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MAM reabre com espaços repaginados e nova edição do Panorama após reforma de R$ 23 milhões

Museu de Arte Moderna, que permaneceu fechado por dois anos e passou por uma reforma de seis meses, recebe o 39º Panorama da Arte Brasileira, que a cada dois anos mapeia a produção contemporânea brasileira e revela novos talentos

14 set 2026 - 05h45
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Resumo
Após dois anos fechado, o MAM reabre em São Paulo com uma reforma de R$ 23 milhões, que modernizou acessibilidade, iluminação e climatização. A reabertura traz o novo restaurante Petí e a inauguração do 39º Panorama da Arte Brasileira, com 115 obras de 33 artistas contemporâneos até janeiro de 2027. Mesmo durante as obras da sede e da marquise do Ibirapuera, a instituição manteve exposições externas com seu acervo e já planeja mostras de León Ferrari e Rosana Paulino para o próximo ano.

São Paulo recebe de volta um dos seus mais importantes museus. No próximo sábado, 12 de setembro, o Museu de Arte Moderna (MAM) reabre suas portas após permanecer fechado por longos dois anos e passar por uma reforma de seis meses, a um custo de mais de R$ 23 milhões. É praticamente um novo museu. Na mesma data será inaugurado o 39º Panorama da Arte Brasileira, que a cada dois anos mapeia a produção contemporânea brasileira e revela novos talentos. Sob o tema Depois que Tudo foi Dito, 33 artistas de 13 Estados apresentam 115 obras, que estarão expostas até 24 de janeiro de 2027. Aos domingos o ingresso é gratuito.

Localizado no Parque Ibirapuera, o MAM é parte do complexo arquitetônico concebido por Oscar Niemeyer, que inclui Oca, o Pavilhão da Bienal, o Auditório e a Grande Marquise. A ampla reforma que acaba de ser realizada não foi programada. Em 2024, às vésperas da inauguração do 38a. Panorama da Arte Brasileira, o museu foi avisado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente que a marquise do parque passaria por uma reforma de aproximadamente quatro meses. Houve atrasos e a marquise só foi entregue no início do ano.

"Essa reforma caiu sobre a nossa cabeça como um raio. Um raio necessário", diz Elizabeth Machado de Oliveira, presidente do museu em seu terceiro biênio. Paulistana, economista, ela tem grande experiência na área da cultura. Durante 18 anos foi a principal gestora do antigo Teatro Alfa, hoje BTG Pactual Hall, atraindo um público estimado em três milhões de pessoas para 7.200 apresentações nacionais e internacionais, o que lhe rendeu, em 2019, a Ordem das Artes e Letras concedida pelo Ministério da Cultura da França.

Fachada do MAM, que reabre ao público após dois anos
Fachada do MAM, que reabre ao público após dois anos
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

"Nós tínhamos um Panorama para inaugurar em outubro. Em junho fomos avisados que deveríamos sair do museu em agosto. O Museu de Arte Contemporânea (MAC) nos acolheu muito bem, levamos a exposição para lá, realocamos as mais de cinco mil obras do acervo e embalamos os 65 mil volumes da nossa biblioteca, que foi para um depósito. Nesse período parte da nossa equipe ficou no MAC e parte na Bienal", ela explica.

Durante o período em que ficou fechado o museu não parou. Realizou mais de 20 exposições com parte do seu acervo em parceria com instituições como o Centro Cultural Fiesp, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Serviço Social do Comércio (Sesc), Instituto Tomie Ohtake, Biblioteca Mario de Andrade e Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). "Com essas exposições fora da nossa sede conseguimos que o acervo do museu ganhasse visibilidade", lembra Cauê Alves, curador chefe do MAM, mestre e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), professor de artes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e curador assistente do Pavilhão Brasileiro na 56ª Bienal de Veneza, em 2015. "Pretendemos continuar com essas colaborações", completa a presidente do museu.

A reforma, iniciada em fevereiro, foi realizada pelo escritório Metrópole Arquitetos, especializado em projetos de expografia e patrimônio cultural, que começou a trabalhar com o MAM em 2024. Havia uma proposta de ampliação. "Era um plano bastante ousado, mas com as obras do restauro da marquise e o fechamento da sede esse plano se mostrou inviável. Então apresentamos uma proposta de adequação dos espaços atuais", lembra Anna Helena Villela, sócia do Metrópole.

