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 Foto: Arquivo pessoal/Carla Madeira

Carla Madeira revela bastidores de novo livro que surge após viver sequência de lutos: 'Precisei da linguagem para dar conta da realidade'

Em entrevista exclusiva ao Terra, autora de 'Tudo é rio' revela bastidores de seu processo criativo e do novo lançamento

Imagem: Arquivo pessoal/Carla Madeira
  • Beatriz Araujo Beatriz Araujo
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6 mar 2026 - 04h58

Tudo é rio (2014), A natureza da mordida (2018), Véspera (2021). São os títulos dos livros que tornaram Carla Madeira uma das autoras brasileiras mais lidas dos últimos anos. Sua forma de retratar histórias trágicas e intensas fisgou o público. Já ela, com a experiência, precisou tomar fôlego. Não pretendia começar um quarto livro nem tão cedo. Até que perdeu a mãe, a psicanalista e a sócia, que era uma amiga de longa data, em um intervalo de um ano. Tudo mudou. “Precisei da linguagem para dar conta da realidade”. Agora, na reta final para entregar a nova obra, ela diz estar tomada pelo processo. Não quer sair nem para ir ao mercado, nem tomar qualquer decisão prática. Está fechada no mundo que está criando – mas abriu uma brecha para o Terra, em entrevista exclusiva, onde conta mais sobre seus processos.

Para Carla, “escrever é um corpo escutando”, e esse processo não é planejado. Ela, agora com 61 anos, conta que sempre foi ligada a linguagens artísticas, e que sua forma de descansar ou se divertir sempre esteve muito ligada a estar criando -- pintando, compondo, cantando, escrevendo. Tudo é rio surgiu dessa forma. Ela comprou um computador pessoal novo e estava animada para usá-lo. Resolveu escrever uma história, que foi fluindo, fluindo… até que ela descreveu uma cena de violência muito forte e se assustou com o que leu. Carla demorou para digerir. Demorou para conseguir dar contexto à tudo aquilo. No fim, o best-seller levou mais de 10 anos para ser finaizado. E, depois de escrever, precisou se afastar por um tempo. Foi uma coisa radical, diz.

Carla Madeira perdeu a mãe, dona Irlanda, em 2022. Para a autora, sua mãe sempre foi uma pessoa solar, que tinha encantamento com a vida e sensibilidade
Carla Madeira perdeu a mãe, dona Irlanda, em 2022. Para a autora, sua mãe sempre foi uma pessoa solar, que tinha encantamento com a vida e sensibilidade
Foto: Reprodução/Instagram/@eucarlamadeira

Já agora, a situação é diferente. “Antes, eu escrevi uma coisa e tive que ir para a vida para dar conta, para ter maturidade, para ter vivência. Com esse novo livro foi o contrário. Eu estava vivendo uma sequência de lutos e isso produziu um corpo muito afetado. Ele precisava produzir sentido, ir atrás da possibilidade da linguagem para produzir algum sentido. O livro não tem nada a ver com meus lutos, a história não passa por aí. Mas eu precisei da linguagem pra dar conta da realidade”.

Ela já está trabalhando no novo livro há cerca de quatro anos e deve entregar o material até, no mais tardar, em meados de abril, com a expectativa para a obra ser publicada ainda neste ano. Carla deu um pequeno spoiler: a sinopse envolve uma mãe que denuncia um filho.

“Eu sei muito pouco sobre o que eu vou falar ao longo do livro, para onde ele vai me levar, tudo costuma acontecer na medida que eu vou escrevendo”, explica. Ler um livro de Carla Madeira é se deparar, no cru, com muitas dores do mundo. Ela conta que não teve algum acontecimento em específico que a fez começar a escrever histórias com essa pegada. Mas considera que a própria vida a fez seguir esse caminho. 

“Nós estamos todos os dias completamente perplexos e chocados com a tragédia. Aliás, eu acho que pego leve perto do que estou vendo no mundo. Eu acho que ando pegando leve. Porque é muito chocante o que a gente vê o tempo inteiro. No Brasil, então, a gente é exposto a um nível de violência enlouquecedor, até o nível de insanidade”, acredita.

“Essa realidade me afeta demais. Eu não consigo olhar para isso e não tentar entender qualquer dinâmica que está por trás dessa produção enlouquecida de violência que a gente tem vivido” – Carla Madeira.

