outro e, desde o começo do relacionamento, a prioridade profissional foi minha", reconhece. "Não foi uma adaptação fácil, morar no Brasil é muito melhor, mas aprendi a ser feliz na rotina."
Na ponte aérea França-Brasil, a artista reafirma que sua identidade brasileira foi aflorada e, nas idas e vindas, rodou os filmes A Paixão Segundo G.H., de Luiz Fernando Carvalho, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, fez uma participação rápida na novela Renascer e apresentou por aqui a peça Balada Acima do Abismo. A montagem, inspirada na obra da escritora Clarice Lispector (1920-1977), estreou em Paris e foi apresentada, inclusive, no Théâtre du Soleil. "Nos trabalhos que faço lá fora, a brasilidade se consolida pela minha presença e levo as palavras de Clarice para o mundo", explica. "O Brasil tem problemas sérios, mas, agora, mais do que nunca, precisamos posicioná-lo lá fora através das suas riquezas."
Quando Despertarmos de Entre os Mortos
- Onde: Sesc Pinheiros - Teatro Paulo Autran (R. Pais Leme, 195)
- Quando: Até 8 de novembro. Quintas a sábados, 20h; domingos e feriados, 18h. Sessões extras nos dias 29/10 e 5/11, às 17h.
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