Misoginia impera no Top 10: metade das músicas chama mulheres de "puta"
Das dez músicas mais ouvidas no Spotify Brasil, cinco usam o palavrão "puta" para se referir a mulheres. O post Misoginia impera no Top 10: metade das músicas chama mulheres de "puta" apareceu primeiro em POPline.
A lista das dez músicas mais ouvidas do Spotify no Brasil é marcada pela ausência de mulheres, mas também chama atenção a maneira como elas são retratadas nas letras. "Puta" é a palavra mais usada pelos intérpretes masculinos. O termo pejorativo aparece em metade das faixas do Top 10 - um dado importante diante da ascensão do movimento misógino "redpill" em comunidades virtuais.
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"Famoso Ímã", a segunda música mais tocada da semana na plataforma, com 7,2 milhões de reproduções, é um funk que trata de um homem que virou ímã para as mulheres por ostentar um símbolo de status. A letra traz versos como "Só marchando as puta" (sic). A retratação da mulher como objeto sexual descartável é sintetizada no verso "Eu não trouxe rosa, só vim te comer".
Outros casos de objetificação
Este é um funk de MC Lele JP com MC Poze do Rodo, preso em um esquema de lavagem de dinheiro, MC Leoziho ZS e DJ Gordinho da VF. Mas "Reliquia 2T", do DJ GU com MC Vine7, MC Tuto, MC Joãozinho VT, MDkziin e MC Fr da Norte; "Amo Minha Favela", do DJ Japa NK com MC Meno K; "Carnívoro", do MC Jacaré com MC Lele JP, MC Negão Original e DJ Japa NK; e "Diário de um Cafajeste", de MC Lele JP com MC Meno K, MC Negao Original, MC Ryan SP e MC Tuto, seguem a mesma linha. Estão entre as mais tocadas do país.
Em "Relíquia do 2T", que acumula 72 milhões de streams no Spotify até o fechamento desta matéria, ouve-se "Quantas puta mercenária que eu já comi sem colete" (sic), por exemplo. Quer outro? Em "Carnívoro", entoam "Cê não quer, as puta quer, eu já tô metendo o pé / Se ela larga, outras quer, o que não falta é mulher" (sic). As assessorias de nenhum dos funkeiros quis tratar do assunto quando procuradas pelo POPline.
Visão feminina sobre misoginia no Top 10
"Ainda existe essa visão machista em muitas letras, só que agora a gente também tem mulheres respondendo à altura, ocupando espaço e mostrando que a gente não é descartável coisa nenhuma", Valesca Popozuda, uma das vozes femininas pioneiras no funk, diz ao POPline. Mas os dados mostram que a perspectiva feminina ainda não tem o mesmo alcance. No Top 50 da parada de streaming nesta semana, aparecem apenas sete mulheres, com destaque para Anitta e Marília Mendonça em dose dupla.
Valesca afirma que incomoda o uso da palavra "puta" com intuito de desrespeitar, objetificar e inferiorizar a figura feminina, como ainda acontece em músicas atuais. "Nenhuma mulher é menor ou maior por causa disso. Eu sou uma mulher livre, com muito orgulho. Se quiserem taxar isso como xingamento, que seja", desdenha.
Machismo nas letras de músicas sertanejas
A objetificação de mulheres não é exclusividade do funk. Já existem artigos acadêmicos sobre o machismo nas letras de música sertaneja também. Em "O machismo em músicas sertaneja romantizadas: uma análise crítica do discurso", publicado na revista Desenredos, os pesquisadores Maria Micaely Macedo de Melo e Silvio Nunes da Silva Júnior analisam como o machismo é propagado no sertanejo com embalagem romantizada. Para isso, utilizam músicas das duplas Jorge e Mateus e Henrique e Juliano.
A conclusão é que a mulher aparece de forma passiva e submissa nas músicas. "Pode-se afirmar que algumas músicas sertanejas propagam, tanto de forma reinante quanto de modo velado, o machismo na sociedade, isso porque as pessoas se deixam levar pelo ritmo do gênero musical e, outras vezes, pela abordagem romantizada de muitas músicas, naturalizando ideologias machistas", diz o texto.
Já a professora de língua portuguesa Vivianne Freire Valladão tratou do tema em seu TCC em 2021 no IFES - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo. Em "O discurso misógino e machista em letras de músicas sertanejas", ela analisou quatro canções contemporâneas, como "Litrão", de Matheus & Kauan. Esta traz versos como "Você decide a minha boca ou a do litrão" e "Vai escolher amanhecer na farra ou no meu colchão?". A professora destaca que a letra impõe a vontade do homem como a melhor e mais vantajosa para a mulher.
"Em síntese, em um contexto de grandes atos violentos contra a mulher, é necessário refletir, questionar e desconstruir argumentos que são perpetuados na sociedade, mesmo que velados e disfarçados em melodias musicais, a fim de tentar diminuir ou combater um cenário que, muitas vezes, naturaliza atitudes misóginas e machistas, ocasionando um alto índice de feminicídio no país", conclui.
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