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Livros com mais de 500 páginas: quais são os 'calhamaços' que os jovens estão lendo na Bienal?

Circulamos pela Bienal do Livro de São Paulo 2026 para entender o que atrai os leitores para livros maiores; fantasia e romantasia são destaque entre os mais lidos e vendidos

14 set 2026 - 06h05
(atualizado às 07h54)
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Resumo
Na Bienal do Livro de São Paulo 2026, os "calhamaços" — obras com mais de 500 páginas — destacaram-se entre os mais vendidos, impulsionados pelo público jovem. O fenômeno é liderado por títulos de fantasia e "romantasias", como Quarta Asa e Alchemised. Além de buscarem enredos envolventes e complexos, os leitores são atraídos pelo apelo visual promovido por redes como o BookTok, fazendo as editoras apostarem em edições especiais e colecionáveis, que transformam o livro físico em objeto de desejo.

"Caderno ou livro com grande quantidade de páginas e muito volumoso". É a definição do dicionário Michaelis para "calhamaço", termo coloquial que os leitores usam para descrever aqueles livros que só de olhar sabemos que será um desafio por termos de enfrentar 500, 600, quem sabe até mil páginas.

Acontece que para muitos jovens leitores os calhamaços nem sempre representam um desafio. Ou, se representam, são um desafio que eles enfrentam com gosto. Na Bienal do Livro de São Paulo 2026, que se encerra neste domingo, 13, no Anhembi Distrito, os livros de 500 páginas apareciam com frequência entre as listas de mais vendidos das editoras.

A vendedora Bárbara Melo, de 25 anos, circulava pelo estande da Intrínseca para conferir o preço de Alchemised, livro de SenLinYu que esteve entre os destaques da editora ao longo de todo o evento. As 960 páginas do romance não a assustam, pelo contrário: "Esse é meu ponto fraco, acho maravilhoso, por isso estou pesquisando."

Movimentação na Bienal do Livro de São Paulo, no Distrito Anhembi. Livros de fantasia costumam ser os favoritos dentre leitores de 'calhamaços'.
Movimentação na Bienal do Livro de São Paulo, no Distrito Anhembi. Livros de fantasia costumam ser os favoritos dentre leitores de 'calhamaços'.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

O livro de SenLinYu - que foi um dos destaques da Bienal, e esteve no evento entre os dias 11 e 12 de setembro - é uma fantasia sombria que une magia, violência, romance e uma guerra brutal, mas Bárbara diz que os calhamaços que mais lhe chamam a atenção são as romantasias. O termo se popularizou nos últimos anos no mercado editorial para descrever livros que unem um universo fantástico com histórias de amor.

Na última edição da Bienal do Livro, as romantasias se consolidaram como fenômeno editorial. Neste ano, elas continuam sendo destaque em muitos selos. É o caso da série best-seller Quarta Asa, de Rebecca Yarros, que tinha ao menos três versões diferentes e colecionáveis sendo vendidas no estande da editora Planeta. O primeiro volume da saga tem 544 páginas, enquanto o segundo e o terceiro têm 784 e 656, respectivamente.

No lado de fora do estande, um espaço "instagramável" foi montado com um dragão, com direitos a fumaça e efeitos sonoros. Na história, a protagonista Violet é enviada para treinamento em uma escola de elite para poderosos cavaleiros de dragões.

A estudante de engenharia mecânica Sophia Nicodemos, de 23 anos, tirava fotos no ambiente cenográfico quando cruzou com a reportagem do Estadão. "Eu li todos os livros de Quarta Asa, mas tenho esse costume de ler coleções. Por exemplo, As Crônicas de Nárnia, são aqueles livros pequenos que depois viram livros grandões", conta. "Acho que quando a história te envolve, você não vê o tempo passando. Agora quando a história é chata, 50 páginas já são tortura."

Ela diz que, se estiver verdadeiramente envolvida na história e lendo com muito afinco, termina um livro de 500 páginas em até três dias. "Eu sou uma pessoa que gosta muito de fantasia, então quando tem esse apelo para algo místico já me convence. Além disso, quando tem uma descrição acessível, que você lê e entende aquilo que o autor quer te passar, isso já me estimula mais a ler", explica.

'Alchemised', livro de quase mil páginas, é um dos 'calhamaços' que fizeram sucesso na Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026.
'Alchemised', livro de quase mil páginas, é um dos 'calhamaços' que fizeram sucesso na Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026.
Foto: Julia Queiroz/Estadão / Estadão

Em seus respectivos estandes, Alchemised e Quarta Asa estavam sendo vendidos em mais de uma edição. Normalmente, uma versão comum, em brochura, e outra mais elaborada, com capa dura, hot stamping, pintura lateral e fitilho. Era o caso também da série Assistente do Vilão, cujo primeiro volume tinha duas edições à venda no estande da Globo Livros.

Publicados pelo selo Alt, voltado ao público mais jovem, todos os livros da saga de Hannah Nicole Maehrer têm entre 500 e 600 páginas. Os quatro volumes da série apareceram na lista de mais vendidos do grupo.

Em 2025, o Estadão já tinha mostrado como o mercado editorial tem investido em edições "diferenciadas" como estratégia para atrair o público jovem para o livro físico. Em meio ao sucesso do BookTok e a popularização da leitura nas redes sociais, o livro passa a ser mais do que a história, se torna também um objeto de desejo.

"Para mim, o volume de páginas não é o que decide se vou ler um livro ou não. É muito mais ligada à história do que ao tamanho. Se você tem dificuldade para ler alguma coisa, diria que o Kindle [e-reader da Amazon] é a melhor coisa, porque você não vê o tamanho. Mas ler um livro, seja pequeno ou grande, está muito mais relacionado ao prazer da leitura do que ao tamanho dela", defende Marcela Brandão, de 28 anos.

Profissional de marketing, ela estava no estande da HarperCollins Brasil na intenção de comprar A Canção dos Dragões Perdidos, continuação de O Despertar da Lua Caída, romantasia de Sarah A. Parker. A edição com capa dura e com pintura trilateral tem 624 páginas. Entre seus calhamaços favoritos, Marcela cita Império do Vampiro, de 976 páginas, cujo autor Jay Kristoff era um dos destaques da Plataforma 21 na Bienal.

Para a estudante de psicologia Luiza Helena Liebl, de 21 anos, os livros de fantasia costumam ser calhamaços mais interessantes pela possibilidade de apresentar histórias e universos mais complexos e que precisam ser aprofundados.

"Mas depende muito da autora. O último livro que era 'grandão' assim que eu li foi O Priorado da Laranjeira: A Maga [de Samantha Shannon, publicado pela Plataforma 21]. É um livro pelo qual me apaixonei muito, eu gosto muito da forma como ela escreve, faz muito sentido ser um calhamaço", argumenta ela.

Estadão
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