O Estadão visitou as obras com exclusividade. Todos os espaços foram remodelados. A um mês da reabertura dezenas de homens trabalhavam em cada canto do museu ao mesmo tempo em que o artista Jota Mombaça finalizava sua obra instalada na Sala de Vidro, onde durante anos esteve exposta a escultura Aranha, com três metros de altura, da franco-americana Louise Bourgeois, vendida em 2023. "O museu já tinha identificado a necessidade de atualização das infraestruturas, como ar-condicionado, iluminação e até problemas de circulação. Reorganizamos os fluxos, fizemos o espaço de acolhimento mais confortável, reformamos todo o auditório, as salas expositivas, área do educativo, da loja e da biblioteca", detalha a arquiteta.

Obra de Jota Mombaça agora ocupa a Sala de Vidro do MAM
Obra de Jota Mombaça agora ocupa a Sala de Vidro do MAM
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

A entrada está mais acessível e acolhedora. A escada que dava acesso ao auditório não existe mais. Anna Villela acrescenta: "O piso inteiro do MAM agora é plano. Realocamos a bilheteria sob a marquise. Nas duas salas de exposição desenhamos um forro técnico que comporta toda a infraestrutura. Um sistema de trilhos permite pendurar obras, equipamentos e iluminação cênica em qualquer ponto da sala". O ar-condicionado dos anos 1970 foi substituído, o novo projeto de iluminação tem luzes de led que não emitem raios ultravioleta.

A Biblioteca Paulo Mendes de Almeida se manteve no mesmo lugar, mas ganhou espaço. A lojinha tem paredes com revestimento em madeira. E a sala do MAM Educativo, onde acontecem oficinas com artistas e educadores, ganhou novo mobiliário, mais adequado e lúdico. O museu foi pioneiro no País na formação de público através de atividades, as mais variadas, de cursos e ateliers para adultos e crianças a visitas mediadas em Libras e audiodescrição, além de programas para alunos e professores de escolas públicas.

Outro detalhe é a troca dos vidros que circundam boa parte do museu. Eles são transparentes, possuem um tipo especial de película que protege as obras e ao mesmo tempo permitem um diálogo entre as exposições e o Jardim das Esculturas, localizado bem em frente ao MAM. Há planos para a renovação desse jardim, que devem acontecer até o final do ano. Para a reabertura do museu ele vai ganhar uma nova obra assinada pela artista Elisa Bracher, em granito, em substituição a um banco feito em madeira que ela havia doado e, exposto ao tempo, se deteriorou.

Vidros que circundam o MAM foram trocados durante a reforma pela qual o museu passou
Vidros que circundam o MAM foram trocados durante a reforma pela qual o museu passou
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

O maior desafio se deu em relação à reforma da marquise. "A marquise tem essa forma fluida, é uma estrutura dos anos 1950 e estabelece limites. A face inferior foi demolida e substituída por um forro. Atualmente o único trecho da marquise integralmente original, conforme concebida por Oscar Niemeyer, é o trecho do MAM", conta a arquiteta. "No final, construímos outro museu", resume Elizabeth Machado, que não desistiu da possibilidade de uma sede maior. "Uma hora a gente vai voltar a pensar nisso. Temos um acervo muito bonito, mas não temos espaço suficiente para mostrar". A obra mais antiga do acervo do MAM é uma gravura de Carlos Oswald de 1909, doada em 1986 por Marcelo Grassmann. A doação mais recente, com obras de artistas como Renina Katz, Mario Gruber, Clovis Graciano e Maria Bonomi, é do casal Rose e Alfredo Setubal.

O restaurante vai ser comandado pela restauratrice Bárbara Camargo e pelo chef Victor Dimitrow, do antigo Petí, que após 11 anos deixa a loja de artigos de pintura rua Cotoxó, em Perdizes, para se instalar no museu. "Vejo a mudança como resultado da constância e da qualidade que construímos ao longo desses anos. É a oportunidade de levar nossa cozinha para um novo contexto, ampliando o diálogo entre gastronomia, arte e cultura", diz Dimitrow. O Petí no MAM vai servir café da manhã, menu-executivo no almoço durante a semana e brunch aos sábados e domingos, de terça a domingo das 10h às 18h.