‘Ponto de extensão’

O lado prazeroso de fazer o que faz, escrevendo sobre o que escreve, é o da linguagem. “Meus livros têm sempre na linguagem alguma coisa tentando ajudar a gente a olhar para aquela tragédia. Tudo é rio tem um poético, eu acho que Véspera tem uma linguagem que às vezes tem até um pouco de humor ali, sabe... Uma ludicidade na linguagem que me ajuda a conseguir encarar essas coisas tão difíceis. Acho que se eu não pudesse, de alguma forma, ter esse ponto de extensão, que é a busca da linguagem, da palavra, da forma, que tanto me envolve, eu acho que eu ficaria num limite aí do adoecimento mesmo”, conta.

Para ela, é a linguagem que leva as pessoas para os lugares. “As histórias [de seus livros] não são tão originais na vida. Se você pensar bem, são poucas histórias. Histórias de separação, de decepção, de violência, de reencontro, de dúvida, de sexualidade… As histórias já foram contadas. A gente está buscando é uma linguagem, um frescor, um outro jeito de contar aquela história e levar as pessoas para dentro dela”.

“Eu tenho uma coisa muito legal, que é muito forte. Quando eu estou escrevendo, eu consigo deixar o mundo lá de fora. A angústia me vem é no intervalo, na hora que eu paro” - Carla Madeira.

Na reta final de escrita de um livro, como está vivendo no momento, Carla Madeira conta que gosta de ficar imersa. “Eu fico muito chateada quando eu tenho que tomar uma providência, quando tenho que fazer algo da vida objetiva, prática. Me chateia profundamente. Realmente só me interessa estar escrevendo, eu fico tomada. Não quero decidir nada, quero escrever”.

Registro de Carla Madeira participando de uma roda de conversa sobre literatura em Milão, no ano passado. Seu sucesso tem ganhado o mundo -- com, inclusive, 'Tudo é rio' tendo sido traduzido em diversas línguas.
Registro de Carla Madeira participando de uma roda de conversa sobre literatura em Milão, no ano passado. Seu sucesso tem ganhado o mundo -- com, inclusive, 'Tudo é rio' tendo sido traduzido em diversas línguas.
Foto: Reprodução/Instagram/@eucarlamadeira

Carla é discreta na internet, e tem se afastado ainda mais das redes sociais nesse momento. Nos grupos de aplicativos mensagem, fica ausente e admite que acaba até deixando de dar ‘parabéns’ a aniversariantes do dia. Tenta também se blindar das notícias, acompanhando o noticiário só “de leve”. “Não está dando para pôr uma energia emocional e afetiva nesse lugar, sabe?”, explica. Já ler é algo que ela não para de fazer. Seu novo livro terá um personagem criança, e ela diz que está revisitando várias obras infantis. Relendo Meu Pé de Laranja Lima, livros narrados por crianças, ou narrado por adultos de uma época da infância, por exemplo.

Mas ninguém é de ferro. “Tem momentos na construção do livro que eu preciso tomar fôlego, porque me leva para lugares que me afetam muito. Que me entristecem, ou que me dão angústias”, revela a autora. Para lidar com tudo isso, além de se manter uma leitora ativa, Carla revelou um pouco de como é sua rotina.

“Eu faço meditação toda manhã, e isso pra mim é muito sagrado. Eu acordo, medito, faço uma coisa chamada ‘alinhamento de chakras’. Pra mim é muito bom. Faço atividade física, que eu adoro. E eu tenho uma playlist que comecei a fazer na época da pandemia, de músicas dançantes. Normalmente músicas brasileiras, que eu gosto de dançar. De manhã eu faço um ‘aquecimento’ com essas músicas e é maravilhoso. Eu tenho muito desses recursos”. Ela também tem ido muito ao cinema e visto os filmes da sequência para o Oscar, assim como gosta de acompanhar algumas séries. 

Como todo mundo, ela também tem um tempinho para as “bobagens alienantes”. Nada de pesadoo que gosta de fazer é acompanhar cortes de cabelo nas redes sociais. “Eu tenho vários, vários. O meu algoritmo já me entrega isso. Pessoas que cortam o cabelo, e eu fico vendo o antes e depois. Adoro isso. É uma bobagem completamente alienante, mas eu gosto”. Além disso, Carla Madeira está reformando uma casa de campo que tem com o marido e tem se divertido vendo coisas de obra. 

