Miriam Mehler celebra 90 anos em peça que estreia em São Paulo: 'Tive medo de não dar conta'
A atriz, que trabalhou no Teatro de Arena, TBC e Oficina, protagoniza a comédia dramática 'Sob o Céu de Paris', e afirma que tanto o público como a classe artística mudaram de comportamento
No auge da pandemia, a atriz Miriam Mehler acreditou que sua carreira estava encerrada e, apesar de um certo aperto no coração, sabia que tudo tinha valido a pena. O convite para uma participação no espetáculo A Herança, dirigido por Zé Henrique de Paula em 2023, mostrou que a artista se enganara. As temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro devolveram o eco dos aplausos aos seus ouvidos.
Um acidente doméstico, porém, levou Miriam a fraturar a bacia em agosto do ano passado e, depois de um mês imobilizada, veio um outro problema: a necessidade de uma cirurgia no intestino. Desta vez, Miriam considerou a sua aposentadoria decretada e, para surpresa consigo mesma, volta aos palcos em Sob o Céu de Paris, texto de Gabriela Rabello dirigido por Gabriel Fontes Paiva, que estreia nesta quinta, 4, no Itaú Cultural.
A intérprete, que completa 90 anos no dia 15, contracena com o ator Walter Breda e a atriz Rosana Maris em um conflito de gerações que contrapõe questões familiares, políticas e do cotidiano de São Paulo. "Quando Gabriel me convidou, tive medo de não dar conta e quase recusei, afinal, tenho noção da idade", assume. "Mas estreio com texto decorado, nunca usei ponto eletrônico e, no máximo, coloco no palco um aparelho de audição porque tenho dificuldade de escutar o colega mais distante de mim."
O casal Ana Angélica e Ivan (representado por Miriam e Breda) mora há 60 anos em um confortável apartamento próximo à Praça Marechal Deodoro. Com a inauguração do Minhocão, o elevado que liga a zona oeste ao centro, em 1971, o imóvel desvalorizou gradativamente, a sensação de insegurança aumentou e, em paralelo, a família enfrentou a prisão e o exílio do filho, Roberto, um militante político.
A namorada dele morreu na ditadura, e Ana Angélica e Ivan criaram a neta, Cecília (papel de Rosana Maris), que hoje vive no interior. As décadas se passaram, questões mal resolvidas ganharam maiores proporções e, em uma visita de Cecília aos avós, é detonada a problemática da peça. "São três ótimos papéis e uma personagem incomum para a minha idade", diz Miriam. "Ana Angélica, além de ter conflitos próprios, está ligada às discussões políticas e sociais da atualidade."
É assim, com a mesma relevância que conduziu sete décadas de carreira, que Miriam celebra 90 anos em cena. Filha de um austríaco e de uma alemã, a garota nascida em Barcelona, na Espanha, chegou ao Brasil aos três anos. Os pais, ambos judeus, fugiram do nazismo e da ditadura franquista, às vésperas de estourar a Segunda Guerra Mundial e, como tantos imigrantes, começaram do zero em São Paulo. Karl Mehler largou a advocacia e se dedicou ao mercado imobiliário na metrópole em expansão e ficou desapontado quando a filha avisou que ingressaria na Escola de Arte Dramática (EAD). "Na época, não recebi apoio algum e meu pai pediu que eu não usasse o seu sobrenome, o que não acatei", afirma. "Com o tempo, ele entendeu minha vocação e, orgulhoso, guardava jornais com críticas das peças em que atuava."
Miriam Mehler é uma rara atriz - se não for a única - que trabalhou nos três pilares da cena moderna brasileira: o Teatro de Arena, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e o Teatro Oficina. No Arena, ela estreou profissionalmente em 1958 com Eles não Usam Black-Tie, peça de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), sobre uma família operária polarizada durante uma greve. "Eu me emociono até hoje ao lembrar dos aplausos no final das sessões porque sabíamos que estávamos protagonizando um acontecimento", recorda. "Saí do Arena para o elenco do TBC, onde fiquei quase cinco anos e fiz Um Panorama Visto da Ponte, O Anjo de Pedra e A Escada, entre outras montagens."
A chegada ao Teatro Oficina, em 1963, quase virou um trauma. Na primeira leitura da peça Quatro num Quarto, do russo Valentin Kataev (1897-1986), o diretor belga Maurice Vaneau (1926-2007), exagerou na insatisfação e disparou "menina, você é muito ruim!". Miriam, desacostumada às críticas negativas, ficou um mês trancada em casa e só voltou aos ensaios por insistência do ator Renato Borghi.
Os desempenhos de Miriam nos espetáculos Pequenos Burgueses e Andorra, clássicos do repertório do Oficina, provaram o equívoco de Vaneau em sua avaliação. "Foi fundamental para a minha formação participar destas três escolas tão diferentes", declara. "No Arena, TBC e Oficina, aprendi que existem jeitos e jeitos de fazer teatro e é preciso trocar com pessoas e linguagens."
Quando a personagem Ana Angélica, de Sob o Céu de Paris, comenta o quanto a região da Vila Buarque e de Santa Cecília decaiu depois do Minhocão, Miriam pensa no Teatro Paiol, empreendimento que construiu e manteve com recursos próprios entre 1969 e 1979, na Avenida Amaral Gurgel. Ser dona do espaço por uma década permitiu que levantasse as montagens que tinha vontade, como À Flor da Pele e Abelardo e Heloísa, dirigidos por Flávio Rangel (1934-1988), e Bonitinha, mas Ordinária, sob o comando de Antunes Filho (1929-2019).
Vem da época de Bonitinha, mas Ordinária, de Nelson Rodrigues (1912-1980), uma das memórias mais impactantes da atriz e produtora. A peça foi proibida na véspera da estreia. Miriam viajou para Brasília e foi recebida com relativa simpatia. "Como a senhora que já fez espetáculos tão lindos vai se sujeitar a apresentar essa porcaria ao público", disse um censor. A atriz passou horas negociando com os militares a liberação para a sessão daquela noite, marcada para as 21h. "Eles exigiram trinta cortes, como tirar as palavras 'general' e 'prostituta', e repassei por telefone as orientações ao Antunes, que ensaiava com o elenco enquanto eu pegava o avião", lembra. "Cheguei às 22h30, e a plateia esperou."
Como insiste no verbo presente, Miriam reconstitui sua trajetória com satisfação e não idealiza o passado. Dificuldades sempre existiram. Para ela, o teatro se reinventa de tempos em tempos e supera as constantes crises. "O que mais lamento é que via muitos estudantes ao lado de espectadores daquela tradicional classe média e, agora, contamos nos dedos quem tem menos de 40 anos e frequenta teatro", observa. "Mas isto reflete uma mudança de comportamento da classe artística porque, quando a gente buscava empréstimos em banco para produzir, existia a preocupação em se comunicar com diferentes públicos."
Sob o Céu de Paris
- Onde: Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, Bela Vista
- Quando: Quinta a sábado, 20h, domingo e feriado, 19h
- Quanto: Grátis. Reserva de ingressos a partir da terça-feira da semana de apresentação no site do Itaú Cultural
- Duração: Até o dia 28