Obra de Carmela Gross é parte da decoração do Petí, novo restaurante do museu
Obra de Carmela Gross é parte da decoração do Petí, novo restaurante do museu
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

Uma escultura em neon rosa da artista Carmela Gross também faz parte da decoração do restaurante e poderá ser vista do lado de fora. "Ela desenhou um mapa do Brasil à mão livre, de memória. Esse mapa acabou ficando deformado e essa deformação é importante para imaginar um Brasil que não é pleno, não é idealizado", explica o curador do museu. Essa escultura luminosa também foi produzida pela artista em tamanho menor, banhada a ouro, para celebrar os 40 anos do Clube de Colecionadores e estará disponível para venda no site do museu. Anualmente a curadoria do MAM seleciona três artistas que produzem obras, em edições limitadas, para os integrantes do clube, que podem adquiri-las a um custo abaixo do mercado - neste caso, R$ 8 mil. São apenas 70 peças de cada artista e posteriormente as obras vão todas para o acervo.

A edição 2026/2027 do Clube de Colecionadores terá trabalhos de Mayara Ferrão, Rodrigo Cass e León Ferrari. "Enquanto existem museus que vendem obras para se sustentarem, nós vendemos obras para aumentar a nossa coleção e para incentivar o desenvolvimento do colecionismo", diz Cauê Alves. A associação ao clube é anual.

Panorama e o que vem depois

Sob a curadoria de Diana Lima, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo e curadora do pavilhão brasileiro da 61ª Bienal de Veneza, o Panorama da Arte Brasileira traz obras de Allan Weber, Amorí, Ana Claudia Almeida, André Felipe Cardoso, Anti Ribeiro, Arorá, Bárbara Banida, biarritzzz, Carolina Cordeiro, Caroline Ricca Lee, Chacha Barja, Darks Miranda, Emer Freire, Fykyá Pankararu, Gilson Plano, Helô Sanvoy, Iagor Peres, Josi, Jota Mombaça, Kuenan Mayu, Lia D Castro, Lita Cerqueira, Marcelo Conceição, Moacir Soares de Faria, Nazas, Osvaldo Gaia, Oto Ferreira, Rafael Chavez, Rayana Rayo, Rodrigo Cass, Rose Afefé, Thaís Muniz e Ygor Landarin.

Seleção do 39º Panorama do MAM foi inspirado no pensamento de Denise Ferreira da Silva, filósofa e teórica decolonial
Seleção do 39º Panorama do MAM foi inspirado no pensamento de Denise Ferreira da Silva, filósofa e teórica decolonial
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

O processo seletivo levou cinco meses e foi inspirado no pensamento de Denise Ferreira da Silva, filósofa e teórica decolonial. "Eu queria refletir essa experiência histórica de lugar, celebrando e honrando a reviravolta epistemológica que tem ocorrido nas últimas duas décadas a partir do trabalho de mulheres negras e do feminismo negro, da qual Denise é uma das principais vozes no mundo", conta a curadora, que ano passado foi nomeada para o Conselho Consultivo Científico da documenta e do Museum Fridericianum gGmbH, na Alemanha. "Esse projeto foi selecionado porque propunha um olhar que desloca leituras convencionais da arte contemporânea brasileira" lembra o curador do MAM.

Para o ano que vem o museu tem duas exposições definidas, que serão inauguradas em fevereiro, logo após o Panorama. O pintor, gravador, escultor e artista multimídia argentino León Ferrari, considerado um dos mais relevantes artistas latino-americanos do século 20, morto em julho de 2013, ganha uma grande exposição, na sala Milú Villela, dedicada aos 50 anos do seu exílio no Brasil.

O público poderá conhecer parte importante de sua obra provocadora e politicamente engajada, em especial trabalhos que ele produziu quando morou em São Paulo, época em que a Argentina vivia sob ditadura militar. E a sala Paulo Figueiredo vai receber obras da paulistana Rosana Paulino, importante educadora e pesquisadora e artista. "Essa mostra vai focar especialmente na sua produção gráfica, desenhos e gravuras, que é pouco conhecida", adianta Cauê Alves.

Estadão
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