‘Proteger o espaço criativo’

Carla Madeira se tornou um fenômeno literário. É muito bom ver os livros acontecerem e toda a ressonância e discussões que os livros provocam, conta. Mas estar nesse lugar também significa lidar com uma série de novas questões. “As pessoas estão ali, falando sobre aquilo, de certa maneira. Isso é super legal. Mas às vezes também tiveram momentos em que eu queria estar mais reservada ainda, no sentido de determinadas vezes em que essas ressonâncias são... Assim… Muito pra agredir, ou pra... não sei. Em alguns momentos a gente vive isso. Quando você está muito exposto, você vive para o bem e para o mal”, complementa, com cuidado nas palavras.

Carla Madeira é natural de Belo Horizonte, já chegou a cursar Matemática e depois seguiu para a área de publicidade, jornalismo e relações públicas. No passado, chegou a ser professora da Universidade Federal de Minas Gerais durante três anos, onde deu aulas de redação publicitária. Além disso, ia completar 40 anos na agência de comunicação Lápis Raro, empresa que foi uma das sócias fundadoras e agora foi vendida.

Por agora ser conhecida como autora, colocar uma nova obra no mundo é também pari-la em um outro patamar. “Eu gostaria muito de estar escrevendo esse livro [a nova obra] sem me lembrar, às vezes, de que ele vai ser lido. No sentido da liberdade. O primeiro livro que a gente escreve é maravilhoso nesse lugar, porque você não tem expectativa de nada, você não sabe se as pessoas vão ler ou não, você fica muito livre. Você não é afetado por nenhum constrangimento externo”, relata.

Ela encara isso tudo como uma realidade que a desafia. Que mostra fragilidades e, também, ilumina. “Você vai se tornando uma pessoa pública, tem que lidar com a complexidade desse lugar de ser conhecida. De, sabe, desistir muito da expectativa, de como será o novo livro, se vai ser bom, não vai ser bom...”. O que, no caso, bate muito de frente com suas expectativas iniciais: “Como publicitária, tudo que eu criava era julgado, ou aprovado ou reprovado pelos clientes. Aquilo não era meu. E quando eu vou lá no meu momento de lazer e começo a escrever, eu estava achando que agora tinha encontrado a liberdade”.

Mesmo assim, ela sente que tem conseguido proteger seu espaço criativo. “Nesse novo livro tô experimentando, sabe? Tô experimentando, Tá uma delícia, tá maravilhoso. Então ele tá me dando, me dando muito. Eu não sei pra onde ele vai me levar. Mas de onde ele me tirou, já tá maravilhoso”.

Carla Madeira, agora, trabalha em seu quarto livro
Carla Madeira, agora, trabalha em seu quarto livro
Foto: Reprodução

‘Mundo que inventamos’

Carla Madeira marcará presença no Festival Fronteiras, em São Paulo, neste domingo, 8 de março. No evento, que tem apoio do Terra, participará da programação: “A arte de ser: criatividade e os mundos que inventamos” ao lado de Bárbara Paz, atriz e diretora; Socorro Acioli, escritora premiada e autora de ‘A cabeça do santo’; e de Cris Naumovs, consultora de criatividade e comunicação para grandes marcas. Neste dia, a programação será 100% feminina em comemoração do Dia Internacional da Mulher. 

Serão dois dias de evento, sábado e domingo, no Parque da Água Branca, na Barra Funda, com mais de 60 palestras em palcos simultâneos. Entre os nomes confirmados também estão Monja Coen, Lilia Moritz Schwarcz, Milton Hatoum, Roberto DaMatta, Mary del Priore, Miriam Leitão, Luiz Felipe Pondé, Kaká Werá, Pérsio Arida, Matias Spektor, Ronaldo Lemos, Rachel Maia, Martha Gabriel, Malu Gaspar, Sérgio Dávila, Fernando Gabeira e Eduardo Giannetti. 

Os ingressos, para cada um dos dias, estão disponíveis a partir de R$ 209. Mais detalhes podem ser conferidos no site festivalfronteiras.com.br.

Fonte: Portal Terra
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